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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

31 de Janeiro – terça-feira

I

Ontem uma estranha sonolência apoderou-se de mim. Eu que nem sou tipo para dormir, sentia uma necessidade absoluta de o fazer. Deitei-me mais cedo do que alguma vez me lembro ter feito. E mesmo assim, quando tocou o alarme, ainda reclamava por mais umas horinhas.

Na rua, o vento fazia questão de me lavar novamente a cara com pingas roliças e frias. Como que a recordar-me que afinal estava acordado. Meditei na minha inexistente relação com o guarda-chuva. Em tempos ainda tentei. Tenho até ideia de ter comprado alguns, mas perdi muitos mais. A minha animosidade com semelhante utensílio começa logo no nome. É enganador. Ora, se uma coisa se chama guarda-chuva devia ter dentro de si o objecto do seu nome composto. Por exemplo: o guarda-roupa tem roupa lá dentro; o guarda-jóias tem jóias no seu interior. Então, porque raio o guarda-chuva não nos reserva chuva? Neste aspecto revejo-me muito mais na expressão utilizada por nuestros hermanos: “paraguas”. Esta sim em lógica.

Por outro lado, também me irrita o braço estendido, com a mão a segurar um utensílio por cima da cabeça. Toda a gente sabe que as mã foram feitas para andar nos bolsos, principalmente durante o Inverno. Ali com a mão ao alto pareço uma espécie de porta- estandarte e estou sempre a olha para trás para perceber onde está a restante comitiva olímpica. Comodamente tinha esquecido a promessa que fiz de sair na estação anterior ao meu destino pela manhã. A realidade é que desde o primeiro dia em que quebrei esse entendimento, o tapete rolante que me acelerava e facilitava o percurso ao longo do túnel, deixara de funcionar. Hoje não foi excepção. Fica claro que o crime não compensa.

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II

A grande vantagem de nos fazermos transportar pelos túneis é não encarar dias tenebrosos como os de hoje. Em contrapartida, também não vemos os dias alegres e risonhos quando acontecem. Mas aí podemos optar por outras formas de locomoção, quando existem. Não há tanta pressa ou urgência.

É impressionante a influência que o estado do tempo tem no estado de espíritos das pessoas. Hoje andava tudo macambúzio. Ninguém parava de se queixar da chuva, mesmo que abrigados da mesma. Se calhar por isso mesmo a precipitação não cessava.

Quando chego à sala de embarque percebo que a maré deve ter subido demais, deixando generosas poças no pavimento. Mas a minha calva cabeça é presenteada com um grossa gota de água e aí percebo que aquela situação se deve às infiltrações no tecto. Desvio-me para deixar a goteira seguir o seu curso natural.

O barco que nos levará à outra margem não é do modelo usual. Quando zarpa tem a proa orientada no sentido da 25 de Abril e parece avançar resoluto. Já me imagino navegando em direcção à liberdade. Mas passados alguns segundos, uma curva de 180º frustra a minha ambição e deita por terra os meus sonhos de piratas e baías escondidas.

Ao atracar parece que descemos do mar para terra, tão cheio vai o estuário. Por estes lados parece que não chove, constato ao deslocar-me para apanhar a carreira. Pelos vistos hoje é dia de novidades. Também o autocarro não é do modelo habitual (embora isto não seja nada de anormal). A principal diferença reside no facto dos penúltimos bancos estarem virados ao contrário do sentido da marcha, ficando frente a frente com o último banco corrido, que ocupa toda a traseira do autocarro. Deveras estranho. Mas o que salta mais à vista são os varões de um vermelho vivo que percorrem todo o veículo para os passageiros se segurarem. Fazem lembrar bombeiros.

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Do lado de lá do vidro, o agente da polícia mandou parar o automobilista, a quem parece estar a escrever um poema. Devia ser engraçado as coimas serem passadas e pagas em poesia. Ora então, a senhora automobilista passou um traço contínuo, não é verdade? Ora isso equivale a dois poemas Florbela Espanca, um de Sophia de Mello Breyner e quatro de António Aleixo. Leve lá este poema de Ruy Belo para ir pensando no assunto e amanhã faça o favor de ir declamar a sua multa à esquadra mais próxima.

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