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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

18 de Janeiro – quarta-feira

I

As insónias levaram a melhor. Depois de algumas voltas na cama cheguei à conclusão que não conseguia dormir mais. Sentia aquele espaço incompleto. Ela já abalara e o desconforto tomara o seu lugar. Preparei-me e saí de casa. Como não tinha a certeza se havia autocarro àquela hora decidi levar o carro até ao cais, para apanhar o barco das 6 da manhã. A consulta do site da empresa de autocarros nunca é 100% fiável... Pelo caminho tomo conhecimento que efectivamente existem carreiras madrugadoras; tenho de me informar melhor sobre isso.

Quando chego à beira-rio a estrutura que apoia e dá acesso ao cais está ainda encerrada. O vento gélido corta. Meia dúzia de pessoas, travadas pelo portão de ferro, saltitam de um pé para o outro na tentativa de iludir o frio. Inconscientemente tento perceber se ainda sou detentor da ponta do meu nariz. Bem lhe toco (acho eu), mas continuo sem ter a certeza. Isso recorda-me a brincadeira usual que temos com as crianças. Quando fazemos uma espécie de alicate com o dedo indicador e o dedo médio e levamos ao nariz do petiz, simulando o movimento de quem o está a arrancar. Após entremeamos os dedos com o polegar, exibimos uma figa e dizemos: “tenho o teu nariz”. E rimos muito quando o pequeno ingenuamente leva a mão ao nariz para confirmar a ilusão.

O vento varria o estuário, cujas águas açoitavam o casco do catamarã. Este avançava incoerente, entre sobressaltos e incertezas. Com rumo traçado, mas ainda a tentar entender como chegar. No fundo, o mesmo nos acontece na nossa vida. Sabemos onde queremos chegar e tá visualizamos o nosso objectivo. Mas, não raras vezes, tropeçamos nos próprios passos que visam conduzir-nos à meta.

Hoje é reconfortante andar de metro. O calor emanado é um convite irrecusável. Além disso, àquela hora não há enchentes e o fenómeno indústria conserveira demorará certamente uma hora para ter o seu início. Sou alertado para a correspondência. Por uma vez desejo permanecer sentado e aconchegado dentro daquela carruagem. Que bem que estava a saber. E o sentimento parece alastrar-se aos restantes companheiros de viagem, que a custo lá saem para as suas correspondências.IMG_20170101_125846_799.jpg

Essa analogia faz-me lembrar daquela velha consideração: na vida estamos todos em trânsito. No entanto, algumas pessoas viram-se obrigadas a estacionar nas estações do metro, que permanecerão abertas nas próximas noites, em virtude das temperaturas excessivamente baixas. Pensar que em pleno século XXI ainda nos deparamos com semelhantes situações gela-me o coração.

 

II

O reflexo do sol nas águas do Tejo ofusca-me a visão. Tenho os óculos escuros na sacola, mas não pretendo evitar este fenómeno. Tiro ates a sandes. Não para tapar o sol me encandeia. É tão maravilhosa a luz do dia invernal no estuário. Essa é uma das coisas que nunca me fartarão: a luminosidade dos dias de inverno.

Durante o dia de hoje aprendi algo. Melhor, refiz a noção que tinha como verdadeira. Toda a vida estive convencido que a expressão “Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo” era da autoria de Fernando Pessoa. Nunca reflecti muito sobre isso. Fernando Pessoa e sus muchachos escreveram muita coisa. E alguma de qualidade duvidosa (como seria este caso). Portanto era algo que dava como adquirido. Até porque para esmiuçar toda a poesia de Pessoa era coisa para demorar.

Ontem desafiaram este meu conceito, afirmando que na realidade estas 3 frases faziam parte de um poema de Augusto Cury. Como é lógico o meu mundo abanou. Não podia ser! Mas sim, fazia sentido a lenga-lenga. O poema em questão foi intitulado “Ser Feliz”. Apresentava coerência e o final rematava com a tal citação.

Decidi investigar um pouco mais e cheguei à origem deste enigma. Na realidade, a expressão das pedras e do castelo é da autoria de um blogger brasileiro que se apresenta como Nemo Nox. Presumo que esta escolha discutível de nickname possa ser a justificação para que alterassem a autoria. Alguém decidiu juntar isso a um excerto da obra “Dez leis para ser feliz” de Augusto Cury e apresentar este resultado como um poema, ora deste autor, ora de Fernando Pessoa. Quem foi o responsável pela criação deste mito urbano é mistério. Mas eu tenho para mim que o culpado foi o mordomo.

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