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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

14 de Fevereiro – terça-feira

I

Ainda faltavam dois minutos para a hora da carreira e o autocarro passa por mim. Talvez estivesse a 10/15 metros da paragem inicial, mas, por via das dúvidas, corri para que também aquele não se antecipasse à minha rotina. Posso dizer que o dia começou à pressa.

Na paragem do costume entram as duas senhoras do costume. Seus cortes de cabelo, como acontece tanta vez em senhoras de idade amigas, equivaliam-se e as tonalidades de louro reinavam, num claro esforço para tapar os brancos que iam ganhando terreno. Sempre me fez confusão que uma dessas mulheres, apesar de exibir claras dificuldades de mobilidade e equilíbrio, é sempre a última a entrar para o autocarro. Primeiro entra a mulher que não aparenta ter qualquer problema na locomoção, que fica de pé, junto de um par de bancos, à espera da amiga. Essa, a custo, lá vai vencendo as filas de assentos, até chegar ao destino; os bancos mesmo antes da porta de saída. E senta-se sempre no lugar da janela. Essa parte tem lógica, pois a senhora com marcha normal sai sempre a meio do percurso. Até por essa razão faria sentido que a pessoa que evidencia alguma dificuldade em caminhar seria a que, obviamente, deveria entrar primeiro. Legalmente parece-me que agora tal é exigido. Além de ser, a meu ver, a forma correcta de agir. Se esta senhora chega sempre em segundo lugar à paragem ou se é ela própria que prefere entrar por último, é algo que ignoro. Mas que sempre me fez confusão este procedimento, isso sem dúvida.

IMG_20170218_171855_385.jpgÉ engraçado reparar que quando a linha amarela cruza a vermelha existe um grande intercâmbio de passageiros. E denota-se que essa troca é também etária. Normalmente, o comboio apeia pessoas de mais idade e carrega passageiros mais jovens. Isso faz-me sentir jovem por ficar por cá mais duas estações, mas velho quando avalio a população da composição. É também destas ambiguidades que se faz a nossa vivência.

II

Visto do alto do catamarã, o barco do pescador parecia uma frágil casca de noz. A débil ondulação sacudia o mesmo como se duma intempérie se tratasse. Por seu lado, o catamarã avançava resoluto, sem o mínimo balanço. Nesse momento veio à memória um pequeno grande livro de Ernest Hemingway – “O Velho e o Mar”. E imaginei que também aquele pescador estaria numa jornada para apanhar um mítico peixe, de dimensões paquidérmicas. Andaria dias, semanas, meses, à deriva. Na persecução do objectivo de uma vida, que alcançaria. Mas no final, extenuado e vitorioso, deixaria o seu troféu sobreviver, para que outro alguém pudesse passar pelo mesmo, e somente ele teria conhecimento do enorme feito que teria levado a cabo. Bastava-se. No entanto, ao chegar a terra relataria o seu trabalho, qual Hércules da modernidade. Ninguém acreditaria em si. E isto serviria para continuar a alimentar o estereótipo de que os pescadores são todos uns aldrabões.

Ao entrar no autocarro confirmo a minha suspeita de outro dia. Decididamente, não existem dois veículos iguais a efectuar as carreiras urbanas do Montijo. E cada carroça é pior que a outra.

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