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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

11 de janeiro – quarta-feira

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I

Pela manhã dá sempre aquela vontade de nos aconchegarmos no banco dos transportes públicos e fechar os olhos. Principalmente durante o Inverno, quando é ainda noite cerrada e o frio impera. Ao fechar os olhos vejo-me num estranho conforto que esquece os que me rodeiam. Deixo-me levar sem sentimento de vergonha ou de culpa. Sabem bem aqueles minutos extra de dormência. O que ajuda muito nesta capacidade de nos alienarmos, são os meios portáteis de reprodução de música. Ainda me recordo do meu primeiro walkman. Um aparelho maciço e de dimensões consideráveis, de um amarelo incómodo, mas que na altura era considerado o supra-sumo da tecnologia. Equipado com horríveis auscultadores de esponja nas extremidades auriculares e com um apetite voraz por pilhas AA. E as velhinhas cassetes, onde gravava os álbuns predilectos ou canções avulsas das estações de rádio, que invariavelmente viam a sua fita presa no leitor. Para evitar esses riscos, inúmeras foram as vezes em que as rebobinava com auxílio de uma caneta Bic. Um casamento improvável, mas feito para durar.

Hoje, com o registo digital, a música portátil tem uma logística mais fácil e acessível. E é maravilhosamente cómoda. Num só aparelho concentramos o nosso mundo. Um telefone, que é computador, que é leitor de música, que é câmara de filmar e fotográfica, que é receptor de rádio, que é agenda, que é GPS… E que é muitas vezes motivo de isolamento. Esse é o ponto de colocar travão.

Curiosamente é quando coloco os auriculares e recebo uma injecção sonora, que a inspiração flui. Vejo o mundo melhor, sob outra perspectiva e com outro detalhe. Inebriado pela singularidade que observo em cada relance. As letras acotovelam-se para se plasmarem no papel, agigantando-se em palavras. Estas compõem frases, em linhas que se vão sobrepondo. Nasce o texto – quem dera um dia ser livro. Tão bom sentir o cheiro do papel tatuado pela tinta da caneta. E eis que a tinta acaba… Há muito que me precavi para esses percalços. Na mala e nos bolsos amontoo substitutas. A côr pode ser diferente, mas a prosa não se sente traída.

Já pensei em começar a escrever no telefone, que é computador, que é… Bem, já sabemos o que é. Mas não me adapto. Falta o erro rasurado, a letra que não se percebe, as frases lembradas à posteriori que ficam presas fora da prosa com chamadas de atenção, as setas que alteram o sentido normal do texto, as chavetas que incluem só mais uma palavra a meio da frase, ou duas, ou várias. No final passo a limpo e organizo tudo. Sanado de imperfeições, o texto já nem parece o mesmo. Por isso guardo as sebentas. Onde os primórdios persistem plenos de rasuras e emendas. Na realidade raramente volto a abrí-las, mas servem de conforto. Para me relembrar do processo e dos erros que se vão cometendo. Para relembrar a minha natureza humana e conviver bem com a mesma.

II

Meu filho pediu-me para comprar um livro. Fiquei contente. Depois disse que na disciplina de Português era exigido que lesse o mesmo. Continuei contente. Depois mencionou o título e o autor. Aí fiquei envergonhado. Não fazia a mínima ideia de que livro era aquele e quem era o autor. Ele reparou o embaraço na minha expressão. Mas por ser muito mais sensato do que eu isentou-me do incómodo. Uma experiência de 15 anos de vida a lidar comigo ajuda nestas questões.

Enquanto entrava no Metro sentia o livro irrequieto dentro da sacola. E ocorreu-me que seria um belo projecto ler o mesmo em conjunto com o meu rebento. Logo à noite, depois de jantar, desligar-se-ia a televisão e abrir-se-ia o livro. Só ficaria a faltar a lareira. Delírios…

Já no barco assisto ao nascer da Lua. Grande e redonda. E algo translúcida. Cada vez que olho está mais alta. Apressada de chegar ao topo do céu, para ser gambiarra da noite. Hoje será noite de lobisomem. Criatura só e incompreendida. E amanhã constará nos classificados do jornal local: “corfadário estabelecido na vida, bem-apessoado, pretende encontrar donzela entre os 20 e os 45 anos, para relacionamento gastronómico sério e para serem felizes para sempre, como na Disney.”

Quando poiso pé em terra a lua já atingiu uma altura considerável. Talvez já o suficiente para inspirar poetas, dependendo, claro está, da métrica ambicionada.

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