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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

25 de Janeiro – quarta-feira

I

Hoje é dia de dentista. Não para mim, felizmente. Antes para o meu filho, que assim me acompanha até à metrópole. Calado e reservado, lá vai dizendo uma ou outra palavra de ocasião ou respondendo às questões que lhe coloco. Compreendo-o fraternamente. É cedo demais. Barbaramente cedo. A geada ri-se da nossa obrigação, enquanto permanece deitada à espera que os primeiros raios e sol a mande embora.

À medida que a carreira vai fazendo a sua gincana pelas estreitas ruas daquilo que já foi um bairro ilegal, e que agora é só um péssimo exemplo da falta de intervenção no planeamento urbano, as pessoas vão subindo para o autocarro. Comento com o meu filho que hoje estamos a apanhar muita gente que normalmente não vai neste autocarro, ou pelo menos não neste horário. Curiosamente é também o caso dele… Isso é comprovado pela quantidade de pessoas que não tem passe e compra a tarifa de bordo. Passamos ao lado do Parque de Exposições e constato que este ainda não sabe o seu nome. Quando será que lho ensinam?

Junto ao Tejo a atmosfera é a dos filmes de terror. Um denso nevoeiro reinava não deixando discernir o que era da terra e o que era do rio. O barco atrasa-se nas manobras de atracagem ao porão. Não estará fácil para o Mestre da embarcação. Lá entramos todos sem ninguém cair borda fora e o navio pode seguir rumo à capital. O miúdo recebe uma chamada no telemóvel. Certamente a mãe a perguntar se ele está devidamente agasalhado. Eu encosto a cabeça ao vidro, num leve sono de 5 minutos.

Se há coisa que me inquieta são os pompons no topo dos gorros. Para que é que serve aquilo? Será uma reserva extra de calor? Será que o próprio gorro tem frio? Não se entende. Acerca disso lembro-me da série South Park, em que os putos andam sempre equipados com gorros deste género. À excepção do Kenny. Esse é pobre e só tem direito a um kispo cor-de-laranja, com um capuz tão apertado que só deixa os olhos à vista (eh, eh, eh; olhos à vista…). Ou seja tem um casaco com gorro incluído para ficar mais barato. É também o personagem que morre em todos os episódios. Se isso não acontece assim, a série deixou de ter graça. Nestes casos, para mim, a tradição ainda devia ser o que era.

Não consigo continuar a ouvir o meu pensamento, porque no sistema de som da carruagem do metro anormalmente alto, a voz da senhora saía com uma distorção digna de uma música de heavy-metal.

IMG_20170112_200808_128.jpg

 

II

Enquanto me desloco para a incontornável ligação fluvial penso na notícia do dia – os barcos sem travões. Ao que parece um dos catamarãs matutinos chocou com o pontão da capital, dando origem a mais de 3 dezenas de feridos ligeiros. Quero afastar este pensamento, mas não consigo.

Isso era pelo menos o que eu pensava até me deparar com, a linha azul do metro. Depressa percebi que a sua perturbação iria fazer com que apanhasse o barco seguinte ao habitual. Na correspondência com a linha verde entendi que o barco seguinte passaria a ser o seguinte ao seguinte. E ainda bem que já não havia mais metros a apanhar, senão dificilmente chegava a casa hoje.

Perco o barco por minutos e decido preencher os minutos de espera redigindo uma reclamação relativamente ao serviço decrépito do Metro. Deixem-me só captar um sinal wi-fi e já vão ver o que nos espera.

A mera reclamação acabou por ser mais extensa que o devido e muito anormal. É da minha natureza. Tenho sempre que contextualizar as minhas zangas e desvenda possíveis soluções… Para além disso gosto de cuidar a escrita da mesma. Alegra-me pensar que do outro lado, quem recebe a minha reclamação a lerá com prazer e, por isso mesmo, será levada em consideração. Sei perfeitamente que sou um lírico em pensar desta forma, mas neste aspecto específico prefiro continuar a enganar-me; sob pena de desistir simplesmente de reclamar com as instituições e reservar a minha indignação apenas ara as redes sociais. Assim, reservo-me ao direito de disparar nas duas direcções (link reclamação publicado no facebook).

O barco chegava a bom porto e percebi que meia dúzia de pessoas tinham ouvido a notícia da manhã. Eu, por via das dúvidas, mantive-me sentando até o barco atracar e abrirem as portas de desembarque. Até porque a noite já caíra e eu queria saber onde punha o pé. O seguro morreu de velho e eu também quero chegar a ancião.

Se de manhã apelidava a carreira de caranguejola, agora à tarde nem sei como qualificar a mesma. Coloco os auscultadores e encosto a cabeça. É escusado. A trepidação do veículo e a multiplicidade de ruídos que o mesmo imite levam a melhor. Os únicos momentos de sossego é quando o motor se desliga em pleno andamento. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu, que acalmo. Penso positivo e contento-me por já não falta muito para chegar ao meu destino.

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