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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

12 de Janeiro – quinta-feira

I

Hoje o despertador já se pronunciava há algum tempo quando finalmente cumpre o seu objectivo. Saiu de casa apressado, com aquela estúpida sensação de que me esquecia de qualquer coisa. Aquela sensação que nos vai acompanhar o resto do dia, até descobrirmos que olvidámos algo insignificante. Noutra ocasião não nos tinha feito diferença nenhuma, mas neste contexto agiganta-se na sua insignificância.

A fina neblina que cobre a superfície do rio ajuda-me a esquecer. Não se vêem as margens, nem suas luzes. Naquele instante era como se só aquele barco existisse. Olho em volta. Estávamos bem feitos se aquilo fosse uma moderna arca de Noé. Lá se ia a biodiversidade. Tenuemente vão aparecendo as luzes da margem direita do rio. O barco atraca de safanão. Como numa coreografia as pessoas, já de pé, dão um passo à frente e um passo atrás, numa sincronização impecável. Só fica a faltar a palminha da praxe.

É interessante perceber como nos últimos tempos o cheirinho a café vem agradavelmente conquistando espaço nas estações do Metro. Principalmente naquelas de maior dimensões que albergam cruzamentos entre linhas ou ligações a outros meios de transporte. É tão reconfortante pela manhã deslocar-nos ao odor do pequeno-almoço. Já quem não aprecia café não dirá o mesmo, mas deste grupo será residual o número de pessoas que não suportam de todo o cheiro. A essas apenas resta-lhes o autocarro ou uma mola no nariz.

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Na parede da carruagem está exposta a declaração de compromisso patente na Carta do Cliente dos transportes públicos da capital. Não consigo evitar um esgar de sorriso malandro. Um homem lê um livro e as pessoas olham para ele de uma forma estranha, comentando em surdina. Como se a leitura não fosse um acto normal... Ele não liga; embrenhado que está noutras linhas, quase deixa passar a sua estação. De um salto vence “in extremis” o fecho das portas anunciado pelo trio de apitos.

Na estação onde me apeio, o cheiro do café é suplantado pelo aroma de orégãos e folhados acabados de fazer. Maldito olfacto que testas constantemente a nossa resistência a semelhantes tentações. Desta vez ganhaste ignóbil sentido. É um café e um folhado misto, se faz favor.

 

II

O rio tingiu-se de negro. Não está revolto, apenas ondula suavemente o seu luto num movimento que parece perpétuo. Quando terá começado e que terá sido responsável? Quem será que agitou as águas pela primeira vez? No braço de rio a calma impera e as águas mal se mexem. Mas o negro cobre tudo. E parece ser o prenúncio de uma tempestade. A terra está à vista. De resto sempre esteve nesta curta travessia entre margens. Nestas ocasiões é sempre melhor ter os pés em terra e procurar refúgio daquilo que se precipita. Por enquanto a gota continua presa no céu cinzento. Com sorte assim se manterá até me encontrar em casa. Não é que desgoste de chuva. Até aprecio sobremaneira. Mas sem chapéu ou roupa adequada é um convite à desgraça e uma comissão de boas-vindas à constipação.

O barco dá a volta antes de atracar, deixando exposta a estrada de espuma branca que foi construindo ao longo do trajecto pelo rio. A ondulação, a custo, vai apagando esses contornos e isso faz-me pensar que a água lava quase tudo…

A casa amarela mantém-se orgulhosa e única entre o casario branco. Com se fosse líder daquele pelotão. E a camisola só podia ser nova, pela vivacidade e brilho que ostenta. A porta da rua abre-se e é expelida a criança alegre e saltitona. Só podia, para afinar pelo mesmo diapasão. A avó tenta conter o entusiasmo, mas o petiz sabe que os pais estão a chegar. Nada o irá deter até se agarrar aos pescoços de ambos, sufocando-os em carícias. O pai irá logo dizer que já é tarde e têm de ir para casa. Todos os dias a cena é igual e o petiz insiste em repetir-se. Atá ao dia em que se fartará. E nesse momento os pais vão sentir falta do assalto de afectos. Tarde demais; a criança cresceu e o tempo não volta atrás.



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