Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

16 de Janeiro – segunda-feira

IMG_20170114_200958_660.jpg

I

Na rotunda onde as portas estão abertas, também está aberto o capô do carro imobilizado na berma. O homem de mãos nos bolsos observa outro debruçado sobre a mecânica do carro. O seu conhecimento profundo da mesma baseava-se em puxar cabos e verificar se as tampas estavam bem fechadas. Um terceiro homem, dentro do carro, ia dando à chave a compasso, mais por descargo de consciência do que na certeza que iria funcionar. Era tramado começar a semana daquela maneira, pensava do alto do autocarro que me transportava e me aquecia as pernas e preparava-se para fazer o mesmo à ponta do nariz. Ironicamente, Márcia dissertava acerca do Bom Destino na altura em que me cruzava com semelhante cena. O que me lembrava também do fim-de-semana. Na qual a pequena companhia de teatro, melhor colectivo cultural, Mascarenhas-Martins, completara o seu 1.º aniversário de existência. E eu reconhecia naqueles jovens a capacidade extrema de serem também o veículo dos meus sonhos para além dos seus.

Não podia deixar de desejar, com muita força, que em breve muitos dos residentes que querem construir uma terra de cultura poderiam vir a trabalhar em conjunto. Formando rede de contactos, de trabalho de projectos. Escancarando a porta às artes. Criar o hábito de consumo cultural por parte da população. Aguçar o espírito crítico e a exigência. No dia em que as pessoas passarem a demandar produção artística, o objectivo foi alcançado. Acredito que será possível neste cidade e que será possível neste concelho. “Dizem que os bons não nascem por acaso / Tens tanto a fazer”. É isso também que eu penso sobre este colectivo cultural, bem como de tantos outros que pululam por esta cidade.

Os corpos encaixam-se rapidamente na verde linha do Metro, sempre deficitária àquela fresca hora. Sem reclamações de monta, as pessoas deixam-se levar, sem oferecer resistência. O relógio regista 30 minutos após as 7 da manhã. E eu penso que aquilo ainda vai apertar bastante com o avançar da manhã. Mas denoto que complacência das pessoas significa também um maior civismo e respeito pelo outro. Aguarda-se agora que as pessoas saíam da carruagem para depois entrar. Pelo menos na grande maioria das estações, havendo sempre excepções onde o bom senso ainda não impera. Lá chegará o progresso...

No local que não sabe bem se é Baixa ou se é Chiado, o saco estava abandonado no assento corrido. Questionei se seria de alguém em meu redor. Não era. Pensei ir entregar o mesmo ao funcionário ou segurança. Mas já não há ninguém nas plataformas. Podia levá-lo comigo, mas no meio desta indecisão chega o metro e acabo por deixar lá o citado objecto. Quando sair falo com um funcionário do guichet. Assim o fiz, mal cheguei ao meu destino. A simpatia atendeu-me do outro lado do vidro, agradeceu a informação e imediatamente colocou-se no rádio para reportar a ocorrência. E eu lá ia, na esperança de que o saco pudesse encontrar o caminho de volta para o seu dono ou a sua dona.

II

Era grande o rebuliço na rua frente à estação. Equipas de filmagens e seus veículos ocupavam estacionamentos e passeios. Os trabalhadores corriam de um lado para o outro com telemóveis na mão, numa azáfama acima do normal para aquela transversal. Passei de soslaio sem ligar importância. Apenas a necessária para não tropeçar nos cabos estendidos pelo passeio. Mas meditava no circo montado e nos enormes recursos mobilizados, para depois tudo se resumir a meia dúzia de minutos de filmagem. O comum dos mortais não tem noção do numero de pessoas envolvidas numa simples cena. Muito para além dos actores e do realizador existem um sem número de artistas e técnicos envolvidos. A cena pode estar a ser preparada durante meses e nós espectadores, nunca teremos essa noção.

A superfície do rio esta tarde parece veludo azul. Quase que apostava que se poderia apalpar e sentir, numa doce e reconfortante textura. Perderia. E o bando de gaivotas amontoadas no estreito banco de areia ririam muito quando ficasse com a manga do casaco ensopada.



Mais sobre mim

imagem de perfil

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D