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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

30 de Janeiro – segunda-feira

I

Os dias que começam com nevoeiro são sempre diferentes. Não que estivesse um nevoeiro cerrado. Nada disso. Antes aquela fina névoa, como que uma película exposta perante o nosso olhar. Mas mesmo assim tudo parece diferente. Aquele prédio, aquele autocarro, aquela estrada, ganham outra dimensão. O motorista faz uma travagem mais brusca. Não vê a senhora na paragem. Mas devia saber que costuma lá estar. Podia ser evitado este episódio. Percebo que afinal o motorista não viu foi a paragem, pois a senhora que normalmente a habita àquela hora, hoje não é sua inquilina. O autocarro segue marcha atrapalhado, tropeçando no seu própsio lapso. Ferro o olho nesta indecisão.

No estuário o tráfego é superior ao normal. O catamarã faz uma gincana entre navios que seguem sua rota, imensos como cidades flutuantes. De corpo pequeno e esguio vence a resistência e conquista a ondulação criada dentro da própria ondulação; sacudido mas inteiro sai da contenda. E assim nascem novas inimizades improváveis.

Enquanto me aperto mais um pouco e tento perceber onde devo poisar o pé esquerdo tento idealizar o dia em que a maioria das pessoas perceberão que o varão central junto às portas do metro não servem para se encostarem, impossibilitando dessa forma que os restantes passageiros se segurarem no mesmo. Aquele é um garante de segurança de todos; uma espécie de salvaguarda de equilíbrio para quem viaja em pé.

II

Hoje parece ser demasiado segunda-feira. Conto os minutos para poder fugir. Mal bate a hora saiu porta fora. O céu carregado da tarde borrifa os transeuntes. É demasiado segunda-feira, em tudo. No cinzento do dia e na preguiça reinante. Na paciência em falta e no sono em excesso. Que martírio; que custoso.

Preciso algo para quebrar a rotina e decido fazer o passeio ribeirinho que tanto prazer me dá. Mesmo que se mantenham os chuviscos... Vai fazer-me bem. Tenho uma sandes na sacola que fará companhia neste percurso (pelo menos enquanto durar).

A maré cheia associada ao vento Sul faz empolar as águas do Tejo encharcando porções do território humanizado, conquistado à natureza. As gaivotas vão-se divertindo planando contra o vento. Enquanto isso o velho cria esculturas equilibrando pedras. Dá caras e pinturas a algumas; outras são tão-somente a natureza em estado bruto e em fino equilíbrio. Aos poucos cria a sua aldeia em esculturas de calhaus. Por momentos páro a observar tão invulgar empreitada. O velho parece totalmente absorvido na sua tarefa. Pouco interessa as pessoas que vão assinalando a estranheza de tal entretenimento. Como se estivesse encarregue de executar algo maior que ele próprio e que muito poucos compreenderiam. Gostava de dizer que eu compreendia, mas estaria a enganar-me. Também eu era absolutamente ignorante quanto aos propósitos e objectivos que aquele velho teria. Mas este episódio enriqueceu o meu dia e aliviou o peso daquela segunda-feira demasiado segunda-feira.

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