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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

2 de Fevereiro – quinta-feira

I

Já vou preparado quando subo ao autocarro. Numa mão o passe social já com o mês de viagens carregado, na outra a quantia certa para pagar a dívida contraída com o motorista da carreira. Por momentos pensei que poderia não ser o mesmo, naquele secreto e estranho desejo de manter aqueles trocos por mais uns tempos do meu lado, sem ninguém saber que na realidade não eram já meus. Depressa se apagou essa sovinice da minha consciência, ao ser recebido pelo mesmo rosto redondo e mãos confiantes, que sempre me conduzem com perícia e engenho ao cais de embarque.

O veículo caía de podre. Ressoava barulho de todas as juntas. Nem o moderníssimo monitor informativo funcionava. Apagava-se a cada ressalto da estrada, parecendo estar sintonizado no canal da mancha. Bem, antes isso que no Canal Caveira, essa estação pirata. Embora se coma lá muito bem.

Imaginei se este poderia ser o sítio inicial para uma nova revolução. Uma revolução que colocasse o género humano como factor principal e cerne da questão. E não o Manuel Germano, como tanto gostam de dizer os habitantes do Beco das Sardinheiras. Mas, desta vez seria a sério. Questiono-me se aquele barco poderia ser o veículo da revolução, qual chaimite dos mares, desviando eu o rumo do mesmo para Canal Caveira. Depois lembro-me que a localidade não fica no litoral, nem perto de rios navegáveis. Eles que comecem a revolução sem mim, que eu apanho a próxima…

Já no metro besunto-me de vaselina, no sentido de me fazer escorregar para o interior de uma das carruagens prestes a deixar o cais. Lá consigo, com algum custo, concretizar o meu intento, com a firme convicção que seria a última pessoa neste particular. Engano meu. Já se ouvia o silvo tripartido que anuncia o fecho de portas, quando um indivíduo, à bruta e de costas, forçou toda uma muralha humana até à beira da derrocada. A porta lá fecha a custo, depois de vencer a resistência da proeminente barriga do bruto.

Entretanto alguém decide partilhar as suas flatulências com os restantes passageiros, como que acrescentando uma quarta dimensão àquela viagem – a dimensão olfactiva. Escusado será dizer que não fui eu. Se fosse não abordaria com certeza o assunto. A malta agradece aquele nauseabundo momento, digno dos piores registos cinematográficos de Eddie Murphy.

A mim ninguém me tira a ideia de que foi o bruto que ficou com a barriga espalmada que se viu obrigado a soltar o gás…

II

A precursão com motivos industriais, ao som da qual o cego solicitava a caridade alheia, aproximava-se. Era uma forma diferente de pedir. Era também uma forma diferente de interagir com os passageiros do metro. Quando as moedas caiam na lata em ritmo constante tudo corria pelo melhor e a musicalidade invadia a carruagem. Já quando julgava que os seus objectivos não teriam sido alcançados, uma animosidade sentia-se no ar e o vernáculo por vezes tomava forma.

Naquela tarde, o rio corria à velocidade de Bolt. E o vento tentava acompanhar, mas ainda não chegara a esse patamar. Uma onda tresmalhada quis sair do rebanho e quase me apanhou distraído. Na realidade apanhou-me mesmo distraído, mas ainda assim estava distante o suficiente para não acabar com os sapatos ensopados. Mesmo assim, tudo parecia mais calmo do que tinham anunciado. Então quando o barco entra no braço de rio, zona mais protegida, a calmaria é total e o vento quase inexistente. Perante semelhante conjuntura, associada a um cenário de preia-mar, a faixa ribeirinha estava bastante composta de pescadores que lançavam a sua cana à sorte, talvez mais por desporto do que por uma questão de sobrevivência. Nunca consegui perceber porque se fala em “lançar a cana”, se esta é precisamente o objecto que fica na posse do pescador; mas enfim…

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Questiono-me se o peixe recolhido daquelas águas será indicado para consumo. Não sei se arriscaria.

O cão espeta o focinho entre as grades da vedação. Mais incitando o convívio do que numa postura intimidatória. Tinha uma expressão simpática e carente o que faz com que, se me aperceber, aproximasse a mão da sua cabeça. O latido instantâneo, curto e grave, foi tão inesperado que saltei de imediato para além do passeio, ao mesmo tempo que abanava fortemente a mão, apenas para garantir que esta estava ainda presa ao meu braço. Há uma lição a retirar disto, mas eu não sou dado a moralismos.

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