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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

3 de Fevereiro – sexta-feira

I

O vento saúda-me ao sair de casa. Não uiva, mas faz questão de demonstrar a sua presença. Apresenta-se do quadrante Sul e encrespa as águas do estuário. O barco lá avança, balouçando mais que o habitual. Na margem da metrópole o estuário parece querer engolir o passeio marginal, tão crescido se encontra e galvanizado pelo vento seu aliado, que lhe protege as costas.

Pergunto-me se não terá já invadido os túneis. Tranquilo. Tudo está seco por ali, mesmo que muito abaixo do nível da preia-mar. Tirando as mais que insistentes infiltrações e goteiras, facilmente resolvidas pela colocação estratégica de baldes, tudo está normal. Tão normal que até a linha verde apresentava as suas usuais perturbações.

Na carruagem de metro fecho os olhos. Apenas para perceber como percepciono as coisas sem o estímulo visual. Os solavancos parecem mais reais, o chiar dos materiais mais audível e os sons da locomoção mais claros. Há momentos em que quero adormecer, envolto pelo doce som dos carris e a contínua presença do ruído da renovação do ar da carruagem. Mas quando me embalo e estou prestes a ceder, o sistema de som faz questão de distorcer qualquer coisa que me obriga a permanecer acordado.

II

De um azul vibrante. Em vários tons. Essa era a coloração do cabelo da moça solitária, que escondia por trás do ecrã do telemóvel todo o seu desconforto perante o olhar julgador de quem a rodeava. Mesmo após ter saído da carruagem os olhos inquisidores mantinham a censura sobre aquela singela diferença. Pensava que já não existiam este tipo de atitudes. Que era coisa do passado, a repulsa liminar da diferença. Cabisbaixa lá seguia a moça ao longo do cais, muito nova ainda; nova demais para isto. E a única coisa alegre naquele quadro era a vivacidade da cor do cabelo da moça.

IMG_20170110_235843_954.jpg

 

Precisava de ir aos correios. Saí à baixa da capital e não haviam tuk-tuks. Por um instante pensei que me tivesse enganado e apanhado a linha de metro para uma capital indiana. Mas depois vi o arco com a senhora a colocar coroas de louro sobre a cabeça de dois indivíduos e percebi que estava no sítio certo. Quase em simultâneo passa por mim um tuk-tuk; comprova-se. Estou mesmo na baixa de Lisboa.

Por um ou dois minutos falhei o barco à hora certa. Esperaria mais 30 minuto. Isso dava-me a oportunidade de ir medir a tensão arterial do rio, que hoje devia ser bem alta, alimentada pela corrente de sudoeste. Pulava e respingava nervosamente em todas as direcções. Um ou outro salpico chegavam a mim. E eu agradecia a partilha. Distraía-me durante aquele tempo morto. Que horrível expressão essa. Como é que o tempo pode ser morto? A última vez que comecei a pensar nisto relacionei com aquela lenga-lenga do “tempo que perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem”. Na altura, a irritação foi tamanha que parti a merda do relógio de pulso e nunca mais usei um. O tempo é vivo e cheio de particularidades e perspectivas. E isso nunca irá mudar.

No percurso fluvial recordei que hoje era dia de assistir à estreia mundial de um espectáculo de dança. O bailarino Fábio Simões tinha escolhido a sua terra natal – o Montijo – para tal acontecimento. Senti uma ponta de lisonja ao saber que seria um dos pioneiros pares de olhos a presenciar aquela novidade. Estava em pulgas. Que o tempo fosse agora muito vivo. Que os segundos galopassem os minutos, que galopassem as horas que separavam, a mim e restante família, de presenciar aquele momento. Espero não me desiludir.

III

Uma pequena adenda apenas para dizer que não me desiludira. A única parte negativa do espectáculo foi o tempo ter passado tão depressa. Fiquei seriamente surpreendido com a qualidade daquela criação artística. Sedento de ver mais deste bailarino (digo, artista), que provavelmente, e à semelhança de muitos outros, terá mais reconhecimento lá por fora do que entre fronteiras.

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