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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

10 de Janeiro – terça-feira

I

Típico. O autocarro está atrasado. De soslaio desejo afundar-me na poltrona que está abandonada na esquina junto ao contentor do lixo. Já parece ter algum uso, mas sem marcas evidentes desse desgaste. Deve ter aquela cova habitual que se forma ao longo de anos e nos permite aninhar enquanto assistimos um bom filme; ou mau…

Lá vem a carreira. Cinco minutos fora da hora. Tendo em conta o passeio turístico que me leva mais de 30 minutos a fazer um trajecto que levaria, em circunstâncias normais, 5 a 10 minutos, é irrelevante.

Já a bordo, as vizinhas parece que trocavam impressões sobre qual a melhor forma de preparar um peixe gordo cortado em postas altas: se frito, se grelhado. Volto a tomar sentido na conversa e descubro que afinal falam em rojões. Secretamente salivo, mas ninguém nota. Logo à noite tenho de fazer a minha receita de rojões. Olarila.

Quase que adormeço embalado pela doce ondulação do Tejo. Sobressalto-me ao lembrar-me que hoje era dia de dentista, para o meu rebento. Lá teremos de rearranjar as agendas. Sim, porque ser jovem estudante nos dias que correm tem muito que se lhe diga. Os horários são apertados e as solicitações são mais que muitas. Um dia os nossos pedagogos vão perceber que estamos a formar mal os nossos filhos. Talvez aí cheguemos ao círculo polar árctico da educação. Quando chegar ao trabalho tenho de telefonar à dentista.

Na carruagem do Metro, a criança irrequieta insiste em sair e entrar da composição a cada paragem, para grande irritação da sua mãe e extremo deleite meu. Pois recordava-me de tempos que não voltariam, mas que eram responsáveis por uma das rugas na minha memória. Aquela em que um puto reguila não parava quieto e explorava o mundo à custa da minha ansiedade e preocupação. Assim era crescer. E isso adapta-se também aos pais…

II

Já não me lembrava o quanto é incómodo levar nos transportes públicos objecto com um volume maior que o habitual. É esmagamento, encontrão, prisão. É batalhar para conseguir sair, em conjunto com a encomenda, na paragem pretendida. Um autêntico desporto radical.

Saiu do subsolo e encaro um final de tarde que parece saído dos anos 30 ou 40 do século passado. Tudo parece preto e branco. Sinto que a qualquer momento poderão aparecer o Vasco Santana e a Beatriz Costa. No Tejo é difícil definir a linha do horizonte. O rio é tão cinzento como o céu. Apenas a espuma ocasional da ondulação relembra por onde navegamos. Não chove; ameaça. Numa periclitância que me deixa reticente.

Tudo isto acontece quando a função aleatória do leitor de mp3 trás à superfície “This Modern Love” dos Bloc Party. Bato o pé a compasso e abano a cabeça, enquanto trauteio entre dentes o poema da canção. Como seria maravilhoso que alguém pudesse comer a tristeza alheia. Mas depois penso se isso não seria demasiado indigesto, para o corpo ou para a alma… A músiIMG_20170131_181417_109.jpgca, em crescendo, faz-me abanar cada vez mais a cabeça. Já tenho meia dúzia de pessoas a olhar para mim. Eis que atinge o seu clímax e termina serenamente. Já deve ser seguro abrir os olhos. E até convém, porque o barco já está a atracar.

Naquele final de tarde as estufas parecem triste e abandonadas. Enquanto o autocarro ressalta nos buracos da estrada espio o espaço entre plásticos, percebendo a razão para tanta tristeza. As flores tinham sido colhidas e a terra estava agora nua. Fraterno com esta situação o veículo desliga o seu motor. Os passageiros entreolham-se incrédulos. Mas, embora o bicho se mostre temperamental, lá volta a pegar e segue seu caminho. Idiossincrasias dos transportes públicos. Oh bolas! O veículo foi-se abaixo novamente. E desta vez mostra-se renitente em voltar a pegar. Não é grave; não estou longe do meu destino. A caminho...

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