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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

24 de Janeiro – terça-feira

 

 

I

Tinha ouvido que a temperatura iria aumentar, mas o sacana do acentuado arrefecimento nocturno ataca-me mal saiu do prédio. Cobarde. Apanhou-me desprevenido, com menos roupa. Encolho-me na evidência de que já não tenho tempo para voltar atrás.

O autocarro que apanho é o que se pode chamar uma autêntica caranguejola. Velho, se podermos considerar 25 anos como velho, e a cair de podre. Ao ralenti tremia como se queixasse do frio, com vidros a vibrar intensamente. Os barulhos parasitas não desapareciam em andamento, apenas ficavam menos audíveis devido ao som do desafinado motor. Quando travava parecia que todas as pelas imploravam por óleo e massa consistente. Manchas de bolor decoravam o interior. Até os monitores informativos instalados se recusavam a informar, exibindo um qualquer erro de Windows, que não consigo precisar qual era, pois estava de pernas para o ar.

As senhoras do costume não se calavam. Hoje estavam particularmente eléctricas e ruidosas. Coloquei os auscultadores e ajustei o volume para o nível alienação do que me rodeia. Enquanto navegava olhava pela janela, mas a vista só me devolvia escuridão. Era cedo demais.

A segunda escolha da leitura aleatória do aparelho é Modern Love dos Bloc Party. Todos os dias acordo com uma música na cabeça. Hoje, curiosamente, foi esta. Às vezes nem são cantigas da minha predilecção ou audição usual. Lembro-me que ontem acordei a “ouvir” Onda Morna de António Variações. Admiro o artista, que nos deixou cedo demais, mas não é frequentador assíduo ao meu reportório musical.

O poema daquela canção de Bloc Party intriga-me e não consigo perceber muito bem o seu sentido. No entanto, sempre me fascinou a ideia de que para se tentar chegar a alguém (no sentido de alcançar o seu sentido) se lhe oferece um livro. Que bela imagem: Mas o que mais me prende é a linha melódica. A forma como a música cai sendo construída. Iniciando de uma forma minimalista vão-se construindo camadas que edificam uma densidade única e levantam uma parede sonora, instrumento a instrumento. Para tentar chegar á amago desta canção coloquei-a em modo repetição e lá fui eu trauteando até ao trabalho. Só quando cheguei me ocorreu que ainda há duas semanas tinha escrito sobre esta canção… É, sem dúvida, muito importante para mim. Um clássico da música moderna e um espelho das relações amorosas dos tempos que correm.

II

Ao abrir o caderno não fazia a mínima ideia do que iria escrever. O dia tinha sido um vazio, como uma página em branco onde nada há a registar. A única coisa que fugiu à rotina foi um bombom intragável que me ofereceram, que parecia recheado com bagaço, bebida da qual fujo a 7 pés. Para rasgar este marasmo decidi fazer a beira-rio até ao cais de embarque a pé. Porque o tempo a isso o convidava e porque o tempo assim o permitia. Céu limpo, temperatura amena e quase meia-hora de espera até ao próximo barco.

Ao passar pelo cais das cervicais, aquele pareceu-me o local mais densamente povoado à face da terra, excepção feita à linha vede do Metro em hora de ponta. O sítio estava pejado de turistas asiáticos, sempre hiperactivos e hiperdivertidos. Se isto está assim no Inverno, imagino no Verão – pensei eu para comigo. Ou se calhar falei em voz alta, pois nesse imediato fui abalroado por uma legião de asiáticos com mapas em riste e smartphones e câmaras digitais. Riam-se muito para mim e diziam coisas que eu não entendia, mas insistiam em tirar selfies ao meu lado: das duas uma: ou viam-me com um ícone da cultura pop da cosmopolita capital (o que acho difícil de aceitar); ou confundiram-me com um qualquer jogador de futebol. Sou condescendente e alinho naquele lapso. No fundo diverte-me a ideia de um qualquer dia ver a minha cara estampada numa t-shirt manhosa Made in Tawain.

Sigo pela frente ribeirinha, apreciando o que está feito e o que está por fazer. Cativa-me o espaço pedonal conquistado e os locais de ócio plantados aqui e além. Mai à frente, um quiosque ribeirinho a nunca que a sua happy-hour dura na realidade 3 horas. (H)ora aí está um local a visitar no futuro; quando houver tempo a matar e uma noite ainda jovem.

Esta é uma interessante expressão: matar o tempo. Interrogo-me qual a origem da mesma. Gosto de pensar que foi alguém que agrediu violentamente um despertador para além do ponto de conserto, quando este o obrigava a acordar depois de uma noite de folia. Só pode.

Enquanto a carreira faz o percurso na direcção da minha casa vejo alguém a telefonar de uma cabine pública. E isso é sempre digno de registo nos dias que correm. Constatar que há pessoas que ainda tentam preservar as tradições.

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