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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

10 de Fevereiro – sexta-feira

I

Acordar a esta hora da madrugada, principalmente durante o Inverno, devia ser qualificado como um método de tortura inaceitável. A própria convenção de Genebra devia contemplar sanções pesadas para este particular. Da janela espreito o humor meteorológico. Aproveito o facto de estar a chover para olvidar o guarda-chuva em casa. É optimo poder andar de mãos nos bolsos.

O autocarro chega a horas, o que é sempre digno de destaque por estas bandas. Falo de horas exactas, claro está. A partir do momento em que se atrasa 1 ou 2 minutos, já não está a horas… Em contrapartida, o barco chega atrasado cerca de 3 minutos, o que vais sendo, infelizmente, usual. Tem ocasiões que nem aparece.

Da manhã de notícias vem a informação de que 2016 foi o mano em que houve menos touradas e menos espectadores em Portugal. É uma boa notícia. Reflecte um caminho civilizacional que a sociedade nacional está a trilhar. Estou convencido que dentro de uma ou duas gerações este “espectáculo” será residual ou mesmo inexistente. Caso haja vontade para acabar com os subsídios à actividade tauromáquica parece-me que nem será necessário legislar pela sua proibição.

No meio desta reflexão constato que o barco atá a fazer marcha à ré a meio do trajecto fluvial. Não percebendo o que se passa questiono se não poderá ser uma avaria. Passados uns momentos nesta manobra retoma o seu curso, corrigindo o rumo. A estibordo fica um banco de areia. Deduzo que o mestre se distraiu ou o temporal de ontem tinha construído aquela lomba natural na rota habitual da ligação fluvial. De qualquer forma tudo foi resolvido atempadamente, ninguém ficou encalhado e o barco atraca na margem oposta.

No Metro, as duas moças falavam em francês e eu estava estupefacto por não apanhar quase nada da conversa. Apenas uma ou outra palavra ou expressão. Era espantoso como tinha esquecido o pouco que tinha apreendido deste idioma na escola. É certo que em 3 anos de disciplina, nenhum tinha sido completo. Ou por falta de professora ou por baixas. Mas mesmo assim tinha o dever de entender qualquer coisinha. Registo em nota mental que tentarei colmatar essa lacuna no futuro. Sempre gostei de aprender outras línguas.

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II

O Metro vai invulgarmente vazio para uma tarde de sexta-feira. Dou-me ao luxo de sentar-me pacatamente. Faço contas ao tempo e às condições, chegando à conclusão que se me apressar e apanhar logo os metros nas correspondências, conseguirei apanhar o barco da hora anterior à habitual. Prémio bem merecido em final de uma semana stressante.

Já estava à espera de ver o meu objectivo gorado, quando perdi o comboio na ligação, muito por culpa da extrema sensibilidade das pessoas que, não tendo pressa, não se afastam nem por nada do caminho. Mesmo assim corri. Apressei-me e apanhei imediatamente o comboio de ligação ao cais, na segunda correspondência. Faltavam 2 minutos para a hora. Saí da carruagem sobre a hora. Acelerei na esperança que o barco estivesse atrasado. Nos últimos tempos o barco atrasa sempre. Chego ao cais de embarque passava 1 minuto da hora marcada. E o cabrão do barco já tinhas as amarras recolhidas e estava pronto a zarpar. Tinha escolhido este preciso momento para se armar em britânico...

Trinta minutos era o que me separava da próxima ligação. Por isso decidi dar uma oportunidade à desconstrução de bancos do jardim que agora se transformavam em chaise-longue, que o município da capital decidiu plantar na frente ribeirinha. Sentei-me e saquei da merenda. Logo um bando de pardais abeirou-se de mim. Bem alimentados, mas também bem-educados. Esperavam pacientemente para que eu estendesse a mão com algumas migalhas. Com delicadeza retiravam-nos sem nunca me bicarem. Agradeciam com o seu chilrear habitual e fazendo companhia, mesmo depois de terminada a refeição.

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Que bem souberam aqueles minutinhos de preguiça orientados ao Sol e com uma banda sonora acústica interpretada à guitarra pelo artista de rua de nome Mário. Perguntei-lhe o nome enquanto depositava uma moeda no estojo da sua guitarra. Ele agradeceu. Eu retorqui: não Mário; obrigado eu por este momento.

Depois disto não pensei mais na semana de trabalho e na corrida frustrada para apanhar o barco anterior. Na realidade ia perdendo este. E não estava minimamente preocupado.

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