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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

26 de Janeiro – quinta-feira

I

O relógio do autocarro marcava 19:55. E eu dei por mim a pensar se esta escuridão se devia à noite ou à madrugada. Estava quase certo que minutos antes o despertador tinha-me amanhecido. Mas, por via das dúvidas consultei o telemóvel, o tal telefone esperto que nos dias de hoje tudo sabe e tua alcança, com esfrega daqui e um toca dali. Confirma-se que esta escuridão corresponde à madrugada. Tirando esse pormenor esse pormenor, desta vez não podia reclamar da carreia, pois estava em bom estado. Os seus componentes não se queixavam a cada aceleração ou travagem, não tinha estofos rasgados, não tinha maus odores e parecia relativamente limpa. Se quisesse ser picuinhas diria que não aprecio de todo o padrão do tecido que reveste os assentos. Manias…

O homem revira as folhas com paciência; de repente manda o jornal para o lixo e desata a correr estação fora. A mulher sentada ao lado do caixote dá um salto, enquanto observa atónita esta actuação. Abana a cabeça num movimento de reprovação. Gosto de pensar que tal se deve ao facto do indivíduo ter colocar no papel no caixote do lixo indiferenciado. Nunca ouvira falar de reciclagem? Embora, em abono da verdade, nas estações do metro não existam contentores específicos para essa finalidade.

A luva tinha sido abandonada na escadaria. Deixa à sua sorte parecia evitar com “classe” as pegadas ameaçadoras. É engraçado como numa fracção de tempo o nosso cérebro tem o condão de processar inúmeros cenários. Primeiro pensei que o melhor seria deixar a luva à sua sorte, mas com certeza que essa imagem me iria perseguir e nessa coisas a consciência não perdoa. Depois pensei que se ao passar lhe desse um pontapé suficiente para a retirar do meu campo de visão resolveria o assunto. Depressa percebi que tal não seria solução mais honesta. Por último decidi apanhar a solitária e entrega-la no guichet da estação. Na esperança que a mesma encontrasse a sua gémea. Como recompensa perdi o metro…

IMG_20170102_211344_848.jpg

 

II

O vento sul trouxe a chuva. A desculpa ideal para as pessoas tirarem as suas botas e botins da sapateira. No metro sentia-se o cheiro de borracha molhada. Olhei em volta e via apenas pés calçados com botas reluzentes. Uma das tendências do Inverno parecia ser as vulgares galochas da nossa infância, mas agora tinham enfeites como tecido, pêlo ou outros apliques. Os homens optavam mais pelas vulgarmente apelidadas de bota de montanha ou o botim, para aqueles que vinham trajados mais a rigor.

Mas o cheiro estava a tornar-se cada vez mais intenso e parecia emanar mesmo abaixo do meu nariz. Olhei para o chão e vislumbrei as botas manhosas que me vi obrigado a comprar, pois as que levava calçadas nessa manhã, depois de terem feito seguramente para cima de 10 épocas de inverno, decidirem descolar as suas solas por completo. Quanto entrei na sapataria e o senhor me perguntou se podia ajudar questionei-me se não devia antes eu oferecer ajuda ao seu proprietário. Para além da música pimba que se fazia ouvir, a organização caótica, semelhante à de uma feira ambulante, fazia adivinhar uma catástrofe eminente, ameaçando que todos ficássemos soterrados por caixas de sapatos da próxima vez que a “cantora” que se fazia ouvir falha-se uma nota. Reprimi o meu ímpeto e solicitei explicitamente um calçado o mais barato possível para chegar a casa, visto que tinha tido um acidente (e enquanto falava apontava para as velhas botas). Olhou-me de lado, mas sempre me foi perguntando qual o número que calçava. Apresentou-me um modelo de nota sóbrio de cor preta, pelo preço de € 10,00. Experimentei e saí calçado de fresco da loja, ao mesmo tempo que, involuntariamente, deixava um rasto de odor a borracha que agora estava também a sentir.

IMG_20170225_174549_657.jpgAs botas são aceitáveis, apesar de uma certa dureza sentida depois das primeiras léguas percorridas, talvez por ainda não terem sido devidamente amaciadas. Mas o seu cheiro é intolerável. Hoje pernoitam na varanda e amanhã logo as cheirarei, para perceber se há futuro nesta relação. Enquanto isso as minhas velhas botas, moribundas, companheiras de tantas viagens, jaziam no fundo do saco de plástico. Não sei se terão conserto. O sapateiro será o seu cuidador ou carrasco.

 

 

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