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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

9 de Janeiro – segunda-feira

I

O fim-de-semana estava a saber bem. Parece sempre pouco natural a sua interrupção por uma segunda-feira. É algo que soa a disruptivo. Enquanto o autocarro treme no seu balanço praguejo pela anormal claridade no interior do mesmo que não me permite pregar olho. Isto apesar de das 16 lâmpadas possíveis, apenas 6 estarem funcionais. A meia eficiência tem coisas destas. Haverá sempre alguém esteja descontente. Mesmo que esse alguém utilize a referida luminosidade para escrever estas linhas.

Quando saiu do autocarro cheira-me que há lodo no cais… Inspiro novamente; confirma-se.

Sou a última peça de tetris daquela carruagem do metropolitano. Cuidadosamente “sardinho-enlato-me”, para não moer as restantes sardinhas. Sim, porque existe uma espécie de código de conduta tacitamente e subliminarmente aceite entre os utilizadores de Metro. O “empurra só um bocadinho, que cabe sempre mais um” é executado com jeitinho e respeito. Quem nunca se viu perante esta situação? Esta é também uma forma de impedir o exercício da actividade dos carteiristas. Ao não conseguirem mexer os seus membros superiores, que no fundo são a sua ferramenta de trabalho, os meliantes vêem-se impossibilitados de fazer o seu trabalho.

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II

A manhã fez-se tarde sob um sol invernal, que remete para um conforto térmico raro nesta estação. Saiu alegre. Pronto para chegar à beira-rio e gozar uns bons minutos de veraneio antes da partida da carreira fluvial, sempre às horas e às meias-hora. Decidi ir até ao Terreiro do Paço e seguir a pé até ao Cais do Sodré. Lembrei-me que há muito não passava pelo apartado. Lamento que as obras já tivessem acabado na Rua do Arsenal, o que já não permitia que a percorresse pelo meio do asfalto como aconteceu por um largo período. Mas em compensação tínhamos recebido uma carta. Que bom. Estava em pulgas para saber o seu conteúdo, mas só a abriria no barco.

Entretanto chego ao rio que no seu estuário, em maré cheia, transmite o seu perfume a sal. O sal não tem odor, ou tem? Claro que sim! Cheira a azul; a azul e a verde. E entre as calmas águas eis que chega o Castelo. É sinal de que devo-me colocar a caminho. Embarco com destino à margem sul. Naquela resplandecente tarde, o barco leva as luzes interiores desnecessariamente acesas. Recordo as dificuldades orçamentais que as empresas públicas de transportes colectivos atravessam. Leva também o pavilhão a meia-haste. Sento-me e abro a carta. São boas notícias.

Na margem o helicóptero olha o rio. Indeciso entre ficar quedo ou respeitar a sua natureza inquieta e dar uso às suas hélices. Os mergulhões pousam nas bóias sinalizadoras e os guinchos esvoaçam rasantes à água, ambos parecendo fazer pirraça ao helicóptero que fica ainda mais nervoso. Os homens vão marcando posição nos baixios com o intuito de caçar o bivalve proibido. Mais à frente as gaivotas prevaricam a lei dos homens. Não sabem ler; não querem saber.

À medida que o autocarro faz o seu percurso pelo entardecer adentro, os óculos-de-sol deixam de fazer sentido. Guardo-os no estojo dentro da mala, como se de uma jóia se tratasse. E noto como é bom ainda restar alguma claridade nestes dias curtos (por definição).

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