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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

16 de Fevereiro – Quinta-feira

I

À medida que me aproximo do cais relembro os barcos panorâmicos. Uma coisa supimpa. O último grito. O turista merece o melhor. E não só de ligação fluvial vive agora a margem Sul. Um túnel, uma ponte, uma ligação pedonal e ciclável. E autocarros que não pareçam desmontar-se a cada metro percorrido. Tudo à mão de semear, numa brutal oferta de mobilidade.

Esquecido naquele mar de palha, nome pomposo para um mero recorte no estuário, durante tanto tempo, o utente de transportes públicos vê-se agora catapultado para a meta das acessibilidades, pontificada com transportes modernos, regulares e confortáveis. Era a recompensa devida. O mínimo que se podia fazer pela imposição de partilhar a sua geografia com um aeroporto complementar para aviação civil. E no fundo ninguém ali teria de se preocupar; a aproximação à pista ou descolagem será feita pelo rio. Como se os 3 quilómetros de rio que ali dista entre margens fossem significativos em termos de aviação civil e como se as populações de outras localidades que veriam os aviões sobre as suas cabeças merecessem menos importância.

O flamingo é interrompido pelo jornalista de ocasião, que somente agora descobriu o “deserto”. Que pensa disto? Parece perguntar. O flamingo lembra que desde a ponte deixou de migrar. Agora com o aeroporto provavelmente deixará de voar. E se se confirmarem os barcos panorâmicos não sairá de casa, pois detesta a exposição pública. No entanto, entende a decisão política ou não fosse ela da mesma cor… O restante passaredo já não partilha desta opinião e muito menos da subserviência. Piam e grasnam injúrias para com os decisores de semelhante medida, que extinguirá o seu tradicional modo de vida e os expulsará do espaço aéreo, onde se sentem bem. No entretanto, os patos bravos esfregam as penas na profunda avareza que os caracteriza, já a pensar no proveito próprio que podem tirar daquele novo panorama, pouco lhes importando o impacto que tal medida pode ter no território. Assim é o quotidiano, num país de aves raras.

II

IMG_20170105_210515_447.jpgÀs vezes gosto de locomover-me na linha azul do metro e passar na estação Jardim Zoológico, só naquela de perceber se entraria uma chusma de biodiversidade pelas carruagens adentro. Assim tipo Madagáscar, mas a valer. Era tão porreiro! Ter uma espécie de reserva ecológica subterrânea, muito fora do circuito comercial. 

Quando me sentei no barco preparava-me para escrever sobre algo que já não me lembro. Nessa altura a caneta falhou. Olhei a esferográfica na sua transparência e reparei que já não tinha tinta… Recordei que ao iniciar esta aventura literária chamada Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos, precisamente no primeiro dia em que comecei a escrever, encontrei a esferográfica que agora perece, numa carruagem do metro. Desde aí até agora foi minha confidente de realidade, ficções e pós-realidades e surrealismos. É com uma certa mágoa que vejo que a nossa relação já não tem futuro. Ficarão saudades e as inúmeras linhas registadas, como testemunho para a posteridade.

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