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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

3 de Janeiro – terça-feira

A madrugada chorava envergonhada perante a anunciada chegada de uma manhã cinzenta. As pessoas entravam, carneiras, no barco; sem grandes dúvidas ou hesitações, mas também sem grandes pressas ou alarido. Era uma típica terça-feira. Se é que tal existe ou faz sentido esse tipo de qualificação. No rosto das pessoas ou no ritmo das coisas não conseguimos dizer que era terça-feira, o dia que marca o início do meio da semana, mas que não é detentor de uma especificidade que o caracterize. Não tem a sonolência da segunda-feira, a excitação de sexta-feira ou a calmaria de um feriado ou fim-de-semana.IMG_20160924_021742.jpg

Embarquei resoluto que este seria o dia. Marcaria de uma vez por todas posição junto do director. Ciente do meu valor nada receava desse confronto, no que diz respeito ao conhecimento da normal actividade laboral. O que me deixava de pé atrás e com um sentimento ambivalente era a resposta polida e as eternas explicações do inexplicável, sempre acompanhadas de justificações do injustificável. A apresentação da estrutura hierárquica, a forma como se entrava se empresa e se subia na mesma, explicação das classes sociais. Tudo formas de defesa de um modelo que perpetua o interesse estabelecido e pouco se importa com o mérito, inovação e capacidade demonstrada por alguns. Principalmente quando esses alguns são espíritos críticos, que colocam sempre as questões em perspetiva e não executam acefalamente o que lhes é exigido.

Os lugares são limitados e os diversos patamares da escada social apenas são ampliados em ocasiões especiais ou em situações familiarmente/genealogicamente comprovadas. Ou então quando as pessoas se apresentam como aliadas deste modelo e disponíveis para pactuar com o mesmo, contribuindo com formas originais e criativas de exponenciar as desigualdades.

Depressa entendi que afinal este não seria o dia. Por mais resoluto que estivesse… As solicitações eram muitas. Com um novo ano vinha novo orçamento e um sem número de actividades que era urgente retomar. Do outro lado do telefone a recusa protocolar mantinha-se. Ficaria para nova oportunidade esta conversa prometida por mim mesmo e eternamente adiada. Sem data prevista, sem conhecimento do receptor.


II

No regresso o circuito mantém-se. As águas semi-agitadas do braço, tronco, veia, do estuário do rio embalam a embarcação rumo a Este. Coloquei os pés no pontão inspirei fundo o cheiro a lodo. Repeti a tarefa. E outra vez. O cheiro a lodo inebriava-me. Mas preferia mil vezes este odor à estranha atmosfera da grande metrópole. Com o jornal dobrado em quatro na mão direita e a sacola pendurada no ombro esquerdo lá vou eu. Com a satisfação do dia concluído e a sensação de dever cumprido. Pelo menos por hoje…

Amanhã é outro dia e é quarta-feira.

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