Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

19 de Janeiro – quinta-feira

I

Ao sair do prédio sou vítima do famigerado choque térmico. O meliante apanha-me desprevenido e aplica-me um par de estalos exemplar que me gela as bochechas. À medida que percorria a distância até à paragem sinto os lábios colarem, num narcísico beijo. Nem consigo articular o bom da usual ao motorista. Dentro do veículo reparo na chauffage reforçada que depressa me aquece o corpo. “Tartarugo-me” no casacão, como se duma carapaça se tratasse, encosto a cabeça e dou largas à preguiça matutina.

Que bem que soube este trajecto em tremelicado sono. Quando o autocarro abre a porta traseira sinto imediatamente o desconforto de ter de sair. A estrutura metálica, crua e impessoal abre-se para receber os passageiros no seu frio regaço. Para ter ali um edifício digno para receber os utilizadores da ligação fluvial, só havia uma hipótese: construir um novo terminal de raiz. Nunca esquecendo que por ser um edifício isolado à beira rio plantado deve.se ter em especial atenção o tipo de material utilizado. Um edifício metálico implica uma transferência térmica brutal, estando assim vulnerável às temperaturas extremas: Quando está muito frio ou muito calor, essa realidade é amplificada no seu interior.

Fico sempre fascinado peça quantidade de pessoas que cabem nas 3 exíguas carruagens da linha verde do metro. Abrem-se as portas e entram de rompante, embora ordeiramente. Num movimento perpétuo que se assemelha à hora de ponta num formigueiro. Entretanto, no painel informativo passa a mensagem que a linha azul está perturbada. E eu não consigo deixar de pensar no dia em que a perturbação se torne de tal forma que a linha se veja obrigada a colocar baixa médica e ficar em casa.

A senhora invisual pergunta-me quanto tempo de espera é estimado. E esse é o ponto de partida para uma amena conversa de 3’ e 40” que aquece sempre a alma. Os assuntos do frio e da fraca qualidade dos transportes públicos são incontornáveis e são sempre denominadores comuns. A senhora é exímia na arte da conversa de ocasião e o tempo flui enquanto o metro não chega. Acabamos por não ter problema maior nesta ligação e despedimo-nos com um bom dia, que é sempre optimista e esperançoso. No entanto, para a senhora o dia não começa lá muito de feição, ao esbarrar com um senhor, também ele invisual, que saía da carruagem. Nada de grave; talvez um galo na testa e pouco mais. O cão-guia não podia prever tal cenário. Quais seriam as probabilidades?

Depressa me cruzo com nova perturbação, desta vez amarela. O tempo estimado está congelado no minuto, mas a espera prolonga-se. Menos mau. No outro oposto, o tempo de espera indica 26’ e 40”. Passados cerca de 10 minutos lá chega o metro. Salto para o mesmo e tudo parece correr bem. Até que a uma paragem, do meu destino final o comboio pára por um largo período. O anúncio tardio informa que a circulação se encontra interrompida e que esperam retomar dentro de momentos. Ainda ontem ouvia através da rádio o ministro anunciar que os utentes do metro passariam já a sentir as melhorias, fruto da entra em funcionamento de duas composições. Provavelmente devem ter avariado 4 ou 5 ao mesmo tempo… Agradeço a oportunidade proporcionada para estrear a nova e alargada calçada. O espaço parece duplicado e permite a fluidez do tráfego pedonal sem os constrangimentos do passado. Mesmo com o frio, a coisa vai, acelerando o passo. Doravante, pela manhã, sairei sempre na estação anterior. Vejamos se amanhã me recordo desta promessa.

IMG_20161231_160029_111.jpg

 

II

O rapaz tocava viola na rua. Ágil na escala e no dedilhar. Perante aquele quadro sentia-me duplamente surpreendido. Primeiro pela sua coragem para contar o espetáculo no meio da massa polar árctica. Depois, por perceber que, nota após nota, seus dedos se mantinham inteiros. Não consegui ficar. Não demonstrei o mesmo grau de resistência e retirei-me para a sala de embarque.

Quando entrava deparei-me com um anúncio de cruzeiros no Tejo, destinado aos turistas estrangeiros, pois estava escrito em inglês. O mesmo declarava que pelo preço de €35,00 o turista poderia experienciar um passeio de cacilheiro por um período de duas horas. Se alguém diz aos “camones” que com esse valor tiram o passe mensal e podem andar as horas que quiserem de cacilheiro no Tejo, rebentam com o negócio desta firma.

Ao sentar-me no barco lembrei-me que pela manhã recebi um SMS do meu filho a avisar eu me tinha esquecido das chaves… No caso de não estra ninguém em casa, aquilo ia-me valer uma valente seca. Para me distrair e tentar esquecer isso esfregava com o indicador o ecrã do telemóvel. Ora deixa cá ver o que se passou enquanto trabalhava.

Em fundo o Seixalinho ameaça tornar-se Seixalão. Chega de diversão. Arrumo o telemóvel no bolso e desço a escadas. Enquanto marcho entre o barco e o autocarro vem-me à memória a notícia domingueira que anunciava que a atleta portuguesa Inês Henriques tinha batido o recorde do mundo dos 50 km marcha: Seria de esperar que semelhante feito tivesse honras de abertura de noticiário televisivo. Ao invés foi relegada para última informação da secção desportiva, depois de ter sido escalpelizado tudo o que estava relacionado com o mundo do futebol. E assim marcha o desporto no nosso cantinho…

Mais sobre mim

imagem de perfil

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D