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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

4 de Janeiro – quarta-feira

I

Pela tonalidade do dia que nascia percebia-se que era Inverno. Mas tal não ficava explicito pela temperatura do ar, embora se sentisse a humidade. A mesma que tornava tão difícil a tarefa de passar o papel de mão em mão. Pegavam; colavam; permaneciam assim como quem os queria distribuir. Difícil era também lidar com a recusa não havia lógica em recusar aquele folheto. A mão no bolso que insistia em lá ficar ou a desculpa do smartphone em riste, que ocupa sempre ambas as mãos.

Entretanto, a senhora que se distraía ficava retida na sala de embarque e enfrentava agora mais meia hora de espera até ao próximo catamarã a levar a capital. “Lá se vai a consulta do médico” – parecia querer dizer, ao mesmo tempo que pedia encarecidamente ao funcionário que abrisse o portão e a deixasse passar. Esforço condenado ao fracasso, pois o barco já tinha recolhido as rampas de acesso. Também eu iria no próximo barco, mas provavelmente não nos cruzaríamos. De resto, hoje teria companhia no trajecto, o que encurta sempre a distâcia e o tempo entre margens. Pelo menos, assim apreendem os nossos sentidos. E o empirismo manda muito nestas coisas dos transportes públicos.

A despedida foi feita com um até já. Secretamente invejei o meu companheiro de viagem, pois iria recolher aos túneis enquanto ele continuaria à superfície, sob a luz natural; pelo menos por mais algum tempo. É certo que os túneis tornam tudo perto e rápido na capital, mas àquela hora o aperto e o calor são constantes, independentemente da estação do ano levam a pior. E todos mal-dizemos a rapidez, conforto e comodidade. Ironicamente, no sistema de som, o metropolitano de Lisboa deseja-me um ano repleto de boas viagens… Esbocei um sorriso sarcástico, ao mesmo tempo que era empurrado para dentro de carruagem.

 

IMG_20170119_163725_195.jpg

II

A promessa molhada do início do dia não se concretizou. O vento amainou e a tarde embora nublada fez-se amena. O papel voltou a passar de mão em mão e a voz da indignação e da reivindicação tomou o espaço público. Era forte, completa. E assertiva! Explicando claramente como havíamos chegado a esta situação e expondo pragmaticamente as medidas urgentes para nos arrancar da mesma. Travar a degradação e exigir garantias do cumprimento do estipulado. Nada tão simples e tão difícil de alcançar. Numa empresa pública de transportes desorçamentada, com trabalhadores desmotivados, que viu o seu modelo organizativo alterado sistematicamente e que conheceu inúmeras gestões nos últimos anos. Valha-nos a perseverança de alguns que se reúnem e amplificam o desagrado de todos os utentes. Os mesmos que compram um título de transporte. E que esperam, tão-somente, que esse titulo lhes reserve o direito de serem transportados dentro dos horários estabelecidos. Parece-me plausível…

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