Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

4 de Fevereiro – sábado

I

Apesar da janela do carro meio descida e do vento de feição, não me chegava às narinas o habitual cheiro a alho daquela fábrica. O letreiro sobre o portão já não era o mesmo, mas não pensava que tinha alterado o seu odor. Ocasiões havia em que o mesmo fartava a atmosfera, mas noutras apenas libertava um leve aroma, como se de um refogado se tratasse. Era delicioso. Por outro lado, a comunidade pode agora estar mais sujeita à visita dos vampiros, que, como todos sabemos, comem tudo e não deixam nada.

É com alguma frustração que denoto que aos fins-de-semana os transportes públicos são tão horríveis como aos dias úteis. Secretamente alimentava a esperança de que nestas ocasiões houvesse outra atenção para com os utentes e alguma classe reservada. Mas não; são a mesma mediocridade, mas com menor frequência.

As águas rebeldes do estuário, impulsionadas pelo forte vento, “acupuntavam” o caso do navio. Tremido seguia seu rumo. Enfrentava com bravura a intempérie, seguro que chegaria a bom porto. Ouvia-se distintamente a desilusão das ondas a desfazerem-se no casco do catamarã. Desta vez não levarão a melhor, certamente. Os vidros salpicados confirmavam isso mesmo, pois lá fora já se avistava a margem do nosso destino. E um raio de sol iluminou o trajecto restante. 

Antes de atracar o barco foi sacudido três vezes e brincou aos carrinhos de choque com o pontão. Lá se prenderam as amarras e se descarregaram os passageiros. À volta falaremos novamente.

São em ocasiões como estas que mais venero as maravilhas dos headphones. Não percebo muito bem como começou esta moda, nem sei se poderá ser uma necessidade face a problemas técnicos, mas a realidade é que me irrita profundamente as pessoas falarem ao telemóvel através do sistema alta-voz em espaços públicos. Este fenómeno tem particular incidência no metro. Que moda mais parola.

II

É impressionante o número de pessoas que mesmo ao sábado o metro transporta. A linha verde circula cheia e sem perturbações (até parece mentira). Passageiros entram e saem em todas as estações. Sem ligação entre si, as suas vidas entrecruzam-se fugazmente nas portas das composições. Por vezes meto-me a pensar... E se fosse mais do que isso? E se daquele lampejo se constituísse relação? Ideias vão-me surgindo amiúde durante as minhas viagens. Por exemplo: carruagens do metro temáticas; viagens onde se debatiam questões do dia-a-dia; tertúlias em torno da participação cidadã; sketches humorísticos curtos que tivesse a duração de uma viagem entre estações e fossem sendo repetidos nas várias carruagens; peças de teatro (ou excertos) protagonizados numa viagem; declamação de poesia; concertos musicais…IMG_20170103_070313_594.jpg

Quando entro no barco venho ainda envolvido nestas ideias. No percurso fluvial, com a duração de meia-hora, haveria tanto espaço à criatividade e a chegar às pessoas, quebrando o seu quotidiano. O rio corre agora mais sereno e isso reflecte-se na marcha do barco. A noite começa a cair e as margens começam a produzir sombras, invés de formas identificáveis e tangíveis. Em breve chegarei à outra margem, para onde o rio é passagem. Mais uns minutos e estarei no aconchego da família. Sabe tão bem em noites ventosas de Inverno.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D