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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

15 de Fevereiro – quarta-feira

I

Ontem dizem que foi dia dos namorados. A minha esposa diz que não ando nada romântico. Tem razão. Sou utente de transportes públicos e grosso modo demoro hora e meia a duas horas em cada movimento pendular. A minha noção de romance, neste momento é fazer conchinha vertical na linha verde do Metro. Como tal decidimos ir jantar fora na noite de S. Valentim. Nada mais romântico, certo? Errado! Primeiro porque temos de arrastar connosco o adolescente que deambula lá por casa e que jura a pé juntos que é nosso filho, mesmo que a maior parte das vezes nem se dê pela sua presença. Segundo, porque os restaurantes estão sempre cheios e com ou sem reserva temos de conviver com aquela atmosfera densa e cheia de romance de circunstância. Terceiro, porque é a altura ideal para enfiar grandes barretes. Neste aspecto o presente ano não defraudou expectativas e manteve a coerência na desilusão.

Os restaurantes estavam cheios e sem saber muito bem que cassa de pasto escolher acabámos por optar por um local que já tínhamos ouvido falar, de nome Tratoria da Pippo. Já não levava um barrete daquela dimensão há algum tempo. Fomos recebidos por uma senhora cujas unhas quase me vazaram uma vista, que com o sorriso mais plástico possível nos indicou uma mesa. O espaço é visualmente agradável, sem dúvida. E até estávamos satisfeitos por conhecer aquele cantinho. Depois de efectuarmos as nossas escolhas começou a espera… mais de uma hora para o serviço. Depois disso o desconsolo baixou sobre nós. É verdade que a pizza do puto parecia aceitável. Agora a carbonara da minha cara-metade estava afogada em natas (nem valerá a pena mencionar que a receita de carbonara italiana original não leva natas; essa é a aldrabice que fazemos lá por casa) e o meu molho de tomate sabia a ketchup com “vegetais” de conserva plantados. Resultado, dois pratos de pasta extremamente enjoativos e que, apesar da fome, apenas forma consumidos pela metade. Mas ao que parece nem fomos muito maltratados. Um senhor queixava-se que tinha esperado duas horas pela comida e agora até para pagar estava há mais de 20 minutos ali…

Se fosse crítico gastronómico, invés de estrelas dava àquele restaurante um buraco negro. A evitar de futuro (nota mental).

II

Enquanto regressava sonhava com os novos catamarãs. Panorâmicos e de alta velocidade. E um cais renovado, que bom! Tudo com os cumprimentos do Complementar. Tudo para receber os turistas. Mas rapidamente passei da satisfação à indignação. Dias, semanas, anos décadas, em que os utentes do transporte fluvial se sujeitam a um péssimo serviço; com condições decadentes e que se continuam a degradar; sem terem um espaço condigno para permanecer até ao embarque. Agora tudo seria resolvido graças ao aeroporto complementar.

Não me levem a mal, nada me move contra os turistas, que chegarão. No fundo são utentes aerotransportados. O que me indigna é que os utentes de todos os dias dos transportes públicos não possam ter, só por si, o mesmo tipo de atenção.

Depois lembro o “Metro atrasado, namoro adiado” e penso que com o aeroporto complementar o sossego vai acabar e que o futuro está-se a adiar. É uma perspectiva que em nada me cativa, mas ainda muita água vais passar por este rio ou não fosse este o maior estuário da Europa e uma das suas 10 zonas húmidas mais importantes. Que bom termos espaços deste calibre para estragar.

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