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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

6 de Fevereiro – segunda-feira

I

De início pensava que podia sair destes escritos um livro. Depois questionei quem é que no seu perfeito juízo estaria disposto a comprar um compêndio de apontamentos, divagações e alucinações que um comum mortal regista durante as suas viagens em transportes públicos? Era demasiado pretensiosismo da minha parte. Decidi então registar tudo num sítio da internet ou criar um blogue, onde colocaria estes relatos. Teria de me apressar, pois já havia um mês de escrita pronto para passar ao monitor.

O leve balouço do barco amadurecia esta ideia e concluía que seria o melhor caminho a tomar. O problema é que graficamente tenho a sensibilidade de um bacalhau. Daqueles já espalmados e salgados e tudo… Teria de reunir opiniões e ajuda de pessoas que se movimentassem bem no mundo digital. Simultaneamente, a solução a adoptar teria de ser simples o suficiente para conseguir dominar os seus pressupostos e actualizar facilmente o conteúdo, diariamente ou semanalmente, ainda não estava certo do que seria melhor e/ou possível.

Aos 30” de tempo de espera faz eco no cais o barulho no metro a aproximar-se no túnel. A senhora com a sacola de couro levanta-se de um movimento e desloca-se para a beira do cais. Sem nunca ultrapassar a linha amarela, tal como o anúncio tantas vezes repetido. Saltita de um pé para o outro, numa clara ânsia de ver chegar a composição que a levará ao seu destino, ou então somente a outra ligação. Quando entramos senta-se imediatamente e começa a esfrega freneticamente no ecrã do telemóvel. Deduzo que trocaria informações com alguém do outro lado do visor. Ia acompanhando o diálogo através das expressões do seu rosto. Ansiedade, felicidade, decepção, alegria, dúvida… Tudo em micro-expressões, como gostam de dizer os entendidos. Em segundo de emotividade. Saí antes dela; não soube o fim da conversa.

II

Ocasionalmente, quando o catamarã cruza sua rota com a rota de outro barco de igual ou superior dimensão, sofre um efeito balancé devido à ondulação momentânea provocada. Outrora lembro-me que me causava uma impressão no estômago perante esta situação. Agora só me causa um ligeiro arrepio quando a ondulação é realmente grande; daquelas que o rabo dá um saltinho no assento. Tal como tudo na vida habituamo-nos a conviver com a excepcionalidade, que, pela sua frequência, passa a trivialidade.

Olho pelo vidro e vejo o gentil bailado das aves marinhas. Outras mais ao fundo, perscrutavam o lodo à procura de petiscos. Também a esta beleza natural já me habituei. Antes colava-me ao vidro maravilhado pelo voo da garça, a elegância do flamingo ou o mergulho do pato bravo. Agora também isso fazia parte da banalidade. Para que continuasse a ser especial precisava de fingir a estupefacção de vez em quando. Tal como fingia o frio na barriga ao sentir o balouçar do barco. Mesmo que isso me valesse a reprovação silenciosa daqueles que me acompanhavam na ligação fluvial.

Enquanto percorro a estrada paralela à vedação da Base Aérea n.º 6, noto que para lá da rede existem muitas árvores jovens recentemente plantadas. Não posso deixar de sentir compaixão por estes espécimes, pois caos se confirme que este espaço será adaptado também à aviação civil, terão os dias contados.

IMG_20170102_113059_343.jpg

Já na cidade, a senhora rega o relvado de sua moradia com visível orgulho. Não é razão para menos. O verde é tão verde, que até custa olhar. Chego a pensar que o que a senhora tem na mão não é uma mangueira mas uma pistola de pintura. Na realidade esta não rega a relva; pinta-se de um verde brutalmente vivo. E até os pardais são enganados, como comprova a felicidade com que se engalfinham entre as ervas pintadas de fresco. Só mais tarde, ao poisarem no ramo da árvore habitual, e ao relatarem estridentemente as aventuras voadoras do dia antes de dormir, repararão no verde das suas patinhas, sem encontrarem explicação lógica para o fenómeno.

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