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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

31 de Janeiro – terça-feira

I

Ontem uma estranha sonolência apoderou-se de mim. Eu que nem sou tipo para dormir, sentia uma necessidade absoluta de o fazer. Deitei-me mais cedo do que alguma vez me lembro ter feito. E mesmo assim, quando tocou o alarme, ainda reclamava por mais umas horinhas.

Na rua, o vento fazia questão de me lavar novamente a cara com pingas roliças e frias. Como que a recordar-me que afinal estava acordado. Meditei na minha inexistente relação com o guarda-chuva. Em tempos ainda tentei. Tenho até ideia de ter comprado alguns, mas perdi muitos mais. A minha animosidade com semelhante utensílio começa logo no nome. É enganador. Ora, se uma coisa se chama guarda-chuva devia ter dentro de si o objecto do seu nome composto. Por exemplo: o guarda-roupa tem roupa lá dentro; o guarda-jóias tem jóias no seu interior. Então, porque raio o guarda-chuva não nos reserva chuva? Neste aspecto revejo-me muito mais na expressão utilizada por nuestros hermanos: “paraguas”. Esta sim em lógica.

Por outro lado, também me irrita o braço estendido, com a mão a segurar um utensílio por cima da cabeça. Toda a gente sabe que as mã foram feitas para andar nos bolsos, principalmente durante o Inverno. Ali com a mão ao alto pareço uma espécie de porta- estandarte e estou sempre a olha para trás para perceber onde está a restante comitiva olímpica. Comodamente tinha esquecido a promessa que fiz de sair na estação anterior ao meu destino pela manhã. A realidade é que desde o primeiro dia em que quebrei esse entendimento, o tapete rolante que me acelerava e facilitava o percurso ao longo do túnel, deixara de funcionar. Hoje não foi excepção. Fica claro que o crime não compensa.

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II

A grande vantagem de nos fazermos transportar pelos túneis é não encarar dias tenebrosos como os de hoje. Em contrapartida, também não vemos os dias alegres e risonhos quando acontecem. Mas aí podemos optar por outras formas de locomoção, quando existem. Não há tanta pressa ou urgência.

É impressionante a influência que o estado do tempo tem no estado de espíritos das pessoas. Hoje andava tudo macambúzio. Ninguém parava de se queixar da chuva, mesmo que abrigados da mesma. Se calhar por isso mesmo a precipitação não cessava.

Quando chego à sala de embarque percebo que a maré deve ter subido demais, deixando generosas poças no pavimento. Mas a minha calva cabeça é presenteada com um grossa gota de água e aí percebo que aquela situação se deve às infiltrações no tecto. Desvio-me para deixar a goteira seguir o seu curso natural.

O barco que nos levará à outra margem não é do modelo usual. Quando zarpa tem a proa orientada no sentido da 25 de Abril e parece avançar resoluto. Já me imagino navegando em direcção à liberdade. Mas passados alguns segundos, uma curva de 180º frustra a minha ambição e deita por terra os meus sonhos de piratas e baías escondidas.

Ao atracar parece que descemos do mar para terra, tão cheio vai o estuário. Por estes lados parece que não chove, constato ao deslocar-me para apanhar a carreira. Pelos vistos hoje é dia de novidades. Também o autocarro não é do modelo habitual (embora isto não seja nada de anormal). A principal diferença reside no facto dos penúltimos bancos estarem virados ao contrário do sentido da marcha, ficando frente a frente com o último banco corrido, que ocupa toda a traseira do autocarro. Deveras estranho. Mas o que salta mais à vista são os varões de um vermelho vivo que percorrem todo o veículo para os passageiros se segurarem. Fazem lembrar bombeiros.

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Do lado de lá do vidro, o agente da polícia mandou parar o automobilista, a quem parece estar a escrever um poema. Devia ser engraçado as coimas serem passadas e pagas em poesia. Ora então, a senhora automobilista passou um traço contínuo, não é verdade? Ora isso equivale a dois poemas Florbela Espanca, um de Sophia de Mello Breyner e quatro de António Aleixo. Leve lá este poema de Ruy Belo para ir pensando no assunto e amanhã faça o favor de ir declamar a sua multa à esquadra mais próxima.

30 de Janeiro – segunda-feira

I

Os dias que começam com nevoeiro são sempre diferentes. Não que estivesse um nevoeiro cerrado. Nada disso. Antes aquela fina névoa, como que uma película exposta perante o nosso olhar. Mas mesmo assim tudo parece diferente. Aquele prédio, aquele autocarro, aquela estrada, ganham outra dimensão. O motorista faz uma travagem mais brusca. Não vê a senhora na paragem. Mas devia saber que costuma lá estar. Podia ser evitado este episódio. Percebo que afinal o motorista não viu foi a paragem, pois a senhora que normalmente a habita àquela hora, hoje não é sua inquilina. O autocarro segue marcha atrapalhado, tropeçando no seu própsio lapso. Ferro o olho nesta indecisão.

No estuário o tráfego é superior ao normal. O catamarã faz uma gincana entre navios que seguem sua rota, imensos como cidades flutuantes. De corpo pequeno e esguio vence a resistência e conquista a ondulação criada dentro da própria ondulação; sacudido mas inteiro sai da contenda. E assim nascem novas inimizades improváveis.

Enquanto me aperto mais um pouco e tento perceber onde devo poisar o pé esquerdo tento idealizar o dia em que a maioria das pessoas perceberão que o varão central junto às portas do metro não servem para se encostarem, impossibilitando dessa forma que os restantes passageiros se segurarem no mesmo. Aquele é um garante de segurança de todos; uma espécie de salvaguarda de equilíbrio para quem viaja em pé.

II

Hoje parece ser demasiado segunda-feira. Conto os minutos para poder fugir. Mal bate a hora saiu porta fora. O céu carregado da tarde borrifa os transeuntes. É demasiado segunda-feira, em tudo. No cinzento do dia e na preguiça reinante. Na paciência em falta e no sono em excesso. Que martírio; que custoso.

Preciso algo para quebrar a rotina e decido fazer o passeio ribeirinho que tanto prazer me dá. Mesmo que se mantenham os chuviscos... Vai fazer-me bem. Tenho uma sandes na sacola que fará companhia neste percurso (pelo menos enquanto durar).

A maré cheia associada ao vento Sul faz empolar as águas do Tejo encharcando porções do território humanizado, conquistado à natureza. As gaivotas vão-se divertindo planando contra o vento. Enquanto isso o velho cria esculturas equilibrando pedras. Dá caras e pinturas a algumas; outras são tão-somente a natureza em estado bruto e em fino equilíbrio. Aos poucos cria a sua aldeia em esculturas de calhaus. Por momentos páro a observar tão invulgar empreitada. O velho parece totalmente absorvido na sua tarefa. Pouco interessa as pessoas que vão assinalando a estranheza de tal entretenimento. Como se estivesse encarregue de executar algo maior que ele próprio e que muito poucos compreenderiam. Gostava de dizer que eu compreendia, mas estaria a enganar-me. Também eu era absolutamente ignorante quanto aos propósitos e objectivos que aquele velho teria. Mas este episódio enriqueceu o meu dia e aliviou o peso daquela segunda-feira demasiado segunda-feira.

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27 de Janeiro – sexta-feira

I

Ultimamente tenho reparado em mim uma particularidade difícil de definir. O facto é que muitas vezes dou por mim a raciocinar em modo prosa. Isto é, tento no imediato projectar o meu pensamento numa folha de papel, pronto a ser assimilado por quem o ler. Às vezes isso é bom porque facilita quando quero efectivamente escrever algo. Outras torna-se um empecilho, pois faço um filme autêntico de um vulgar diálogo com outrem, parecendo declamar certos momentos e rasurando aqui e além o meu próprio discurso. Poderia comunicar via caderno de notas, o problema é que tenho uma caligrafia francamente má. E isso daria com certeza azo a lapsos de comunicação.

O jornal diário local de hoje oferece uma revista. Ao que parece esta será uma realidade mensal a partir de agora. Agradeço esta leitura extra. Gosto de estar informado sobre a actualidade regional, que na maior parte das vezes escapa à voragem mediática dos escaparates. No barco abro o jornal e ainda começo a ler uma notícia. Mas o sono é muito e não me consigo focar (literalmente) nas letras. Opto por fechar os olhos. Um consequência óbvia de ser final de semana, este cansaço acumulado. Embora o treino alargado do miúdo ontem à noite também contribui para o mesmo. Mais de duas horas numa quinta à noite... Vicissitudes da parentalidade. Um dia, quando ele já não necessitar de mim para estas funções corriqueiras sentirei saudades deste momentos. Os pais são tipos muito incoerentes e injustos...

Alguém estendeu o papel de cenário negro por trás da capital. E eu tenho medo de sair do barco. Lá me obrigo, recitando o mantra “um homem não tem medo”. Com a sacola em cima da cabeça, corro até à estação do metro. Lá é com particular interesse que reparo que uma das intervenções de fundo para travar a degradação das estações é a colocação estratégica de baldes e caixotes, que se acentua em período de chuva, a fim de recolher a água que vai pingando do tecto. Em diversos locais existem também evoluídos de tubos e calhas que conduzem a água desde a infiltração ao escoamento mais próximo, desviando-a das instalações eléctricas. Noutros são instaladas bicas para escoar a água, pois o seu aparecimento é constante e não um exclusivo da época das chuvas.

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Estas são obras de engenharia que se consubstanciam numa enorme mais-valia para a operação de transportes públicos. No entanto, não posso deixar de inquirir sobre qual o destino dado àquela captação de águas. Sendo um recurso cada vez mais precioso, e que devemos preservar e utilizar com parcimónia, espero que esteja a ser dada a utilização devida ao mesmo. Tenho para mim que algures na rede existem umas termas secretas, só acessíveis aos portadores de cartão Viva Gold.

II

Quando regresso a casa penso num conceito verdadeiramente inovador – o Elvis Camões! No fundo é um indivíduo pelos seus 30 anos, com uma poupa cheia de brilhantina e uma pala no olho, com calças à boca de sino e um colete com franjinhas, que declamaria “os Lusíadas” ao ritmo do rock'n'roll. Era sucesso garantido junto do putos do liceu, obrigados a estudar aquela obra maior da nossa literatura. Era arredar as mesas e cadeiras e colocar as turmas a dançar que nem loucas. E poderia ser também negócio de sucesso. Imaginem venda de CD's e os concertos de Norte a Sul do país! Imaginem o lançamento de 1 CD por cada canto; dava logo 10 discos. Isso é mais actividade discográfica que alguns músicos e bandas de renome durante a sua carreira. Com um Tour por cada lançamento, claro. Bem, preciso urgentemente de de patentear esta ideia. Pode ser o meu plano poupança-reforma...

Entretanto percebo que as minhas botas deixaram de emanar aquele cheiro incómodo a borracha molhada. Parece que aquela vai ser uma relação frutuosa.

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26 de Janeiro – quinta-feira

I

O relógio do autocarro marcava 19:55. E eu dei por mim a pensar se esta escuridão se devia à noite ou à madrugada. Estava quase certo que minutos antes o despertador tinha-me amanhecido. Mas, por via das dúvidas consultei o telemóvel, o tal telefone esperto que nos dias de hoje tudo sabe e tua alcança, com esfrega daqui e um toca dali. Confirma-se que esta escuridão corresponde à madrugada. Tirando esse pormenor esse pormenor, desta vez não podia reclamar da carreia, pois estava em bom estado. Os seus componentes não se queixavam a cada aceleração ou travagem, não tinha estofos rasgados, não tinha maus odores e parecia relativamente limpa. Se quisesse ser picuinhas diria que não aprecio de todo o padrão do tecido que reveste os assentos. Manias…

O homem revira as folhas com paciência; de repente manda o jornal para o lixo e desata a correr estação fora. A mulher sentada ao lado do caixote dá um salto, enquanto observa atónita esta actuação. Abana a cabeça num movimento de reprovação. Gosto de pensar que tal se deve ao facto do indivíduo ter colocar no papel no caixote do lixo indiferenciado. Nunca ouvira falar de reciclagem? Embora, em abono da verdade, nas estações do metro não existam contentores específicos para essa finalidade.

A luva tinha sido abandonada na escadaria. Deixa à sua sorte parecia evitar com “classe” as pegadas ameaçadoras. É engraçado como numa fracção de tempo o nosso cérebro tem o condão de processar inúmeros cenários. Primeiro pensei que o melhor seria deixar a luva à sua sorte, mas com certeza que essa imagem me iria perseguir e nessa coisas a consciência não perdoa. Depois pensei que se ao passar lhe desse um pontapé suficiente para a retirar do meu campo de visão resolveria o assunto. Depressa percebi que tal não seria solução mais honesta. Por último decidi apanhar a solitária e entrega-la no guichet da estação. Na esperança que a mesma encontrasse a sua gémea. Como recompensa perdi o metro…

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II

O vento sul trouxe a chuva. A desculpa ideal para as pessoas tirarem as suas botas e botins da sapateira. No metro sentia-se o cheiro de borracha molhada. Olhei em volta e via apenas pés calçados com botas reluzentes. Uma das tendências do Inverno parecia ser as vulgares galochas da nossa infância, mas agora tinham enfeites como tecido, pêlo ou outros apliques. Os homens optavam mais pelas vulgarmente apelidadas de bota de montanha ou o botim, para aqueles que vinham trajados mais a rigor.

Mas o cheiro estava a tornar-se cada vez mais intenso e parecia emanar mesmo abaixo do meu nariz. Olhei para o chão e vislumbrei as botas manhosas que me vi obrigado a comprar, pois as que levava calçadas nessa manhã, depois de terem feito seguramente para cima de 10 épocas de inverno, decidirem descolar as suas solas por completo. Quanto entrei na sapataria e o senhor me perguntou se podia ajudar questionei-me se não devia antes eu oferecer ajuda ao seu proprietário. Para além da música pimba que se fazia ouvir, a organização caótica, semelhante à de uma feira ambulante, fazia adivinhar uma catástrofe eminente, ameaçando que todos ficássemos soterrados por caixas de sapatos da próxima vez que a “cantora” que se fazia ouvir falha-se uma nota. Reprimi o meu ímpeto e solicitei explicitamente um calçado o mais barato possível para chegar a casa, visto que tinha tido um acidente (e enquanto falava apontava para as velhas botas). Olhou-me de lado, mas sempre me foi perguntando qual o número que calçava. Apresentou-me um modelo de nota sóbrio de cor preta, pelo preço de € 10,00. Experimentei e saí calçado de fresco da loja, ao mesmo tempo que, involuntariamente, deixava um rasto de odor a borracha que agora estava também a sentir.

IMG_20170225_174549_657.jpgAs botas são aceitáveis, apesar de uma certa dureza sentida depois das primeiras léguas percorridas, talvez por ainda não terem sido devidamente amaciadas. Mas o seu cheiro é intolerável. Hoje pernoitam na varanda e amanhã logo as cheirarei, para perceber se há futuro nesta relação. Enquanto isso as minhas velhas botas, moribundas, companheiras de tantas viagens, jaziam no fundo do saco de plástico. Não sei se terão conserto. O sapateiro será o seu cuidador ou carrasco.

 

 

25 de Janeiro – quarta-feira

I

Hoje é dia de dentista. Não para mim, felizmente. Antes para o meu filho, que assim me acompanha até à metrópole. Calado e reservado, lá vai dizendo uma ou outra palavra de ocasião ou respondendo às questões que lhe coloco. Compreendo-o fraternamente. É cedo demais. Barbaramente cedo. A geada ri-se da nossa obrigação, enquanto permanece deitada à espera que os primeiros raios e sol a mande embora.

À medida que a carreira vai fazendo a sua gincana pelas estreitas ruas daquilo que já foi um bairro ilegal, e que agora é só um péssimo exemplo da falta de intervenção no planeamento urbano, as pessoas vão subindo para o autocarro. Comento com o meu filho que hoje estamos a apanhar muita gente que normalmente não vai neste autocarro, ou pelo menos não neste horário. Curiosamente é também o caso dele… Isso é comprovado pela quantidade de pessoas que não tem passe e compra a tarifa de bordo. Passamos ao lado do Parque de Exposições e constato que este ainda não sabe o seu nome. Quando será que lho ensinam?

Junto ao Tejo a atmosfera é a dos filmes de terror. Um denso nevoeiro reinava não deixando discernir o que era da terra e o que era do rio. O barco atrasa-se nas manobras de atracagem ao porão. Não estará fácil para o Mestre da embarcação. Lá entramos todos sem ninguém cair borda fora e o navio pode seguir rumo à capital. O miúdo recebe uma chamada no telemóvel. Certamente a mãe a perguntar se ele está devidamente agasalhado. Eu encosto a cabeça ao vidro, num leve sono de 5 minutos.

Se há coisa que me inquieta são os pompons no topo dos gorros. Para que é que serve aquilo? Será uma reserva extra de calor? Será que o próprio gorro tem frio? Não se entende. Acerca disso lembro-me da série South Park, em que os putos andam sempre equipados com gorros deste género. À excepção do Kenny. Esse é pobre e só tem direito a um kispo cor-de-laranja, com um capuz tão apertado que só deixa os olhos à vista (eh, eh, eh; olhos à vista…). Ou seja tem um casaco com gorro incluído para ficar mais barato. É também o personagem que morre em todos os episódios. Se isso não acontece assim, a série deixou de ter graça. Nestes casos, para mim, a tradição ainda devia ser o que era.

Não consigo continuar a ouvir o meu pensamento, porque no sistema de som da carruagem do metro anormalmente alto, a voz da senhora saía com uma distorção digna de uma música de heavy-metal.

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II

Enquanto me desloco para a incontornável ligação fluvial penso na notícia do dia – os barcos sem travões. Ao que parece um dos catamarãs matutinos chocou com o pontão da capital, dando origem a mais de 3 dezenas de feridos ligeiros. Quero afastar este pensamento, mas não consigo.

Isso era pelo menos o que eu pensava até me deparar com, a linha azul do metro. Depressa percebi que a sua perturbação iria fazer com que apanhasse o barco seguinte ao habitual. Na correspondência com a linha verde entendi que o barco seguinte passaria a ser o seguinte ao seguinte. E ainda bem que já não havia mais metros a apanhar, senão dificilmente chegava a casa hoje.

Perco o barco por minutos e decido preencher os minutos de espera redigindo uma reclamação relativamente ao serviço decrépito do Metro. Deixem-me só captar um sinal wi-fi e já vão ver o que nos espera.

A mera reclamação acabou por ser mais extensa que o devido e muito anormal. É da minha natureza. Tenho sempre que contextualizar as minhas zangas e desvenda possíveis soluções… Para além disso gosto de cuidar a escrita da mesma. Alegra-me pensar que do outro lado, quem recebe a minha reclamação a lerá com prazer e, por isso mesmo, será levada em consideração. Sei perfeitamente que sou um lírico em pensar desta forma, mas neste aspecto específico prefiro continuar a enganar-me; sob pena de desistir simplesmente de reclamar com as instituições e reservar a minha indignação apenas ara as redes sociais. Assim, reservo-me ao direito de disparar nas duas direcções (link reclamação publicado no facebook).

O barco chegava a bom porto e percebi que meia dúzia de pessoas tinham ouvido a notícia da manhã. Eu, por via das dúvidas, mantive-me sentando até o barco atracar e abrirem as portas de desembarque. Até porque a noite já caíra e eu queria saber onde punha o pé. O seguro morreu de velho e eu também quero chegar a ancião.

Se de manhã apelidava a carreira de caranguejola, agora à tarde nem sei como qualificar a mesma. Coloco os auscultadores e encosto a cabeça. É escusado. A trepidação do veículo e a multiplicidade de ruídos que o mesmo imite levam a melhor. Os únicos momentos de sossego é quando o motor se desliga em pleno andamento. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu, que acalmo. Penso positivo e contento-me por já não falta muito para chegar ao meu destino.

24 de Janeiro – terça-feira

 

 

I

Tinha ouvido que a temperatura iria aumentar, mas o sacana do acentuado arrefecimento nocturno ataca-me mal saiu do prédio. Cobarde. Apanhou-me desprevenido, com menos roupa. Encolho-me na evidência de que já não tenho tempo para voltar atrás.

O autocarro que apanho é o que se pode chamar uma autêntica caranguejola. Velho, se podermos considerar 25 anos como velho, e a cair de podre. Ao ralenti tremia como se queixasse do frio, com vidros a vibrar intensamente. Os barulhos parasitas não desapareciam em andamento, apenas ficavam menos audíveis devido ao som do desafinado motor. Quando travava parecia que todas as pelas imploravam por óleo e massa consistente. Manchas de bolor decoravam o interior. Até os monitores informativos instalados se recusavam a informar, exibindo um qualquer erro de Windows, que não consigo precisar qual era, pois estava de pernas para o ar.

As senhoras do costume não se calavam. Hoje estavam particularmente eléctricas e ruidosas. Coloquei os auscultadores e ajustei o volume para o nível alienação do que me rodeia. Enquanto navegava olhava pela janela, mas a vista só me devolvia escuridão. Era cedo demais.

A segunda escolha da leitura aleatória do aparelho é Modern Love dos Bloc Party. Todos os dias acordo com uma música na cabeça. Hoje, curiosamente, foi esta. Às vezes nem são cantigas da minha predilecção ou audição usual. Lembro-me que ontem acordei a “ouvir” Onda Morna de António Variações. Admiro o artista, que nos deixou cedo demais, mas não é frequentador assíduo ao meu reportório musical.

O poema daquela canção de Bloc Party intriga-me e não consigo perceber muito bem o seu sentido. No entanto, sempre me fascinou a ideia de que para se tentar chegar a alguém (no sentido de alcançar o seu sentido) se lhe oferece um livro. Que bela imagem: Mas o que mais me prende é a linha melódica. A forma como a música cai sendo construída. Iniciando de uma forma minimalista vão-se construindo camadas que edificam uma densidade única e levantam uma parede sonora, instrumento a instrumento. Para tentar chegar á amago desta canção coloquei-a em modo repetição e lá fui eu trauteando até ao trabalho. Só quando cheguei me ocorreu que ainda há duas semanas tinha escrito sobre esta canção… É, sem dúvida, muito importante para mim. Um clássico da música moderna e um espelho das relações amorosas dos tempos que correm.

II

Ao abrir o caderno não fazia a mínima ideia do que iria escrever. O dia tinha sido um vazio, como uma página em branco onde nada há a registar. A única coisa que fugiu à rotina foi um bombom intragável que me ofereceram, que parecia recheado com bagaço, bebida da qual fujo a 7 pés. Para rasgar este marasmo decidi fazer a beira-rio até ao cais de embarque a pé. Porque o tempo a isso o convidava e porque o tempo assim o permitia. Céu limpo, temperatura amena e quase meia-hora de espera até ao próximo barco.

Ao passar pelo cais das cervicais, aquele pareceu-me o local mais densamente povoado à face da terra, excepção feita à linha vede do Metro em hora de ponta. O sítio estava pejado de turistas asiáticos, sempre hiperactivos e hiperdivertidos. Se isto está assim no Inverno, imagino no Verão – pensei eu para comigo. Ou se calhar falei em voz alta, pois nesse imediato fui abalroado por uma legião de asiáticos com mapas em riste e smartphones e câmaras digitais. Riam-se muito para mim e diziam coisas que eu não entendia, mas insistiam em tirar selfies ao meu lado: das duas uma: ou viam-me com um ícone da cultura pop da cosmopolita capital (o que acho difícil de aceitar); ou confundiram-me com um qualquer jogador de futebol. Sou condescendente e alinho naquele lapso. No fundo diverte-me a ideia de um qualquer dia ver a minha cara estampada numa t-shirt manhosa Made in Tawain.

Sigo pela frente ribeirinha, apreciando o que está feito e o que está por fazer. Cativa-me o espaço pedonal conquistado e os locais de ócio plantados aqui e além. Mai à frente, um quiosque ribeirinho a nunca que a sua happy-hour dura na realidade 3 horas. (H)ora aí está um local a visitar no futuro; quando houver tempo a matar e uma noite ainda jovem.

Esta é uma interessante expressão: matar o tempo. Interrogo-me qual a origem da mesma. Gosto de pensar que foi alguém que agrediu violentamente um despertador para além do ponto de conserto, quando este o obrigava a acordar depois de uma noite de folia. Só pode.

Enquanto a carreira faz o percurso na direcção da minha casa vejo alguém a telefonar de uma cabine pública. E isso é sempre digno de registo nos dias que correm. Constatar que há pessoas que ainda tentam preservar as tradições.

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23 de Janeiro – segunda-feira

I

As pessoas na paragem afundam fundo as mãos nos bolsos, na tentativa de encontrar maior aconchego ou alguma fonte de calor. É uma vã demanda. Àquela hora da madrugada o sono e o frio levam sempre a melhor. É da lei das coisas. As estruturas existentes também não convidam muito ao conforto. Vulgarmente o design deixa as pessoas expostas aos caprichos climatéricos. Isto quando existem; quando a paragem não é simplesmente aquele poste de iluminação ou aquela árvore onde se conseguiu pendurar uma placa. Esta, de futuro, deve ser uma situação a acompanhar e melhorar por parte do poder local e prestadores de serviços, de forma a trazer mais pessoas ao uso dos transportes públicos.

No metro à medida que se aproximava a madrasta estação, o casal de namorados despede-se com ternura. Só mais um beijo, só mais uma carícia; enquanto o comboio não fecha as portas. Pouco lhes interessa a hora de ponta e o movimento pendular de encontrões sofridos. E as mãos unidas apenas se desprenderão pelo movimento guilhotinado do fecho de portas. Agora um vidro os separa. Colam as mãos, como nos filmes. E por momentos estou certo que sentem o calor um do outro. Quero acreditar nisso e noo nas suas expressões. Este foi o momento em que senti verdadeiramente o peso da idade. Parece tão distante a época em que me despedia do meu ente querido com semelhante paizão. A gora quando um de nós entra neste campo, o outro pergunta logo: “tu estás bem?” Na janela da composição ficaram as impressões digitais, que o técnico forense se apressava para recolher.

II

Uma jovem senta-se e abre um livro. Sim, daqueles com capa e letras e tudo. Para cúmulo começa a ler, deliciada, saboreando cada palavra. Para que a atenção seja total desliga o leitor de mp3 e guarda-o na mala. Perdida na leitura, nem percebe os olhares das pessoas que a rodeiam, num misto de receio e desconfiança… Esta miúda lê! Só pode ser perigosa. Ainda para ajudar à confusão, a rapariga usa calças rasgadas e coisas cravadas no nariz. Muito suspeito mesmo. Eu fico contente por ver que ainda há pessoas a ler livros de verdade, daqueles mesmo de papel. Nesse campo esqueço as minhas preocupações. Há sempre espaço para o objecto livro; em papel reciclado, pois claro. De repente, uma dúvida assola o meu espírito e de imediato confirmo se o livro que a jovem lê é ou não daqueles de auto-ajuda, que só servem para as pessoas ficar deprimidas ou empáfias até à última casa. Descanso-me; não é nada disso. Nem tampouco uma biografia de alguma pseudo-celebridade. Ufa!

Hoje a tarde é límpida e tudo se avista do centro do estuário. De Sintra à Arrábida; da 25 de Abril à Vasco da Gama. Tudo na linha do horizonte; tudo no campo de visão que se alegra perante tal paisagem. É essa a maravilha de navegar. Escolho a ligação fluvial pela clama que me transmite e a beleza que me proporciona. Certo que demoro mais e que às vezes apanho condições de navegação violentas. Mas essa é um pequeno preço a pagar pelo retorno que tenho.

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20 de Janeiro – sexta-feira

I

O despertador volta a ser derrotado pela minha ânsia de acordar; de viver. É a segunda vez esta semana… Mas desta vez deixo-me ficar mais uns minutos a contemplar a escuridão, até os meus olhos se habituarem e começarem a vislumbrar sombras e contornos, mercê da claridade gerada pela iluminação pública que se infiltra nos buraquinhos dos estores.

Na rua, os carros parecem ter recebido um acabamento em verniz, que os faz brilhar muito. Tiro um dedo do bolso, para verificar a espessura da camada de gelo. Na realidade tiro a mão toda mas mantenho o punho cerrado apenas com o indicador esticado. Ainda é uma espessura considerável (e fria). Enquanto espero o atrasado autocarro equaciono se também eu ali especado poderia ficar coberto desta película brilhante. Teria certamente de aprender com os carros, que embora sejam feitos para andar, desenvolveram uma técnica que os permite ficar imóveis. O som denuncia a chegada do autocarro. A mulher franzina, eu e o homem de bigode entramos nas suas aquecidas entranhas.

Por momentos penso como seria engraçado que também o barco estivesse coberto de gelo e brilhasse sob a ténue iluminação. Num quadro diferente e original. Mas, infelizmente, a realidade não acompanha a minha imaginação, Segue seguro na sua banalidade. A linha do horizonte é pintalgada pelas pequenas luzes. Aos poucos, as mesmas começam a definir os contornos da cidade, que acorda para a sua azáfama matinal. No meio da plataforma do metro, o pombo parece perdido. Entre fintas e simulações, lá se vai esgueirando aos passos humanos, cegos na pressa e assertividade. Esquadrinha o pavimento na procura incessante de mais uma migalha. Hoje o painel não avisa perturbações e o pombo parece apostado nisso para passar uma manhã tranquila naquela estação.

Entro na carruagem estranhando o vazio do seu interior. “Indeciso-me” na escolha do lugar, tamanha é a oferta. Sento-me no meio, no sentido da marcha. De frente para mim, mas na ponta da carruagem, senta-se um homem cego. Entretido com o som qua saia dos seus auriculares não percebeu no cartão multibanco que lhe caia do bolso. Aproximei-me e toquei-lhe no braço. Ele sobressaltou-se. Apanhei o cartão enquanto lhe dizia que o tinha deixado cair e conduzi-o à sua mão. Agradecido tocou-me na mão e por momentos foi como se os seus olhos ganhassem vida. Só me saiu um “não tem de quê” da boca para fora e recolhi-me novamente ao meu lugar. Quando me sentava recordei a promessa do dia transacto, de sair na estação anterior ao meu destino. Tarde demais; o meu preguiçoso subconsciente levou a melhor. Para castigo o tapete rolante não estava em funcionamento. O karma é uma cabra.

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II

Ao sair do metro sinto o cheiro inconfundível de sexta-feira à tarde. Ou é isso, ou é o odor a castanhas assadas. A minha memória olfactiva por vezes prega-me esta partida. Talvez por serem dois aromas muito caros para mim. Deparo-me com o carrinho do vendedor ambulante. Não restam dúvida. São sextas-feiras à tarde, quentes e boas que ele está vender. É difícil resistir. Compro uma dúzia, que vêm dentro de um pacote onde se guardam os bolos: Protesto veementemente. Aquilo é bom é embrulhadas em cartuchos feitos de folhas de jornais ou de páginas amarelas. Nunca tinha ouvido falar de reutilização? Que sim, dizia o vendedor. Mas a ASAE obrigava o homem a condicionar as sextas-feiras à tarde daquela maneira. Lá paguei contrariado, mas avisando de antemão que era meçlhor não apanhar nenhum feriado misturado com os fins-de-semana, ao descascar as sextas-feiras à tarde… Estavam no ponto. Estaladiças e com a casca a soltar-se com naturalidade, deixando um apetecível fim-de-semana à vista. Que bom é saborear aquele acepipe, num fim de tarde de sol invernal, sentado no paredão a ver o Tejo a passar.

Dentro das águas do estuário a japónica ri-se satisfeita. A maré vai alta e, por enquanto, a invasora está a salvo… Mas não por muito tempo. Pela margem sul os homens com traje de surfista estão a aguardar pacientemente a sua oportunidade, escondidos da GNR por trás dos arbustos.

À saída do cais uma bonita menina oferece-me uma flor, com um cartão preso. Distraído, penso que ainda não perdi o charme. Quando olho melhor par o cartão vejo que o mesmo leva o nome da loja de flores que acabou de abrir naquele espaço. Lá se esfumou a minha ilusão. Bem, ao menos a minha esposa adora flores, coisa que sempre esqueço, e isto pode render uns pontos lá em casa. Já agora deixa cá rasgar o cartão.

Nas voltas e revoltas da carreira tenho uma companhia na viagem, pelo menos até meio caminho. As nossas conversas são sempre interessantes e desta vez centram-se no tema das bases de dados e na privacidade para os cidadãos. Assunto a retomar, pois fomos interrompidos pela paragem onde a moça se costuma apear.



19 de Janeiro – quinta-feira

I

Ao sair do prédio sou vítima do famigerado choque térmico. O meliante apanha-me desprevenido e aplica-me um par de estalos exemplar que me gela as bochechas. À medida que percorria a distância até à paragem sinto os lábios colarem, num narcísico beijo. Nem consigo articular o bom da usual ao motorista. Dentro do veículo reparo na chauffage reforçada que depressa me aquece o corpo. “Tartarugo-me” no casacão, como se duma carapaça se tratasse, encosto a cabeça e dou largas à preguiça matutina.

Que bem que soube este trajecto em tremelicado sono. Quando o autocarro abre a porta traseira sinto imediatamente o desconforto de ter de sair. A estrutura metálica, crua e impessoal abre-se para receber os passageiros no seu frio regaço. Para ter ali um edifício digno para receber os utilizadores da ligação fluvial, só havia uma hipótese: construir um novo terminal de raiz. Nunca esquecendo que por ser um edifício isolado à beira rio plantado deve.se ter em especial atenção o tipo de material utilizado. Um edifício metálico implica uma transferência térmica brutal, estando assim vulnerável às temperaturas extremas: Quando está muito frio ou muito calor, essa realidade é amplificada no seu interior.

Fico sempre fascinado peça quantidade de pessoas que cabem nas 3 exíguas carruagens da linha verde do metro. Abrem-se as portas e entram de rompante, embora ordeiramente. Num movimento perpétuo que se assemelha à hora de ponta num formigueiro. Entretanto, no painel informativo passa a mensagem que a linha azul está perturbada. E eu não consigo deixar de pensar no dia em que a perturbação se torne de tal forma que a linha se veja obrigada a colocar baixa médica e ficar em casa.

A senhora invisual pergunta-me quanto tempo de espera é estimado. E esse é o ponto de partida para uma amena conversa de 3’ e 40” que aquece sempre a alma. Os assuntos do frio e da fraca qualidade dos transportes públicos são incontornáveis e são sempre denominadores comuns. A senhora é exímia na arte da conversa de ocasião e o tempo flui enquanto o metro não chega. Acabamos por não ter problema maior nesta ligação e despedimo-nos com um bom dia, que é sempre optimista e esperançoso. No entanto, para a senhora o dia não começa lá muito de feição, ao esbarrar com um senhor, também ele invisual, que saía da carruagem. Nada de grave; talvez um galo na testa e pouco mais. O cão-guia não podia prever tal cenário. Quais seriam as probabilidades?

Depressa me cruzo com nova perturbação, desta vez amarela. O tempo estimado está congelado no minuto, mas a espera prolonga-se. Menos mau. No outro oposto, o tempo de espera indica 26’ e 40”. Passados cerca de 10 minutos lá chega o metro. Salto para o mesmo e tudo parece correr bem. Até que a uma paragem, do meu destino final o comboio pára por um largo período. O anúncio tardio informa que a circulação se encontra interrompida e que esperam retomar dentro de momentos. Ainda ontem ouvia através da rádio o ministro anunciar que os utentes do metro passariam já a sentir as melhorias, fruto da entra em funcionamento de duas composições. Provavelmente devem ter avariado 4 ou 5 ao mesmo tempo… Agradeço a oportunidade proporcionada para estrear a nova e alargada calçada. O espaço parece duplicado e permite a fluidez do tráfego pedonal sem os constrangimentos do passado. Mesmo com o frio, a coisa vai, acelerando o passo. Doravante, pela manhã, sairei sempre na estação anterior. Vejamos se amanhã me recordo desta promessa.

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II

O rapaz tocava viola na rua. Ágil na escala e no dedilhar. Perante aquele quadro sentia-me duplamente surpreendido. Primeiro pela sua coragem para contar o espetáculo no meio da massa polar árctica. Depois, por perceber que, nota após nota, seus dedos se mantinham inteiros. Não consegui ficar. Não demonstrei o mesmo grau de resistência e retirei-me para a sala de embarque.

Quando entrava deparei-me com um anúncio de cruzeiros no Tejo, destinado aos turistas estrangeiros, pois estava escrito em inglês. O mesmo declarava que pelo preço de €35,00 o turista poderia experienciar um passeio de cacilheiro por um período de duas horas. Se alguém diz aos “camones” que com esse valor tiram o passe mensal e podem andar as horas que quiserem de cacilheiro no Tejo, rebentam com o negócio desta firma.

Ao sentar-me no barco lembrei-me que pela manhã recebi um SMS do meu filho a avisar eu me tinha esquecido das chaves… No caso de não estra ninguém em casa, aquilo ia-me valer uma valente seca. Para me distrair e tentar esquecer isso esfregava com o indicador o ecrã do telemóvel. Ora deixa cá ver o que se passou enquanto trabalhava.

Em fundo o Seixalinho ameaça tornar-se Seixalão. Chega de diversão. Arrumo o telemóvel no bolso e desço a escadas. Enquanto marcho entre o barco e o autocarro vem-me à memória a notícia domingueira que anunciava que a atleta portuguesa Inês Henriques tinha batido o recorde do mundo dos 50 km marcha: Seria de esperar que semelhante feito tivesse honras de abertura de noticiário televisivo. Ao invés foi relegada para última informação da secção desportiva, depois de ter sido escalpelizado tudo o que estava relacionado com o mundo do futebol. E assim marcha o desporto no nosso cantinho…

18 de Janeiro – quarta-feira

I

As insónias levaram a melhor. Depois de algumas voltas na cama cheguei à conclusão que não conseguia dormir mais. Sentia aquele espaço incompleto. Ela já abalara e o desconforto tomara o seu lugar. Preparei-me e saí de casa. Como não tinha a certeza se havia autocarro àquela hora decidi levar o carro até ao cais, para apanhar o barco das 6 da manhã. A consulta do site da empresa de autocarros nunca é 100% fiável... Pelo caminho tomo conhecimento que efectivamente existem carreiras madrugadoras; tenho de me informar melhor sobre isso.

Quando chego à beira-rio a estrutura que apoia e dá acesso ao cais está ainda encerrada. O vento gélido corta. Meia dúzia de pessoas, travadas pelo portão de ferro, saltitam de um pé para o outro na tentativa de iludir o frio. Inconscientemente tento perceber se ainda sou detentor da ponta do meu nariz. Bem lhe toco (acho eu), mas continuo sem ter a certeza. Isso recorda-me a brincadeira usual que temos com as crianças. Quando fazemos uma espécie de alicate com o dedo indicador e o dedo médio e levamos ao nariz do petiz, simulando o movimento de quem o está a arrancar. Após entremeamos os dedos com o polegar, exibimos uma figa e dizemos: “tenho o teu nariz”. E rimos muito quando o pequeno ingenuamente leva a mão ao nariz para confirmar a ilusão.

O vento varria o estuário, cujas águas açoitavam o casco do catamarã. Este avançava incoerente, entre sobressaltos e incertezas. Com rumo traçado, mas ainda a tentar entender como chegar. No fundo, o mesmo nos acontece na nossa vida. Sabemos onde queremos chegar e tá visualizamos o nosso objectivo. Mas, não raras vezes, tropeçamos nos próprios passos que visam conduzir-nos à meta.

Hoje é reconfortante andar de metro. O calor emanado é um convite irrecusável. Além disso, àquela hora não há enchentes e o fenómeno indústria conserveira demorará certamente uma hora para ter o seu início. Sou alertado para a correspondência. Por uma vez desejo permanecer sentado e aconchegado dentro daquela carruagem. Que bem que estava a saber. E o sentimento parece alastrar-se aos restantes companheiros de viagem, que a custo lá saem para as suas correspondências.IMG_20170101_125846_799.jpg

Essa analogia faz-me lembrar daquela velha consideração: na vida estamos todos em trânsito. No entanto, algumas pessoas viram-se obrigadas a estacionar nas estações do metro, que permanecerão abertas nas próximas noites, em virtude das temperaturas excessivamente baixas. Pensar que em pleno século XXI ainda nos deparamos com semelhantes situações gela-me o coração.

 

II

O reflexo do sol nas águas do Tejo ofusca-me a visão. Tenho os óculos escuros na sacola, mas não pretendo evitar este fenómeno. Tiro ates a sandes. Não para tapar o sol me encandeia. É tão maravilhosa a luz do dia invernal no estuário. Essa é uma das coisas que nunca me fartarão: a luminosidade dos dias de inverno.

Durante o dia de hoje aprendi algo. Melhor, refiz a noção que tinha como verdadeira. Toda a vida estive convencido que a expressão “Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo” era da autoria de Fernando Pessoa. Nunca reflecti muito sobre isso. Fernando Pessoa e sus muchachos escreveram muita coisa. E alguma de qualidade duvidosa (como seria este caso). Portanto era algo que dava como adquirido. Até porque para esmiuçar toda a poesia de Pessoa era coisa para demorar.

Ontem desafiaram este meu conceito, afirmando que na realidade estas 3 frases faziam parte de um poema de Augusto Cury. Como é lógico o meu mundo abanou. Não podia ser! Mas sim, fazia sentido a lenga-lenga. O poema em questão foi intitulado “Ser Feliz”. Apresentava coerência e o final rematava com a tal citação.

Decidi investigar um pouco mais e cheguei à origem deste enigma. Na realidade, a expressão das pedras e do castelo é da autoria de um blogger brasileiro que se apresenta como Nemo Nox. Presumo que esta escolha discutível de nickname possa ser a justificação para que alterassem a autoria. Alguém decidiu juntar isso a um excerto da obra “Dez leis para ser feliz” de Augusto Cury e apresentar este resultado como um poema, ora deste autor, ora de Fernando Pessoa. Quem foi o responsável pela criação deste mito urbano é mistério. Mas eu tenho para mim que o culpado foi o mordomo.

17 de Janeiro – terça-feira

I

Esta noite tive um sonho. Sonhei que Martin Luther King não tinha sido assassinado em 1968. Que o mundo nunca tinha conhecido Trumps, Clintons, Bushs; Putins, Assads, Kadafis; Jung-Uns, Le Pens, Obiangs, Maduros e afins. E que ninguém celebrava o seu famoso discurso, porque esse era simplesmente o registo banal. Ao mesmo tempo que relembro este sonho olho em redor. Denoto diferente etnias, sotaques e línguas. Tento avaliar o grau de tolerância perante a diversidade naquela carruagem do metro. Aparentemente nada indica animosidade na expressão dos presentes. Mas sabemos que este são sentimentos cada vez mais escondidos; recalcados. Que saem à rua em dias de eleições, como temos constatado nos tempos recentes. O futuro que se queria de esperança, sustentável, apresenta um aspecto medonho, tremido. Que legado deixaremos às gerações vindouras? Que moral teremos para educar ou indicar determinado caminho?

Cruzo-me com os cacifos inteligentes, imensos no seu amarelo, a quem coloco estas questões; não me respondem... Ou estão mal-humorados ou não foram com a minha cara.

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II

O dia na capital acabou por ser longo. Não fruto do trabalho, mas da actividade pós-laboral. Num acto impulsivo inscrevi-me numa “loja de trabalho” (em português workshop) de iniciação à actividade teatral. Provavelmente, mais para me contrariar e provar que também conseguia, do que por outro motivo qualquer. O mini-curso foi ministrado por 2 nomes maiores da arte cénica nacional: Io Apoloni e Guilherme Filipe. Que bom que me obriguei a ir. Só por os ouvir falar, apaixonadamente, do seu ofício valeu a pena. Em cada gesto, dedicação. Em cada palavra deslumbramento. E foi uma partilha de conhecimento, em conversa amena, que se passou naquele fim de tarde numa pequena sala excessivamente quente. Uma fuga à rotina foi o que semelhante experiência me proporcionou. Num estranho à vontada e cumplicidade com os restantes participantes. E um desejo enorme de ver mais, muito mais, teatro. Mas de forma apaixonada e completa, como como nos foi passado. Será que estou à altura desta empresa? Na agenda marco a peça e o local onde está em cena: “Noite da Liberdade”, Teatro Municipal Joaquim Benite – Almada, até 29 de Janeiro. Tentar, por tudo, não falhar...

Em poucas ocasiões uma bica me soube tão bem. Com aquele que tomo no bar do barco. A cada oscilação da chávena é como se a minha alma se enchesse de grãos de café. Tão doce me soube aquele amargo. Tal como os pêssegos da minha infância colhidos dos pessegueiros do quintal da minha avó. A lembrança que partilhei na oficina teatral. Com deliciosa saudade. Como gostava que todos os momentos da minha vida tivessem o sabor e o sumo daqueles pêssegos da minha infância. Que bem me faria. Não sei como alcançar esse estádio. Vou tentar aproveitar mais cada episódio, partilhar mais cada momentos. Ou, mais que provável, rabisco isto no caderno e rapidamente esquecerei semelhante resolução. Mas pelo menos já reconheço.

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16 de Janeiro – segunda-feira

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I

Na rotunda onde as portas estão abertas, também está aberto o capô do carro imobilizado na berma. O homem de mãos nos bolsos observa outro debruçado sobre a mecânica do carro. O seu conhecimento profundo da mesma baseava-se em puxar cabos e verificar se as tampas estavam bem fechadas. Um terceiro homem, dentro do carro, ia dando à chave a compasso, mais por descargo de consciência do que na certeza que iria funcionar. Era tramado começar a semana daquela maneira, pensava do alto do autocarro que me transportava e me aquecia as pernas e preparava-se para fazer o mesmo à ponta do nariz. Ironicamente, Márcia dissertava acerca do Bom Destino na altura em que me cruzava com semelhante cena. O que me lembrava também do fim-de-semana. Na qual a pequena companhia de teatro, melhor colectivo cultural, Mascarenhas-Martins, completara o seu 1.º aniversário de existência. E eu reconhecia naqueles jovens a capacidade extrema de serem também o veículo dos meus sonhos para além dos seus.

Não podia deixar de desejar, com muita força, que em breve muitos dos residentes que querem construir uma terra de cultura poderiam vir a trabalhar em conjunto. Formando rede de contactos, de trabalho de projectos. Escancarando a porta às artes. Criar o hábito de consumo cultural por parte da população. Aguçar o espírito crítico e a exigência. No dia em que as pessoas passarem a demandar produção artística, o objectivo foi alcançado. Acredito que será possível neste cidade e que será possível neste concelho. “Dizem que os bons não nascem por acaso / Tens tanto a fazer”. É isso também que eu penso sobre este colectivo cultural, bem como de tantos outros que pululam por esta cidade.

Os corpos encaixam-se rapidamente na verde linha do Metro, sempre deficitária àquela fresca hora. Sem reclamações de monta, as pessoas deixam-se levar, sem oferecer resistência. O relógio regista 30 minutos após as 7 da manhã. E eu penso que aquilo ainda vai apertar bastante com o avançar da manhã. Mas denoto que complacência das pessoas significa também um maior civismo e respeito pelo outro. Aguarda-se agora que as pessoas saíam da carruagem para depois entrar. Pelo menos na grande maioria das estações, havendo sempre excepções onde o bom senso ainda não impera. Lá chegará o progresso...

No local que não sabe bem se é Baixa ou se é Chiado, o saco estava abandonado no assento corrido. Questionei se seria de alguém em meu redor. Não era. Pensei ir entregar o mesmo ao funcionário ou segurança. Mas já não há ninguém nas plataformas. Podia levá-lo comigo, mas no meio desta indecisão chega o metro e acabo por deixar lá o citado objecto. Quando sair falo com um funcionário do guichet. Assim o fiz, mal cheguei ao meu destino. A simpatia atendeu-me do outro lado do vidro, agradeceu a informação e imediatamente colocou-se no rádio para reportar a ocorrência. E eu lá ia, na esperança de que o saco pudesse encontrar o caminho de volta para o seu dono ou a sua dona.

II

Era grande o rebuliço na rua frente à estação. Equipas de filmagens e seus veículos ocupavam estacionamentos e passeios. Os trabalhadores corriam de um lado para o outro com telemóveis na mão, numa azáfama acima do normal para aquela transversal. Passei de soslaio sem ligar importância. Apenas a necessária para não tropeçar nos cabos estendidos pelo passeio. Mas meditava no circo montado e nos enormes recursos mobilizados, para depois tudo se resumir a meia dúzia de minutos de filmagem. O comum dos mortais não tem noção do numero de pessoas envolvidas numa simples cena. Muito para além dos actores e do realizador existem um sem número de artistas e técnicos envolvidos. A cena pode estar a ser preparada durante meses e nós espectadores, nunca teremos essa noção.

A superfície do rio esta tarde parece veludo azul. Quase que apostava que se poderia apalpar e sentir, numa doce e reconfortante textura. Perderia. E o bando de gaivotas amontoadas no estreito banco de areia ririam muito quando ficasse com a manga do casaco ensopada.



13 de Janeiro – sexta-feira

I

Ainda meio a dormir desloco-me em modo automático para a paragem de autocarros. Sei que devo estar a andar, mas não sinto as pernas mexerem. Chego ao destino minutos antes da passagem da carreira. Saco do telemóvel para saber as horas e verificar de forma fugaz o que se tinha passado enquanto dormia, o que parecia incluir ainda o momento presente…

Ao fundo ouviu-se o roncar característico do motor do autocarro. Em cima da hora, desta vez. Meto a mão ao bolso do lado direito, onde o passe tem lugar cativo. Assusto-me ao sentir o vazio. Agito-me e procuro nos restantes bolsos. Abro e fecho a mala em sinal de genuína preocupação. É impressionante como certas situações têm o condão de fazer passar tudo. Naquele momento despertei; já não sentia sono, só horror perante a hipotética necessidade de voltar a ter que tirar o passe. Todas aquelas formalidades e burocracias que desdenho (e das quais ironicamente faço parte, a uma outra escala). O pânico começava a apoderar-se de mim. Esbofeteio-me mentalmente. Dei início ao habitual exercício de reverter os passos, para tentar chegar ao paradeiro do passe. Ao mesmo tempo dei sinal ao motorista que já se impacientava para seguir caminho.

O percurso inverso foi mais lento, sempre a olhar para o chão, perscrutando cada cm2. Bem, se ontem tinha chegado a casa ainda tinha o passe quando apanhei a carreira. Continuava a revirar os bolsos na secreta esperança que um passo de mágica fizesse aparecer o passe. Na noite anterior tinha utilizado o automóvel. Fui lá tentar procurar, iluminado pela fraca luz interior do veículo e pelo telemóvel. Nada. Voltei a casa. Vasculhei o chão, despejei o conteúdo da sacola, esvaziei os bolsos, despi o casaco e virei-o do avesso e ao contrário. Nada; nada. Até ao caixote do lixo deitei olho. Nada; nada; nada. Resignei-me; peguei nas chaves do carros, já resolvido que o trajecto hoje seria diferente. Raios parta as sextas-feira 13.

Enquanto descia no elevador prensava porque raio dizíamos sempre chaves de carro, ou seja, no plural, quando na maior parte dos casos, como no meu, se trata apenas de uma chave? Inseri-a na ignição e rodei-a. O carro começou a tossir de imediato. Engrenei a mudança e preparava-me para remover o travão-de-mão. Não conseguia. Alguma coisa o prendia. Verifiquei melhor. Ora porra, pá! Onde raio se tinha ido enfiar o cabrão do passe. Sondei o relógio. Se fosse de carro até ao terminal fluvial, ainda conseguia apanhar o barco habitual. Acabou por correr tudo bem.

IMG_20161226_092319.jpgO periódico anunciava que depois de mais um assalto à caixa multibanco, o banco tinha decidido não voltar a colocá-la e encarava seriamente a possibilidade de fechar a única dependência na freguesia. Que justiça pode existir quando encarreiramos pessoas para a dependência total do sistema bancário e depois se fecham as portas necessárias ao seu acesso? Não há dependência para a dependência. E por muito que os solavancos do barco se fizessem sentir não sacudia de mim este pensamento.

II

À medida que a margem esquerda do rio crescia tomava forma a pista de aviação. Imaginava como seria fazer a travessia de barco com aviões civis a fazerem-se à pista. Uns valentes cagaços valeriam aos passageiros, com certeza. Ou então deixam de existir barcos... Se calhar fariam um nova ponte. Seria uma ponte aérea? Toda esta confusão com a aviação civil da capital já me agastava. E não tinha ponta por onde pegar. O país parece ir novamente cair nos erros de planeamento e ordenamento do território. Além da visão estratégica ser zero. Cada vez mais achava pertinente formar uma plataforma cívica contra a fixação de semelhante infraestrutura na nossa terra, mas não saberia por onde começar. A pista complementar, que se torne em principal, mas fora daquele local.

Toda esta irritação surgiu na sequência da irritação do dia, que foi ouvir alguém atropelar 3 ou 4 vezes seguidas a palavra “infraestrutura”. Sussurrando tento perceber se a minha dicção era correcta. Infraestrutura. Confirma-se; não tenho dificuldades com a dita. Ufa, posso continuar a irritar-me com quem diz “infrestrtua”.

12 de Janeiro – quinta-feira

I

Hoje o despertador já se pronunciava há algum tempo quando finalmente cumpre o seu objectivo. Saiu de casa apressado, com aquela estúpida sensação de que me esquecia de qualquer coisa. Aquela sensação que nos vai acompanhar o resto do dia, até descobrirmos que olvidámos algo insignificante. Noutra ocasião não nos tinha feito diferença nenhuma, mas neste contexto agiganta-se na sua insignificância.

A fina neblina que cobre a superfície do rio ajuda-me a esquecer. Não se vêem as margens, nem suas luzes. Naquele instante era como se só aquele barco existisse. Olho em volta. Estávamos bem feitos se aquilo fosse uma moderna arca de Noé. Lá se ia a biodiversidade. Tenuemente vão aparecendo as luzes da margem direita do rio. O barco atraca de safanão. Como numa coreografia as pessoas, já de pé, dão um passo à frente e um passo atrás, numa sincronização impecável. Só fica a faltar a palminha da praxe.

É interessante perceber como nos últimos tempos o cheirinho a café vem agradavelmente conquistando espaço nas estações do Metro. Principalmente naquelas de maior dimensões que albergam cruzamentos entre linhas ou ligações a outros meios de transporte. É tão reconfortante pela manhã deslocar-nos ao odor do pequeno-almoço. Já quem não aprecia café não dirá o mesmo, mas deste grupo será residual o número de pessoas que não suportam de todo o cheiro. A essas apenas resta-lhes o autocarro ou uma mola no nariz.

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Na parede da carruagem está exposta a declaração de compromisso patente na Carta do Cliente dos transportes públicos da capital. Não consigo evitar um esgar de sorriso malandro. Um homem lê um livro e as pessoas olham para ele de uma forma estranha, comentando em surdina. Como se a leitura não fosse um acto normal... Ele não liga; embrenhado que está noutras linhas, quase deixa passar a sua estação. De um salto vence “in extremis” o fecho das portas anunciado pelo trio de apitos.

Na estação onde me apeio, o cheiro do café é suplantado pelo aroma de orégãos e folhados acabados de fazer. Maldito olfacto que testas constantemente a nossa resistência a semelhantes tentações. Desta vez ganhaste ignóbil sentido. É um café e um folhado misto, se faz favor.

 

II

O rio tingiu-se de negro. Não está revolto, apenas ondula suavemente o seu luto num movimento que parece perpétuo. Quando terá começado e que terá sido responsável? Quem será que agitou as águas pela primeira vez? No braço de rio a calma impera e as águas mal se mexem. Mas o negro cobre tudo. E parece ser o prenúncio de uma tempestade. A terra está à vista. De resto sempre esteve nesta curta travessia entre margens. Nestas ocasiões é sempre melhor ter os pés em terra e procurar refúgio daquilo que se precipita. Por enquanto a gota continua presa no céu cinzento. Com sorte assim se manterá até me encontrar em casa. Não é que desgoste de chuva. Até aprecio sobremaneira. Mas sem chapéu ou roupa adequada é um convite à desgraça e uma comissão de boas-vindas à constipação.

O barco dá a volta antes de atracar, deixando exposta a estrada de espuma branca que foi construindo ao longo do trajecto pelo rio. A ondulação, a custo, vai apagando esses contornos e isso faz-me pensar que a água lava quase tudo…

A casa amarela mantém-se orgulhosa e única entre o casario branco. Com se fosse líder daquele pelotão. E a camisola só podia ser nova, pela vivacidade e brilho que ostenta. A porta da rua abre-se e é expelida a criança alegre e saltitona. Só podia, para afinar pelo mesmo diapasão. A avó tenta conter o entusiasmo, mas o petiz sabe que os pais estão a chegar. Nada o irá deter até se agarrar aos pescoços de ambos, sufocando-os em carícias. O pai irá logo dizer que já é tarde e têm de ir para casa. Todos os dias a cena é igual e o petiz insiste em repetir-se. Atá ao dia em que se fartará. E nesse momento os pais vão sentir falta do assalto de afectos. Tarde demais; a criança cresceu e o tempo não volta atrás.



11 de janeiro – quarta-feira

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I

Pela manhã dá sempre aquela vontade de nos aconchegarmos no banco dos transportes públicos e fechar os olhos. Principalmente durante o Inverno, quando é ainda noite cerrada e o frio impera. Ao fechar os olhos vejo-me num estranho conforto que esquece os que me rodeiam. Deixo-me levar sem sentimento de vergonha ou de culpa. Sabem bem aqueles minutos extra de dormência. O que ajuda muito nesta capacidade de nos alienarmos, são os meios portáteis de reprodução de música. Ainda me recordo do meu primeiro walkman. Um aparelho maciço e de dimensões consideráveis, de um amarelo incómodo, mas que na altura era considerado o supra-sumo da tecnologia. Equipado com horríveis auscultadores de esponja nas extremidades auriculares e com um apetite voraz por pilhas AA. E as velhinhas cassetes, onde gravava os álbuns predilectos ou canções avulsas das estações de rádio, que invariavelmente viam a sua fita presa no leitor. Para evitar esses riscos, inúmeras foram as vezes em que as rebobinava com auxílio de uma caneta Bic. Um casamento improvável, mas feito para durar.

Hoje, com o registo digital, a música portátil tem uma logística mais fácil e acessível. E é maravilhosamente cómoda. Num só aparelho concentramos o nosso mundo. Um telefone, que é computador, que é leitor de música, que é câmara de filmar e fotográfica, que é receptor de rádio, que é agenda, que é GPS… E que é muitas vezes motivo de isolamento. Esse é o ponto de colocar travão.

Curiosamente é quando coloco os auriculares e recebo uma injecção sonora, que a inspiração flui. Vejo o mundo melhor, sob outra perspectiva e com outro detalhe. Inebriado pela singularidade que observo em cada relance. As letras acotovelam-se para se plasmarem no papel, agigantando-se em palavras. Estas compõem frases, em linhas que se vão sobrepondo. Nasce o texto – quem dera um dia ser livro. Tão bom sentir o cheiro do papel tatuado pela tinta da caneta. E eis que a tinta acaba… Há muito que me precavi para esses percalços. Na mala e nos bolsos amontoo substitutas. A côr pode ser diferente, mas a prosa não se sente traída.

Já pensei em começar a escrever no telefone, que é computador, que é… Bem, já sabemos o que é. Mas não me adapto. Falta o erro rasurado, a letra que não se percebe, as frases lembradas à posteriori que ficam presas fora da prosa com chamadas de atenção, as setas que alteram o sentido normal do texto, as chavetas que incluem só mais uma palavra a meio da frase, ou duas, ou várias. No final passo a limpo e organizo tudo. Sanado de imperfeições, o texto já nem parece o mesmo. Por isso guardo as sebentas. Onde os primórdios persistem plenos de rasuras e emendas. Na realidade raramente volto a abrí-las, mas servem de conforto. Para me relembrar do processo e dos erros que se vão cometendo. Para relembrar a minha natureza humana e conviver bem com a mesma.

II

Meu filho pediu-me para comprar um livro. Fiquei contente. Depois disse que na disciplina de Português era exigido que lesse o mesmo. Continuei contente. Depois mencionou o título e o autor. Aí fiquei envergonhado. Não fazia a mínima ideia de que livro era aquele e quem era o autor. Ele reparou o embaraço na minha expressão. Mas por ser muito mais sensato do que eu isentou-me do incómodo. Uma experiência de 15 anos de vida a lidar comigo ajuda nestas questões.

Enquanto entrava no Metro sentia o livro irrequieto dentro da sacola. E ocorreu-me que seria um belo projecto ler o mesmo em conjunto com o meu rebento. Logo à noite, depois de jantar, desligar-se-ia a televisão e abrir-se-ia o livro. Só ficaria a faltar a lareira. Delírios…

Já no barco assisto ao nascer da Lua. Grande e redonda. E algo translúcida. Cada vez que olho está mais alta. Apressada de chegar ao topo do céu, para ser gambiarra da noite. Hoje será noite de lobisomem. Criatura só e incompreendida. E amanhã constará nos classificados do jornal local: “corfadário estabelecido na vida, bem-apessoado, pretende encontrar donzela entre os 20 e os 45 anos, para relacionamento gastronómico sério e para serem felizes para sempre, como na Disney.”

Quando poiso pé em terra a lua já atingiu uma altura considerável. Talvez já o suficiente para inspirar poetas, dependendo, claro está, da métrica ambicionada.

10 de Janeiro – terça-feira

I

Típico. O autocarro está atrasado. De soslaio desejo afundar-me na poltrona que está abandonada na esquina junto ao contentor do lixo. Já parece ter algum uso, mas sem marcas evidentes desse desgaste. Deve ter aquela cova habitual que se forma ao longo de anos e nos permite aninhar enquanto assistimos um bom filme; ou mau…

Lá vem a carreira. Cinco minutos fora da hora. Tendo em conta o passeio turístico que me leva mais de 30 minutos a fazer um trajecto que levaria, em circunstâncias normais, 5 a 10 minutos, é irrelevante.

Já a bordo, as vizinhas parece que trocavam impressões sobre qual a melhor forma de preparar um peixe gordo cortado em postas altas: se frito, se grelhado. Volto a tomar sentido na conversa e descubro que afinal falam em rojões. Secretamente salivo, mas ninguém nota. Logo à noite tenho de fazer a minha receita de rojões. Olarila.

Quase que adormeço embalado pela doce ondulação do Tejo. Sobressalto-me ao lembrar-me que hoje era dia de dentista, para o meu rebento. Lá teremos de rearranjar as agendas. Sim, porque ser jovem estudante nos dias que correm tem muito que se lhe diga. Os horários são apertados e as solicitações são mais que muitas. Um dia os nossos pedagogos vão perceber que estamos a formar mal os nossos filhos. Talvez aí cheguemos ao círculo polar árctico da educação. Quando chegar ao trabalho tenho de telefonar à dentista.

Na carruagem do Metro, a criança irrequieta insiste em sair e entrar da composição a cada paragem, para grande irritação da sua mãe e extremo deleite meu. Pois recordava-me de tempos que não voltariam, mas que eram responsáveis por uma das rugas na minha memória. Aquela em que um puto reguila não parava quieto e explorava o mundo à custa da minha ansiedade e preocupação. Assim era crescer. E isso adapta-se também aos pais…

II

Já não me lembrava o quanto é incómodo levar nos transportes públicos objecto com um volume maior que o habitual. É esmagamento, encontrão, prisão. É batalhar para conseguir sair, em conjunto com a encomenda, na paragem pretendida. Um autêntico desporto radical.

Saiu do subsolo e encaro um final de tarde que parece saído dos anos 30 ou 40 do século passado. Tudo parece preto e branco. Sinto que a qualquer momento poderão aparecer o Vasco Santana e a Beatriz Costa. No Tejo é difícil definir a linha do horizonte. O rio é tão cinzento como o céu. Apenas a espuma ocasional da ondulação relembra por onde navegamos. Não chove; ameaça. Numa periclitância que me deixa reticente.

Tudo isto acontece quando a função aleatória do leitor de mp3 trás à superfície “This Modern Love” dos Bloc Party. Bato o pé a compasso e abano a cabeça, enquanto trauteio entre dentes o poema da canção. Como seria maravilhoso que alguém pudesse comer a tristeza alheia. Mas depois penso se isso não seria demasiado indigesto, para o corpo ou para a alma… A músiIMG_20170131_181417_109.jpgca, em crescendo, faz-me abanar cada vez mais a cabeça. Já tenho meia dúzia de pessoas a olhar para mim. Eis que atinge o seu clímax e termina serenamente. Já deve ser seguro abrir os olhos. E até convém, porque o barco já está a atracar.

Naquele final de tarde as estufas parecem triste e abandonadas. Enquanto o autocarro ressalta nos buracos da estrada espio o espaço entre plásticos, percebendo a razão para tanta tristeza. As flores tinham sido colhidas e a terra estava agora nua. Fraterno com esta situação o veículo desliga o seu motor. Os passageiros entreolham-se incrédulos. Mas, embora o bicho se mostre temperamental, lá volta a pegar e segue seu caminho. Idiossincrasias dos transportes públicos. Oh bolas! O veículo foi-se abaixo novamente. E desta vez mostra-se renitente em voltar a pegar. Não é grave; não estou longe do meu destino. A caminho...

9 de Janeiro – segunda-feira

I

O fim-de-semana estava a saber bem. Parece sempre pouco natural a sua interrupção por uma segunda-feira. É algo que soa a disruptivo. Enquanto o autocarro treme no seu balanço praguejo pela anormal claridade no interior do mesmo que não me permite pregar olho. Isto apesar de das 16 lâmpadas possíveis, apenas 6 estarem funcionais. A meia eficiência tem coisas destas. Haverá sempre alguém esteja descontente. Mesmo que esse alguém utilize a referida luminosidade para escrever estas linhas.

Quando saiu do autocarro cheira-me que há lodo no cais… Inspiro novamente; confirma-se.

Sou a última peça de tetris daquela carruagem do metropolitano. Cuidadosamente “sardinho-enlato-me”, para não moer as restantes sardinhas. Sim, porque existe uma espécie de código de conduta tacitamente e subliminarmente aceite entre os utilizadores de Metro. O “empurra só um bocadinho, que cabe sempre mais um” é executado com jeitinho e respeito. Quem nunca se viu perante esta situação? Esta é também uma forma de impedir o exercício da actividade dos carteiristas. Ao não conseguirem mexer os seus membros superiores, que no fundo são a sua ferramenta de trabalho, os meliantes vêem-se impossibilitados de fazer o seu trabalho.

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II

A manhã fez-se tarde sob um sol invernal, que remete para um conforto térmico raro nesta estação. Saiu alegre. Pronto para chegar à beira-rio e gozar uns bons minutos de veraneio antes da partida da carreira fluvial, sempre às horas e às meias-hora. Decidi ir até ao Terreiro do Paço e seguir a pé até ao Cais do Sodré. Lembrei-me que há muito não passava pelo apartado. Lamento que as obras já tivessem acabado na Rua do Arsenal, o que já não permitia que a percorresse pelo meio do asfalto como aconteceu por um largo período. Mas em compensação tínhamos recebido uma carta. Que bom. Estava em pulgas para saber o seu conteúdo, mas só a abriria no barco.

Entretanto chego ao rio que no seu estuário, em maré cheia, transmite o seu perfume a sal. O sal não tem odor, ou tem? Claro que sim! Cheira a azul; a azul e a verde. E entre as calmas águas eis que chega o Castelo. É sinal de que devo-me colocar a caminho. Embarco com destino à margem sul. Naquela resplandecente tarde, o barco leva as luzes interiores desnecessariamente acesas. Recordo as dificuldades orçamentais que as empresas públicas de transportes colectivos atravessam. Leva também o pavilhão a meia-haste. Sento-me e abro a carta. São boas notícias.

Na margem o helicóptero olha o rio. Indeciso entre ficar quedo ou respeitar a sua natureza inquieta e dar uso às suas hélices. Os mergulhões pousam nas bóias sinalizadoras e os guinchos esvoaçam rasantes à água, ambos parecendo fazer pirraça ao helicóptero que fica ainda mais nervoso. Os homens vão marcando posição nos baixios com o intuito de caçar o bivalve proibido. Mais à frente as gaivotas prevaricam a lei dos homens. Não sabem ler; não querem saber.

À medida que o autocarro faz o seu percurso pelo entardecer adentro, os óculos-de-sol deixam de fazer sentido. Guardo-os no estojo dentro da mala, como se de uma jóia se tratasse. E noto como é bom ainda restar alguma claridade nestes dias curtos (por definição).

6 de janeiro – sexta-feira

I

A rotina por vezes altera-se. Nesse aspecto esta semana útil que hoje termina foi atípica. Galguei o rio na viatura particular, que abandonei nos arrabaldes da capital, e tomei o metro. Exigência do dia que vai ser longo e que impossibilitará o regresso através dos transportes públicos. Por opção não o faria. Cada vez mais me convenço que as cidades não são feitas para os carros.

 

II

Havia umas horas a matar entre a saída do trabalho e o jantar marcado. Decidi fazer algo que há muito não fazia. Fui a uma matiné de cinema sozinho. Mas invés de ver um filme recebi um murro no estômago. Daqueles bem grandes que trazem a água ao olhar, ao mesmo tempo que nos expõe, desprotegidos, à realidade. E enquanto me deslocava de metro para o local combinado para o jantar, não conseguia deixar de pensar no Daniel Blake. Aqueles que quando são apelidados de pessimistas depressa se dizem realistas, é à figura de Ken Loach que estão a recorrer.

Depois de uma caminhada suficiente cheguei. Achei que era altura de me vestir novamente. Meu espírito já não aguentava a fria nudez do dia-a-dia, isto apesar do confortável calor que emanava do meu cachecol. É tramado quando a mente tem uma mente própria…

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III

A noite já ia avançada e para onde precisava de ir, só mesmo de táxi. Dá prazer passar fora de horas em certas zonas da cidade. O silêncio impera e a tranquilidade parece que nunca mudará. Sabemos que tal não é verdade, pois basta o dia ameaçar nascer para o corrupio iniciar. Mas, por enquanto, aprecio a fluidez daquela viagem. Eu que nem gosto de ser conduzido… Tive sorte, pois apanhei um motorista exemplar, simpático e com opiniões coerentes e não um daqueles estrangeiros que nem as ruas conhecem. Tem é um sotaque um pouco estranho. Pergunto-lhe de onde é natural. Ora do Brasil, claro. Ia jurar que o homem era açoriano. E decidi ficar calado o resto da corrida, não fosse dizer algo mais que me envergonhasse.

5 de Janeiro – quinta-feira

I

Ao sair de casa não percebo se as altas camadas da atmosfera tinham descido à terra ou se a superfície desta se tinha elevado. O certo é que dei por mim no meio de uma densa penumbra, enquanto me deslocava para apanhar a carreira, como se diz nestes lados. Ao longe detecto o barulho característico do camião do lixo. Aos poucos lá começo a vislumbrar a fluorescência das fardas que suportam a mecanização dos gestos. Secretamente ia ponderando quanto o trabalho daqueles homens e mulheres era imprescindível à nossa sociedade. Arrependi-me por não lhes ter dito isto de viva voz. O reconhecimento é subvalorizado. Bastava uma palavra de apreço ou um gesto revelador. Não o fiz. Escrevo agora ciente que não o substitui, mas sempre atenua um pouco a minha falha.

Pondero se sou um gajo perturbado, enquanto a senhora anuncia pelos altifalantes que existem perturbações na linha. Tendo esse tipo de caracterização em mente, qual o grau de perturbação que me assolaria? Seria uma perturbação fiável e constante como as perturbações do metro? Seria uma perturbação ocasional e ligeira de quando adormeço pela manhã e perco a hora? Ou seria apenas uma perturbação ligada às falhas e lacunas da rede metropolitana de transportes, claramente insuficiente?

Decido que este será um assunto a retomar, interrompido deste raciocínio pela voz da mesma senhora que anunciava agora que a circulação estava normalizada. Lancei um olhar ao tempo estimado para a chegada do próximo comboio, que se situava nos sete minutos e trinta segundos, quando a operação aquela hora concreta prevê um intervalo de quatro minutos e cinquenta e cinco segundos entre composições.

Tudo normalizado, numa padronização que nos tenta expurgar a reivindicação. Sentia-me demasiado inquisidor. Recordei que ainda não tinha comido nada. Culpei a fome por estes devaneios e fechei o caderno de notas.

 

II

Ao regressar veio-me à lembrança aquele pequeno anúncio afixado na vidraça do cais de embarque. O mesmo avisava que a partir deste mês as facturas comprovativas da compra dos passes para efeitos de IRS passariam a ser emitidas através de um portal digital. Lembrei-me da expressão: a internet das coisas… e questionei-me do numero de pessoas que pensa que coisa é essa da internet. Depois pensei no caso da minha mãe, também ela utilizadora dos transportes públicos em Lisboa. E se ela quisesse uma factura com o seu número de contribuinte para apresentar na declaração anual de impostos? É certo que um dos filhos poderia sempre solicitar a referida factura em seu nome. Mas falharia sempre um mês; ou dois; ou meia dúzia. E lá ficaria diluído o possível retorno fiscal, que pretende tão-somente mascarar o aumento de 1,5% que os títulos de transporte sofreram no início do ano.

Pelo sim pelo não, e antes que um esquecesse, já tinha solicitado no portal a primeira factura do ano. Homem prevenido vale por dois.

 

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III

Hoje sentei-me no metro. Havia lugares. Eram nove horas da noite e a malta devia estar toda a jantar. Mordomias de estar fora de horas fora de casa. Infelizmente por más razões. Ela encostou a cabeça no meu ombro desfrutando em pleno aqueles cinco minutos de ócio que nos estavam a ser proporcionados. Sussurrei-lhe baixinho ao ouvido: “anda, temos que sair; dormes quando chegarmos a casa”. Abriu os olhos em sinal de consentimento. Saímos da estação de braço dado e penetrámos na noite. Numa atmosfera sebastiânica que nos envolvia num constante sobressalto. Por momentos pareceu-nos ouvir o barulho de uma armadura. Mas depois percebemos que era a senhora que puxava as cordas do estendal, recolhendo a roupa. Mesmo assim acelerámos o passo. O seguro morreu de velho. 

4 de Janeiro – quarta-feira

I

Pela tonalidade do dia que nascia percebia-se que era Inverno. Mas tal não ficava explicito pela temperatura do ar, embora se sentisse a humidade. A mesma que tornava tão difícil a tarefa de passar o papel de mão em mão. Pegavam; colavam; permaneciam assim como quem os queria distribuir. Difícil era também lidar com a recusa não havia lógica em recusar aquele folheto. A mão no bolso que insistia em lá ficar ou a desculpa do smartphone em riste, que ocupa sempre ambas as mãos.

Entretanto, a senhora que se distraía ficava retida na sala de embarque e enfrentava agora mais meia hora de espera até ao próximo catamarã a levar a capital. “Lá se vai a consulta do médico” – parecia querer dizer, ao mesmo tempo que pedia encarecidamente ao funcionário que abrisse o portão e a deixasse passar. Esforço condenado ao fracasso, pois o barco já tinha recolhido as rampas de acesso. Também eu iria no próximo barco, mas provavelmente não nos cruzaríamos. De resto, hoje teria companhia no trajecto, o que encurta sempre a distâcia e o tempo entre margens. Pelo menos, assim apreendem os nossos sentidos. E o empirismo manda muito nestas coisas dos transportes públicos.

A despedida foi feita com um até já. Secretamente invejei o meu companheiro de viagem, pois iria recolher aos túneis enquanto ele continuaria à superfície, sob a luz natural; pelo menos por mais algum tempo. É certo que os túneis tornam tudo perto e rápido na capital, mas àquela hora o aperto e o calor são constantes, independentemente da estação do ano levam a pior. E todos mal-dizemos a rapidez, conforto e comodidade. Ironicamente, no sistema de som, o metropolitano de Lisboa deseja-me um ano repleto de boas viagens… Esbocei um sorriso sarcástico, ao mesmo tempo que era empurrado para dentro de carruagem.

 

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II

A promessa molhada do início do dia não se concretizou. O vento amainou e a tarde embora nublada fez-se amena. O papel voltou a passar de mão em mão e a voz da indignação e da reivindicação tomou o espaço público. Era forte, completa. E assertiva! Explicando claramente como havíamos chegado a esta situação e expondo pragmaticamente as medidas urgentes para nos arrancar da mesma. Travar a degradação e exigir garantias do cumprimento do estipulado. Nada tão simples e tão difícil de alcançar. Numa empresa pública de transportes desorçamentada, com trabalhadores desmotivados, que viu o seu modelo organizativo alterado sistematicamente e que conheceu inúmeras gestões nos últimos anos. Valha-nos a perseverança de alguns que se reúnem e amplificam o desagrado de todos os utentes. Os mesmos que compram um título de transporte. E que esperam, tão-somente, que esse titulo lhes reserve o direito de serem transportados dentro dos horários estabelecidos. Parece-me plausível…

3 de Janeiro – terça-feira

A madrugada chorava envergonhada perante a anunciada chegada de uma manhã cinzenta. As pessoas entravam, carneiras, no barco; sem grandes dúvidas ou hesitações, mas também sem grandes pressas ou alarido. Era uma típica terça-feira. Se é que tal existe ou faz sentido esse tipo de qualificação. No rosto das pessoas ou no ritmo das coisas não conseguimos dizer que era terça-feira, o dia que marca o início do meio da semana, mas que não é detentor de uma especificidade que o caracterize. Não tem a sonolência da segunda-feira, a excitação de sexta-feira ou a calmaria de um feriado ou fim-de-semana.IMG_20160924_021742.jpg

Embarquei resoluto que este seria o dia. Marcaria de uma vez por todas posição junto do director. Ciente do meu valor nada receava desse confronto, no que diz respeito ao conhecimento da normal actividade laboral. O que me deixava de pé atrás e com um sentimento ambivalente era a resposta polida e as eternas explicações do inexplicável, sempre acompanhadas de justificações do injustificável. A apresentação da estrutura hierárquica, a forma como se entrava se empresa e se subia na mesma, explicação das classes sociais. Tudo formas de defesa de um modelo que perpetua o interesse estabelecido e pouco se importa com o mérito, inovação e capacidade demonstrada por alguns. Principalmente quando esses alguns são espíritos críticos, que colocam sempre as questões em perspetiva e não executam acefalamente o que lhes é exigido.

Os lugares são limitados e os diversos patamares da escada social apenas são ampliados em ocasiões especiais ou em situações familiarmente/genealogicamente comprovadas. Ou então quando as pessoas se apresentam como aliadas deste modelo e disponíveis para pactuar com o mesmo, contribuindo com formas originais e criativas de exponenciar as desigualdades.

Depressa entendi que afinal este não seria o dia. Por mais resoluto que estivesse… As solicitações eram muitas. Com um novo ano vinha novo orçamento e um sem número de actividades que era urgente retomar. Do outro lado do telefone a recusa protocolar mantinha-se. Ficaria para nova oportunidade esta conversa prometida por mim mesmo e eternamente adiada. Sem data prevista, sem conhecimento do receptor.


II

No regresso o circuito mantém-se. As águas semi-agitadas do braço, tronco, veia, do estuário do rio embalam a embarcação rumo a Este. Coloquei os pés no pontão inspirei fundo o cheiro a lodo. Repeti a tarefa. E outra vez. O cheiro a lodo inebriava-me. Mas preferia mil vezes este odor à estranha atmosfera da grande metrópole. Com o jornal dobrado em quatro na mão direita e a sacola pendurada no ombro esquerdo lá vou eu. Com a satisfação do dia concluído e a sensação de dever cumprido. Pelo menos por hoje…

Amanhã é outro dia e é quarta-feira.

O Propósito

O princípio é simples: escrever enquanto me desloco em transportes públicos, durante o ano de 2017. Mas sem grandes ambições. Alinhavar, relatos, pensamentos ou devaneios de forma mais ou menos ordenados, sem um propósito premeditado. Assim será Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos. Um espaço de escrita despretensioso, sem grandes expectativas, que basta ao próprio autor. As actualizações podem ser algo irregulares; sujeitas ao tempo disponível. Se alguém quiser embarcar nesta loucura, que seja bem-vindo, mas não espere bombásticas revelações ou textos de elevada qualidade literária. Fica o aviso à navegação.

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