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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

1 de Fevereiro – quarta-feira

I

Hoje virou o mês e rasga-se mais uma página do calendário. O mundo inteiro sabe disso; até o meu passe sabe disso. Eu não… E represento o imbecil papel de passar incessantemente o cartão frente ao leitor, pensando que a mensagem “leitura incorrecta” só podia ser resultado da casmurrice daquela máquina. Evidentemente que não o era. O motorista faz questão de clarificar: “hoje é dia 1”. Senti que uma profunda burrice descia sobre mim. Ao mesmo tempo maldizia a diferença de pagamentos entre títulos de transporte e o problema de não conseguir ter um passe para toda a rede metropolitana de transporte público.

No momento que saco das moedas para pagar a tarifa de bordo alcanço o nirvana das vergonhas. O dinheiro não chega. O motorista intervém: “O amigo apanha a carreira todos os dias. Não se preocupe; paga amanhã”. O simples obrigado não é palavra suficiente para agradecer a confiança depositada na minha pessoa, mas é a palavra que aplico na ausência de encontrar outra mais adequada. Sempre me conforta um pouco esta atitude. Não me posso esquecer de trazer dinheiro amanhã e de carregar o passe à primeira oportunidade.

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A primeira oportunidade foi perdida. Aguardo pela segunda…

Já devem ter desconfiado que não sou médico. Nem nunca me interessou sê-lo. Talvez por isso nunca perceba muito bem se a maleita que enfrento neste instante é uma constipação ou uma crise de renite alérgica. As consequências são normalmente idênticas: congestão nasal e garganta irritada. Os pacotes de lenços nunca são suficientes para apenas um nariz. E os rebuçados para aliviar a garganta são consumidos à velocidade da luz. Na realidade, esta é uma questão que amiúde me assola. Mas não me posso deixar levar pela mesma. Não quero ser daquelas pessoas que são um autêntico repositório de doenças, sempre a queixar-se disto ou daquilo e que sabem o nome de todos os medicamentos e mais alguns. Eu basta-me conhecer o brofen e a aspirina; chega perfeitamente. Nem me recordo do nome dos anti-histamínicos que normalmente tomo. A médica coloca as palavras num papel A5 e na farmácia traduzem isso em comprimidos, em troca de uma compensação monetária. Isso chega-me Não pretendo tomar o lugar dos entendidos na matéria e deposito nestes profissionais toda a minha confiança.

Não me levem a mal. Tento ter cuidado com a minha saúde. Luto arduamente para manter o meu peso abaixo dos 100 quilos, o que já não é uma questão de somenos. Mas prefiro não manter a minha vida em suspenso pela ditadura do saudável.

II

Volto a ouvir a ideia de que a crise económica que nos assolou, e ainda não nos abandonou, é, no fundo, uma oportunidade. Também tive a oportunidade de rever a matéria dada em termos de novilíngua. Assim, recordei que colaborador quer dizer trabalhador ou funcionário e que reestruturação é sinónimo de despedimento. Isto tudo equivale a dizer que a vida da malta está fodida, mas com nota artística.

É outro luxo quando nos apresentam o abismo da miséria com linguagem cuidada. O neoliberal adora o tom formal do seu discurso. Fá-lo sentir uma réstia de humanismo. E esforça-se sempre por deixar a porta entreaberta. Nunca se sabe quando é que necessitará novamente do “colaborador reestruturado”, de preferência pagando metade do salário anterior e com um vínculo contractual ainda mais precário (desenganem-se; sim, é possível).

Quando chego à ligação fluvial começam a sentir-se os primeiros prenúncios do temporal que se irá abater sobre o continente depois de desistir de fustigar o resiliente povo açoriano. Já no autocarro duas mulheres gritam entre bancos paralelos sobre o agravar do estado do tempo e sobre as novidades de possíveis acidentes ocorridos nos Açores. Uma delas, mais informada, garante que não, que não houve nada e está tudo calmo. A informação parece revestida de uma certa mágoa na voz. Como se fosse roubado assunto às conversas de ocasião…

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