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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

23 de Janeiro – segunda-feira

I

As pessoas na paragem afundam fundo as mãos nos bolsos, na tentativa de encontrar maior aconchego ou alguma fonte de calor. É uma vã demanda. Àquela hora da madrugada o sono e o frio levam sempre a melhor. É da lei das coisas. As estruturas existentes também não convidam muito ao conforto. Vulgarmente o design deixa as pessoas expostas aos caprichos climatéricos. Isto quando existem; quando a paragem não é simplesmente aquele poste de iluminação ou aquela árvore onde se conseguiu pendurar uma placa. Esta, de futuro, deve ser uma situação a acompanhar e melhorar por parte do poder local e prestadores de serviços, de forma a trazer mais pessoas ao uso dos transportes públicos.

No metro à medida que se aproximava a madrasta estação, o casal de namorados despede-se com ternura. Só mais um beijo, só mais uma carícia; enquanto o comboio não fecha as portas. Pouco lhes interessa a hora de ponta e o movimento pendular de encontrões sofridos. E as mãos unidas apenas se desprenderão pelo movimento guilhotinado do fecho de portas. Agora um vidro os separa. Colam as mãos, como nos filmes. E por momentos estou certo que sentem o calor um do outro. Quero acreditar nisso e noo nas suas expressões. Este foi o momento em que senti verdadeiramente o peso da idade. Parece tão distante a época em que me despedia do meu ente querido com semelhante paizão. A gora quando um de nós entra neste campo, o outro pergunta logo: “tu estás bem?” Na janela da composição ficaram as impressões digitais, que o técnico forense se apressava para recolher.

II

Uma jovem senta-se e abre um livro. Sim, daqueles com capa e letras e tudo. Para cúmulo começa a ler, deliciada, saboreando cada palavra. Para que a atenção seja total desliga o leitor de mp3 e guarda-o na mala. Perdida na leitura, nem percebe os olhares das pessoas que a rodeiam, num misto de receio e desconfiança… Esta miúda lê! Só pode ser perigosa. Ainda para ajudar à confusão, a rapariga usa calças rasgadas e coisas cravadas no nariz. Muito suspeito mesmo. Eu fico contente por ver que ainda há pessoas a ler livros de verdade, daqueles mesmo de papel. Nesse campo esqueço as minhas preocupações. Há sempre espaço para o objecto livro; em papel reciclado, pois claro. De repente, uma dúvida assola o meu espírito e de imediato confirmo se o livro que a jovem lê é ou não daqueles de auto-ajuda, que só servem para as pessoas ficar deprimidas ou empáfias até à última casa. Descanso-me; não é nada disso. Nem tampouco uma biografia de alguma pseudo-celebridade. Ufa!

Hoje a tarde é límpida e tudo se avista do centro do estuário. De Sintra à Arrábida; da 25 de Abril à Vasco da Gama. Tudo na linha do horizonte; tudo no campo de visão que se alegra perante tal paisagem. É essa a maravilha de navegar. Escolho a ligação fluvial pela clama que me transmite e a beleza que me proporciona. Certo que demoro mais e que às vezes apanho condições de navegação violentas. Mas essa é um pequeno preço a pagar pelo retorno que tenho.

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