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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

13 de Janeiro – sexta-feira

I

Ainda meio a dormir desloco-me em modo automático para a paragem de autocarros. Sei que devo estar a andar, mas não sinto as pernas mexerem. Chego ao destino minutos antes da passagem da carreira. Saco do telemóvel para saber as horas e verificar de forma fugaz o que se tinha passado enquanto dormia, o que parecia incluir ainda o momento presente…

Ao fundo ouviu-se o roncar característico do motor do autocarro. Em cima da hora, desta vez. Meto a mão ao bolso do lado direito, onde o passe tem lugar cativo. Assusto-me ao sentir o vazio. Agito-me e procuro nos restantes bolsos. Abro e fecho a mala em sinal de genuína preocupação. É impressionante como certas situações têm o condão de fazer passar tudo. Naquele momento despertei; já não sentia sono, só horror perante a hipotética necessidade de voltar a ter que tirar o passe. Todas aquelas formalidades e burocracias que desdenho (e das quais ironicamente faço parte, a uma outra escala). O pânico começava a apoderar-se de mim. Esbofeteio-me mentalmente. Dei início ao habitual exercício de reverter os passos, para tentar chegar ao paradeiro do passe. Ao mesmo tempo dei sinal ao motorista que já se impacientava para seguir caminho.

O percurso inverso foi mais lento, sempre a olhar para o chão, perscrutando cada cm2. Bem, se ontem tinha chegado a casa ainda tinha o passe quando apanhei a carreira. Continuava a revirar os bolsos na secreta esperança que um passo de mágica fizesse aparecer o passe. Na noite anterior tinha utilizado o automóvel. Fui lá tentar procurar, iluminado pela fraca luz interior do veículo e pelo telemóvel. Nada. Voltei a casa. Vasculhei o chão, despejei o conteúdo da sacola, esvaziei os bolsos, despi o casaco e virei-o do avesso e ao contrário. Nada; nada. Até ao caixote do lixo deitei olho. Nada; nada; nada. Resignei-me; peguei nas chaves do carros, já resolvido que o trajecto hoje seria diferente. Raios parta as sextas-feira 13.

Enquanto descia no elevador prensava porque raio dizíamos sempre chaves de carro, ou seja, no plural, quando na maior parte dos casos, como no meu, se trata apenas de uma chave? Inseri-a na ignição e rodei-a. O carro começou a tossir de imediato. Engrenei a mudança e preparava-me para remover o travão-de-mão. Não conseguia. Alguma coisa o prendia. Verifiquei melhor. Ora porra, pá! Onde raio se tinha ido enfiar o cabrão do passe. Sondei o relógio. Se fosse de carro até ao terminal fluvial, ainda conseguia apanhar o barco habitual. Acabou por correr tudo bem.

IMG_20161226_092319.jpgO periódico anunciava que depois de mais um assalto à caixa multibanco, o banco tinha decidido não voltar a colocá-la e encarava seriamente a possibilidade de fechar a única dependência na freguesia. Que justiça pode existir quando encarreiramos pessoas para a dependência total do sistema bancário e depois se fecham as portas necessárias ao seu acesso? Não há dependência para a dependência. E por muito que os solavancos do barco se fizessem sentir não sacudia de mim este pensamento.

II

À medida que a margem esquerda do rio crescia tomava forma a pista de aviação. Imaginava como seria fazer a travessia de barco com aviões civis a fazerem-se à pista. Uns valentes cagaços valeriam aos passageiros, com certeza. Ou então deixam de existir barcos... Se calhar fariam um nova ponte. Seria uma ponte aérea? Toda esta confusão com a aviação civil da capital já me agastava. E não tinha ponta por onde pegar. O país parece ir novamente cair nos erros de planeamento e ordenamento do território. Além da visão estratégica ser zero. Cada vez mais achava pertinente formar uma plataforma cívica contra a fixação de semelhante infraestrutura na nossa terra, mas não saberia por onde começar. A pista complementar, que se torne em principal, mas fora daquele local.

Toda esta irritação surgiu na sequência da irritação do dia, que foi ouvir alguém atropelar 3 ou 4 vezes seguidas a palavra “infraestrutura”. Sussurrando tento perceber se a minha dicção era correcta. Infraestrutura. Confirma-se; não tenho dificuldades com a dita. Ufa, posso continuar a irritar-me com quem diz “infrestrtua”.

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