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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

20 de Janeiro – sexta-feira

I

O despertador volta a ser derrotado pela minha ânsia de acordar; de viver. É a segunda vez esta semana… Mas desta vez deixo-me ficar mais uns minutos a contemplar a escuridão, até os meus olhos se habituarem e começarem a vislumbrar sombras e contornos, mercê da claridade gerada pela iluminação pública que se infiltra nos buraquinhos dos estores.

Na rua, os carros parecem ter recebido um acabamento em verniz, que os faz brilhar muito. Tiro um dedo do bolso, para verificar a espessura da camada de gelo. Na realidade tiro a mão toda mas mantenho o punho cerrado apenas com o indicador esticado. Ainda é uma espessura considerável (e fria). Enquanto espero o atrasado autocarro equaciono se também eu ali especado poderia ficar coberto desta película brilhante. Teria certamente de aprender com os carros, que embora sejam feitos para andar, desenvolveram uma técnica que os permite ficar imóveis. O som denuncia a chegada do autocarro. A mulher franzina, eu e o homem de bigode entramos nas suas aquecidas entranhas.

Por momentos penso como seria engraçado que também o barco estivesse coberto de gelo e brilhasse sob a ténue iluminação. Num quadro diferente e original. Mas, infelizmente, a realidade não acompanha a minha imaginação, Segue seguro na sua banalidade. A linha do horizonte é pintalgada pelas pequenas luzes. Aos poucos, as mesmas começam a definir os contornos da cidade, que acorda para a sua azáfama matinal. No meio da plataforma do metro, o pombo parece perdido. Entre fintas e simulações, lá se vai esgueirando aos passos humanos, cegos na pressa e assertividade. Esquadrinha o pavimento na procura incessante de mais uma migalha. Hoje o painel não avisa perturbações e o pombo parece apostado nisso para passar uma manhã tranquila naquela estação.

Entro na carruagem estranhando o vazio do seu interior. “Indeciso-me” na escolha do lugar, tamanha é a oferta. Sento-me no meio, no sentido da marcha. De frente para mim, mas na ponta da carruagem, senta-se um homem cego. Entretido com o som qua saia dos seus auriculares não percebeu no cartão multibanco que lhe caia do bolso. Aproximei-me e toquei-lhe no braço. Ele sobressaltou-se. Apanhei o cartão enquanto lhe dizia que o tinha deixado cair e conduzi-o à sua mão. Agradecido tocou-me na mão e por momentos foi como se os seus olhos ganhassem vida. Só me saiu um “não tem de quê” da boca para fora e recolhi-me novamente ao meu lugar. Quando me sentava recordei a promessa do dia transacto, de sair na estação anterior ao meu destino. Tarde demais; o meu preguiçoso subconsciente levou a melhor. Para castigo o tapete rolante não estava em funcionamento. O karma é uma cabra.

IMG_20170227_092034_987.jpg

 

II

Ao sair do metro sinto o cheiro inconfundível de sexta-feira à tarde. Ou é isso, ou é o odor a castanhas assadas. A minha memória olfactiva por vezes prega-me esta partida. Talvez por serem dois aromas muito caros para mim. Deparo-me com o carrinho do vendedor ambulante. Não restam dúvida. São sextas-feiras à tarde, quentes e boas que ele está vender. É difícil resistir. Compro uma dúzia, que vêm dentro de um pacote onde se guardam os bolos: Protesto veementemente. Aquilo é bom é embrulhadas em cartuchos feitos de folhas de jornais ou de páginas amarelas. Nunca tinha ouvido falar de reutilização? Que sim, dizia o vendedor. Mas a ASAE obrigava o homem a condicionar as sextas-feiras à tarde daquela maneira. Lá paguei contrariado, mas avisando de antemão que era meçlhor não apanhar nenhum feriado misturado com os fins-de-semana, ao descascar as sextas-feiras à tarde… Estavam no ponto. Estaladiças e com a casca a soltar-se com naturalidade, deixando um apetecível fim-de-semana à vista. Que bom é saborear aquele acepipe, num fim de tarde de sol invernal, sentado no paredão a ver o Tejo a passar.

Dentro das águas do estuário a japónica ri-se satisfeita. A maré vai alta e, por enquanto, a invasora está a salvo… Mas não por muito tempo. Pela margem sul os homens com traje de surfista estão a aguardar pacientemente a sua oportunidade, escondidos da GNR por trás dos arbustos.

À saída do cais uma bonita menina oferece-me uma flor, com um cartão preso. Distraído, penso que ainda não perdi o charme. Quando olho melhor par o cartão vejo que o mesmo leva o nome da loja de flores que acabou de abrir naquele espaço. Lá se esfumou a minha ilusão. Bem, ao menos a minha esposa adora flores, coisa que sempre esqueço, e isto pode render uns pontos lá em casa. Já agora deixa cá rasgar o cartão.

Nas voltas e revoltas da carreira tenho uma companhia na viagem, pelo menos até meio caminho. As nossas conversas são sempre interessantes e desta vez centram-se no tema das bases de dados e na privacidade para os cidadãos. Assunto a retomar, pois fomos interrompidos pela paragem onde a moça se costuma apear.



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