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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

5 de Janeiro – quinta-feira

I

Ao sair de casa não percebo se as altas camadas da atmosfera tinham descido à terra ou se a superfície desta se tinha elevado. O certo é que dei por mim no meio de uma densa penumbra, enquanto me deslocava para apanhar a carreira, como se diz nestes lados. Ao longe detecto o barulho característico do camião do lixo. Aos poucos lá começo a vislumbrar a fluorescência das fardas que suportam a mecanização dos gestos. Secretamente ia ponderando quanto o trabalho daqueles homens e mulheres era imprescindível à nossa sociedade. Arrependi-me por não lhes ter dito isto de viva voz. O reconhecimento é subvalorizado. Bastava uma palavra de apreço ou um gesto revelador. Não o fiz. Escrevo agora ciente que não o substitui, mas sempre atenua um pouco a minha falha.

Pondero se sou um gajo perturbado, enquanto a senhora anuncia pelos altifalantes que existem perturbações na linha. Tendo esse tipo de caracterização em mente, qual o grau de perturbação que me assolaria? Seria uma perturbação fiável e constante como as perturbações do metro? Seria uma perturbação ocasional e ligeira de quando adormeço pela manhã e perco a hora? Ou seria apenas uma perturbação ligada às falhas e lacunas da rede metropolitana de transportes, claramente insuficiente?

Decido que este será um assunto a retomar, interrompido deste raciocínio pela voz da mesma senhora que anunciava agora que a circulação estava normalizada. Lancei um olhar ao tempo estimado para a chegada do próximo comboio, que se situava nos sete minutos e trinta segundos, quando a operação aquela hora concreta prevê um intervalo de quatro minutos e cinquenta e cinco segundos entre composições.

Tudo normalizado, numa padronização que nos tenta expurgar a reivindicação. Sentia-me demasiado inquisidor. Recordei que ainda não tinha comido nada. Culpei a fome por estes devaneios e fechei o caderno de notas.

 

II

Ao regressar veio-me à lembrança aquele pequeno anúncio afixado na vidraça do cais de embarque. O mesmo avisava que a partir deste mês as facturas comprovativas da compra dos passes para efeitos de IRS passariam a ser emitidas através de um portal digital. Lembrei-me da expressão: a internet das coisas… e questionei-me do numero de pessoas que pensa que coisa é essa da internet. Depois pensei no caso da minha mãe, também ela utilizadora dos transportes públicos em Lisboa. E se ela quisesse uma factura com o seu número de contribuinte para apresentar na declaração anual de impostos? É certo que um dos filhos poderia sempre solicitar a referida factura em seu nome. Mas falharia sempre um mês; ou dois; ou meia dúzia. E lá ficaria diluído o possível retorno fiscal, que pretende tão-somente mascarar o aumento de 1,5% que os títulos de transporte sofreram no início do ano.

Pelo sim pelo não, e antes que um esquecesse, já tinha solicitado no portal a primeira factura do ano. Homem prevenido vale por dois.

 

IMG_20161209_075111.jpg

III

Hoje sentei-me no metro. Havia lugares. Eram nove horas da noite e a malta devia estar toda a jantar. Mordomias de estar fora de horas fora de casa. Infelizmente por más razões. Ela encostou a cabeça no meu ombro desfrutando em pleno aqueles cinco minutos de ócio que nos estavam a ser proporcionados. Sussurrei-lhe baixinho ao ouvido: “anda, temos que sair; dormes quando chegarmos a casa”. Abriu os olhos em sinal de consentimento. Saímos da estação de braço dado e penetrámos na noite. Numa atmosfera sebastiânica que nos envolvia num constante sobressalto. Por momentos pareceu-nos ouvir o barulho de uma armadura. Mas depois percebemos que era a senhora que puxava as cordas do estendal, recolhendo a roupa. Mesmo assim acelerámos o passo. O seguro morreu de velho. 

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