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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

9 de Fevereiro – quinta-feira

I

Adormeci e perdi a hora. Esta era certamente a forma do meu corpo avisar que estava mais frio esta manhã e que mais valia ficar na cama. Atropelo-me para sair e mal ponho o nariz na rua sinto que devia ter cedido à preguiça, mãe de todos os vícios. E mãe é mãe; não deve ser colocada em causa a sua vontade.

Quando chego ao barco fiquei com a sensação de que alguém me apanhou a dormir e esvaziou o estuário. O acesso descia vertiginosamente até ao navio. De um lado e de outro pontificava o lodo. Pensei se q embarcação iria navegar a sua cais do cais ou escavá-la…

IMG_20170313_070901_852.jpgA vantagem de ter perdido a ligação habitual foi que tive a oportunidade de assistir ao nascer do sol durante o percurso para a capital. Decididamente Há espectáculos na natureza que a capacidade humana nunca conseguirá replicar. Já me dava por contente se não os estragassem. De repente lembro-me que hoje tenho consulta de dentista e tudo o que me parecia belo passou a tenebroso. 

A senhora entra no barco de cara medonha. Isola-se num banco e perscruta a sua bolsa na procura de alguns utensílios. Saca de uma bolsa de dentro da bolsa. Numa expectativa matrioska pensei que dali sairia outra bolsa. Engano meu. Da bolsinha saíam utensílios para pintar. Não para pintar quadros, embora às vezes também possam fazer arte. Lá estão um espelho de bolso, um batom, um lápis e um rímel. No espelho avalia a par e passo o resultado da sua empreitada. A onda malandra treme o risco que se queria preciso. Pensei que a senhora sacaria uma borracha da bolsinha. Engano meu. O utensílio pra corrigir aquele acidente de percurso foi um mindinho salivado. A senhora guarda diligentemente os objectos dentro da bolsa, que por sua vez acomoda dentro da outra bolsa. Com confiança a senhora perfila-se, tentando medir o impacto da sua obra na opinião pública. Da minha parte estava rendido. Nem parecia a mesma. Estive quase para saudá-la com uma ovação de pé, mas julguei que podia se demasiado. Interiorizei um bravo e pensei que também eu podia aderir às maravilhas da maquilhagem. Com certeza que só podia sair favorecido. Eu e muitos outros homens de aspecto miserável.

II

Ontem tinha passado na livraria Pó dos Livros à procura da obra “Utopia” de Thomas Moore. As várias edições estão todas esgotadas e pensei que lá poderia encontrar no meio dos livros usados. Não tinham… Mas ficaram com o meu número de contacto para no caso de o descobrirem por aí. Ainda nem duas horas tinham decorrido e já me estavam a remeter um SMS a dizer que tinham a obra lá guardada em meu nome.

Hoje aproveitei a hora de almoço para ir buscar o livro. A edição é antiga e deliciosa, vinda de uma colecção coordenada pelo Professor Bento de Jesus Caraça. No metro, quando regressava ao trabalho, lanço os olhos pela obra na qual entra um viajante português. O meu agradecimento a uma livraria especial, com pessoal extraordinário.

Nota: perdoem-me a publicidade gratuita.

III

IMG_20170306_191834_840.jpgUma das coisas que registo sempre com curiosidade é entrar nos túneis do metro com um determinado estado do tempo e sair com outro. Parece que passamos numa espécie de portal para uma realidade paralela. Esta tarde, quando entro nos túneis o tempo estava estável, embora o sol não brilhasse. Não havia vento, nem céu sobrecarregado de nuvens. Quando saí parecia que uma hecatombe se tinha abatido sobre a capital. Chuva tocada a vento e uma negritude que tinha invadido o céu da tarde, dando-lhe uma tonalidade já nocturna. As águas do Tejo tinham-se abespinhado perante tal intempérie e espumavam com sofreguidão. 

Enquanto o barco fazia seu caminho, maldizia o facto de ter um mau relacionamento com o guarda-chuva e raramente andar com um. Por outro lado, agradecia ter adormecido pela manhã e ter trazido o carro até ao Cais, estando estacionada praticamente à porta do barco. Menos mal…

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