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Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos

A esquizofrenia dos dias banais. A normalidade dos que fogem à regra.

16 de Fevereiro – Quinta-feira

I

À medida que me aproximo do cais relembro os barcos panorâmicos. Uma coisa supimpa. O último grito. O turista merece o melhor. E não só de ligação fluvial vive agora a margem Sul. Um túnel, uma ponte, uma ligação pedonal e ciclável. E autocarros que não pareçam desmontar-se a cada metro percorrido. Tudo à mão de semear, numa brutal oferta de mobilidade.

Esquecido naquele mar de palha, nome pomposo para um mero recorte no estuário, durante tanto tempo, o utente de transportes públicos vê-se agora catapultado para a meta das acessibilidades, pontificada com transportes modernos, regulares e confortáveis. Era a recompensa devida. O mínimo que se podia fazer pela imposição de partilhar a sua geografia com um aeroporto complementar para aviação civil. E no fundo ninguém ali teria de se preocupar; a aproximação à pista ou descolagem será feita pelo rio. Como se os 3 quilómetros de rio que ali dista entre margens fossem significativos em termos de aviação civil e como se as populações de outras localidades que veriam os aviões sobre as suas cabeças merecessem menos importância.

O flamingo é interrompido pelo jornalista de ocasião, que somente agora descobriu o “deserto”. Que pensa disto? Parece perguntar. O flamingo lembra que desde a ponte deixou de migrar. Agora com o aeroporto provavelmente deixará de voar. E se se confirmarem os barcos panorâmicos não sairá de casa, pois detesta a exposição pública. No entanto, entende a decisão política ou não fosse ela da mesma cor… O restante passaredo já não partilha desta opinião e muito menos da subserviência. Piam e grasnam injúrias para com os decisores de semelhante medida, que extinguirá o seu tradicional modo de vida e os expulsará do espaço aéreo, onde se sentem bem. No entretanto, os patos bravos esfregam as penas na profunda avareza que os caracteriza, já a pensar no proveito próprio que podem tirar daquele novo panorama, pouco lhes importando o impacto que tal medida pode ter no território. Assim é o quotidiano, num país de aves raras.

II

IMG_20170105_210515_447.jpgÀs vezes gosto de locomover-me na linha azul do metro e passar na estação Jardim Zoológico, só naquela de perceber se entraria uma chusma de biodiversidade pelas carruagens adentro. Assim tipo Madagáscar, mas a valer. Era tão porreiro! Ter uma espécie de reserva ecológica subterrânea, muito fora do circuito comercial. 

Quando me sentei no barco preparava-me para escrever sobre algo que já não me lembro. Nessa altura a caneta falhou. Olhei a esferográfica na sua transparência e reparei que já não tinha tinta… Recordei que ao iniciar esta aventura literária chamada Viagens na Minha Terra em Transportes Públicos, precisamente no primeiro dia em que comecei a escrever, encontrei a esferográfica que agora perece, numa carruagem do metro. Desde aí até agora foi minha confidente de realidade, ficções e pós-realidades e surrealismos. É com uma certa mágoa que vejo que a nossa relação já não tem futuro. Ficarão saudades e as inúmeras linhas registadas, como testemunho para a posteridade.

15 de Fevereiro – quarta-feira

I

Ontem dizem que foi dia dos namorados. A minha esposa diz que não ando nada romântico. Tem razão. Sou utente de transportes públicos e grosso modo demoro hora e meia a duas horas em cada movimento pendular. A minha noção de romance, neste momento é fazer conchinha vertical na linha verde do Metro. Como tal decidimos ir jantar fora na noite de S. Valentim. Nada mais romântico, certo? Errado! Primeiro porque temos de arrastar connosco o adolescente que deambula lá por casa e que jura a pé juntos que é nosso filho, mesmo que a maior parte das vezes nem se dê pela sua presença. Segundo, porque os restaurantes estão sempre cheios e com ou sem reserva temos de conviver com aquela atmosfera densa e cheia de romance de circunstância. Terceiro, porque é a altura ideal para enfiar grandes barretes. Neste aspecto o presente ano não defraudou expectativas e manteve a coerência na desilusão.

Os restaurantes estavam cheios e sem saber muito bem que cassa de pasto escolher acabámos por optar por um local que já tínhamos ouvido falar, de nome Tratoria da Pippo. Já não levava um barrete daquela dimensão há algum tempo. Fomos recebidos por uma senhora cujas unhas quase me vazaram uma vista, que com o sorriso mais plástico possível nos indicou uma mesa. O espaço é visualmente agradável, sem dúvida. E até estávamos satisfeitos por conhecer aquele cantinho. Depois de efectuarmos as nossas escolhas começou a espera… mais de uma hora para o serviço. Depois disso o desconsolo baixou sobre nós. É verdade que a pizza do puto parecia aceitável. Agora a carbonara da minha cara-metade estava afogada em natas (nem valerá a pena mencionar que a receita de carbonara italiana original não leva natas; essa é a aldrabice que fazemos lá por casa) e o meu molho de tomate sabia a ketchup com “vegetais” de conserva plantados. Resultado, dois pratos de pasta extremamente enjoativos e que, apesar da fome, apenas forma consumidos pela metade. Mas ao que parece nem fomos muito maltratados. Um senhor queixava-se que tinha esperado duas horas pela comida e agora até para pagar estava há mais de 20 minutos ali…

Se fosse crítico gastronómico, invés de estrelas dava àquele restaurante um buraco negro. A evitar de futuro (nota mental).

II

Enquanto regressava sonhava com os novos catamarãs. Panorâmicos e de alta velocidade. E um cais renovado, que bom! Tudo com os cumprimentos do Complementar. Tudo para receber os turistas. Mas rapidamente passei da satisfação à indignação. Dias, semanas, anos décadas, em que os utentes do transporte fluvial se sujeitam a um péssimo serviço; com condições decadentes e que se continuam a degradar; sem terem um espaço condigno para permanecer até ao embarque. Agora tudo seria resolvido graças ao aeroporto complementar.

Não me levem a mal, nada me move contra os turistas, que chegarão. No fundo são utentes aerotransportados. O que me indigna é que os utentes de todos os dias dos transportes públicos não possam ter, só por si, o mesmo tipo de atenção.

Depois lembro o “Metro atrasado, namoro adiado” e penso que com o aeroporto complementar o sossego vai acabar e que o futuro está-se a adiar. É uma perspectiva que em nada me cativa, mas ainda muita água vais passar por este rio ou não fosse este o maior estuário da Europa e uma das suas 10 zonas húmidas mais importantes. Que bom termos espaços deste calibre para estragar.

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14 de Fevereiro – terça-feira

I

Ainda faltavam dois minutos para a hora da carreira e o autocarro passa por mim. Talvez estivesse a 10/15 metros da paragem inicial, mas, por via das dúvidas, corri para que também aquele não se antecipasse à minha rotina. Posso dizer que o dia começou à pressa.

Na paragem do costume entram as duas senhoras do costume. Seus cortes de cabelo, como acontece tanta vez em senhoras de idade amigas, equivaliam-se e as tonalidades de louro reinavam, num claro esforço para tapar os brancos que iam ganhando terreno. Sempre me fez confusão que uma dessas mulheres, apesar de exibir claras dificuldades de mobilidade e equilíbrio, é sempre a última a entrar para o autocarro. Primeiro entra a mulher que não aparenta ter qualquer problema na locomoção, que fica de pé, junto de um par de bancos, à espera da amiga. Essa, a custo, lá vai vencendo as filas de assentos, até chegar ao destino; os bancos mesmo antes da porta de saída. E senta-se sempre no lugar da janela. Essa parte tem lógica, pois a senhora com marcha normal sai sempre a meio do percurso. Até por essa razão faria sentido que a pessoa que evidencia alguma dificuldade em caminhar seria a que, obviamente, deveria entrar primeiro. Legalmente parece-me que agora tal é exigido. Além de ser, a meu ver, a forma correcta de agir. Se esta senhora chega sempre em segundo lugar à paragem ou se é ela própria que prefere entrar por último, é algo que ignoro. Mas que sempre me fez confusão este procedimento, isso sem dúvida.

IMG_20170218_171855_385.jpgÉ engraçado reparar que quando a linha amarela cruza a vermelha existe um grande intercâmbio de passageiros. E denota-se que essa troca é também etária. Normalmente, o comboio apeia pessoas de mais idade e carrega passageiros mais jovens. Isso faz-me sentir jovem por ficar por cá mais duas estações, mas velho quando avalio a população da composição. É também destas ambiguidades que se faz a nossa vivência.

II

Visto do alto do catamarã, o barco do pescador parecia uma frágil casca de noz. A débil ondulação sacudia o mesmo como se duma intempérie se tratasse. Por seu lado, o catamarã avançava resoluto, sem o mínimo balanço. Nesse momento veio à memória um pequeno grande livro de Ernest Hemingway – “O Velho e o Mar”. E imaginei que também aquele pescador estaria numa jornada para apanhar um mítico peixe, de dimensões paquidérmicas. Andaria dias, semanas, meses, à deriva. Na persecução do objectivo de uma vida, que alcançaria. Mas no final, extenuado e vitorioso, deixaria o seu troféu sobreviver, para que outro alguém pudesse passar pelo mesmo, e somente ele teria conhecimento do enorme feito que teria levado a cabo. Bastava-se. No entanto, ao chegar a terra relataria o seu trabalho, qual Hércules da modernidade. Ninguém acreditaria em si. E isto serviria para continuar a alimentar o estereótipo de que os pescadores são todos uns aldrabões.

Ao entrar no autocarro confirmo a minha suspeita de outro dia. Decididamente, não existem dois veículos iguais a efectuar as carreiras urbanas do Montijo. E cada carroça é pior que a outra.

13 de Fevereiro – segunda-feira

I

O som de algo a cair desperta-me. Estremunhado pergunto o que se passa. Caiu não sei o quê responderam-me da sala. Ele já está de pé e pronta a sair. Preparada para fazer a sua parte e no fim do mês ganhar seu quinhão. E eu ainda me queixo de acordar cedo… Patético.

Revolto-me na cama sem conseguir pregar olho. Não vale a pena continuar a insistir. O sentimento de culpa tomou conta de mim. Lentamente queimo tempo nas tarefas rotineiras que normalmente executo de forma ágil e expedita. Mas hoje não há pressas.

Quando chego à paragem, a mesma está deserta. Por momentos ocorre-me a ideia que de tanto perder tempo acabei por falhar a carreira. Verifico as horas e percebo que estou bem a tempo. Apalpo o passe dentro do bolso. Estou pronto. Ao entrar no autocarro pergunto-me se haverão dois veículos iguais a fazer estes trajectos urbanos. É que tenho a genuína sensação de que entro sempre num autocarro diferente. Mas isso pode ser só confusão minha.

Parte do trajecto foi enriquecido pela companhia de um bom amigo. Músico de coração, vendedor de livros por profissão. Com ele há sempre assunto. É interessante. Falamos de cultura e da estagnação da nossa comunidade neste campo. Mas também prometemos que faremos alguma coisa. Até já o fomos fazendo, aqui e além. Mas o tempo é sempre curto, as solicitações várias e as exigências do dia-a-dia deixam sempre sonhos e ambições por concretizar. Assim é a vida; onde na maior parte das vezes sobrevivemos em vez de viver; onde a necessidade de manter o físico remete para o esquecimento o alimento do espírito.

II

Ao regressar recordava o espectáculo “Pessoas Estranhas, de Marta Gautier, que tive oportunidade de assistir no sábado à noite. Fora apresentado como stand-up comedy, mas que era mais do que isso. De forma inteligente desconstruía uma série de estereótipos, ou não, e avançava com o conceito “desprogramar”. O mesmo consiste na ideia de desconectarmos do que nos prende e nos vai formatando à medida daquilo que o sistema vigente pretende. A televisão e o telemóvel, por exemplo, são avançados como meios de nos programar e que devem ser postos de lado caso queiramos reiniciar a nossa vida. Claro que este é um assunto sobejamente conhecido, mas agora foi-lhe alocado um nome e é apresentado de forma inteligente e embrulhado num discurso sofisticado. Mas uma coisa é certa, quem no dia 11 de Fevereiro de 2017 presenciou aquele espectáculo no Cine-Teatro Joaquim D’Almeida e o compreendeu verdadeiramente, saiu do mesmo a pensar: “e se…” e é aí que Marta Gautier foi brilhante (e não falo do calçado utilizado no espectáculo).

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O barco atracou antes das 17:30 e percebi que tinha tempo de ir a uma loja antes de ir apanhar a carreira. À meia hora certa, quando saiu do Cais, os autocarros já não estão lá. Tinham todos saído num excesso de zelo motivado possivelmente pelo habitual render de motorista da carreira naquele horário. Resultado: ter de chatear alguém para me vir buscar àquele fim de mundo.

11 de Fevereiro – sábado

Hoje tive de deslocar-me à Vila Morena. Ainda procurei por transportes públicos que me permitissem tal viagem, mas as alternativas com que me deparei não eram nada atractivas. Assim, automobilizei-me até ao destino. Escolhi os acordes e versos de Thom Yorke para companhia na viagem. O aparelho sonoro da viatura tem andado sensível e recusava-se terminantemente a ler o CD. Cuspia constantemente a bolacha declarando erros imperceptíveis no seu painel. Com calma chamei-o à razão, dizendo-lhe que ou funcionava ou iria janela fora, como quem diz parar ao electrão. Funcionou.

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Ao transpor o Sado em direcção ao Sul, a IC1 faz questão de me recordar o porquê das populações e municípios tanto se queixarem da sua conduta. Nesse momento lancei pragas à minha mania de evitar circular em auto-estradas. O veículo, com um comportamento semelhante a uma pressão, concordava com o meu estado de espírito.

Quando cheguei à vila morena, Thom Yorke começava a repetir o reportório do álbum. Calculado não sairia melhor. Para regresso, Beirute. Calma, não era esse o meu destino. Refiro-me ao cantor. Mas este já vais dar mais luta. Tem a mania de fazer discos demasiados curtos para a qualidade da sua música. Tal vai implicar ou mudar de CD ou ir numa espécie de loop beiruteano até casa…

 

10 de Fevereiro – sexta-feira

I

Acordar a esta hora da madrugada, principalmente durante o Inverno, devia ser qualificado como um método de tortura inaceitável. A própria convenção de Genebra devia contemplar sanções pesadas para este particular. Da janela espreito o humor meteorológico. Aproveito o facto de estar a chover para olvidar o guarda-chuva em casa. É optimo poder andar de mãos nos bolsos.

O autocarro chega a horas, o que é sempre digno de destaque por estas bandas. Falo de horas exactas, claro está. A partir do momento em que se atrasa 1 ou 2 minutos, já não está a horas… Em contrapartida, o barco chega atrasado cerca de 3 minutos, o que vais sendo, infelizmente, usual. Tem ocasiões que nem aparece.

Da manhã de notícias vem a informação de que 2016 foi o mano em que houve menos touradas e menos espectadores em Portugal. É uma boa notícia. Reflecte um caminho civilizacional que a sociedade nacional está a trilhar. Estou convencido que dentro de uma ou duas gerações este “espectáculo” será residual ou mesmo inexistente. Caso haja vontade para acabar com os subsídios à actividade tauromáquica parece-me que nem será necessário legislar pela sua proibição.

No meio desta reflexão constato que o barco atá a fazer marcha à ré a meio do trajecto fluvial. Não percebendo o que se passa questiono se não poderá ser uma avaria. Passados uns momentos nesta manobra retoma o seu curso, corrigindo o rumo. A estibordo fica um banco de areia. Deduzo que o mestre se distraiu ou o temporal de ontem tinha construído aquela lomba natural na rota habitual da ligação fluvial. De qualquer forma tudo foi resolvido atempadamente, ninguém ficou encalhado e o barco atraca na margem oposta.

No Metro, as duas moças falavam em francês e eu estava estupefacto por não apanhar quase nada da conversa. Apenas uma ou outra palavra ou expressão. Era espantoso como tinha esquecido o pouco que tinha apreendido deste idioma na escola. É certo que em 3 anos de disciplina, nenhum tinha sido completo. Ou por falta de professora ou por baixas. Mas mesmo assim tinha o dever de entender qualquer coisinha. Registo em nota mental que tentarei colmatar essa lacuna no futuro. Sempre gostei de aprender outras línguas.

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II

O Metro vai invulgarmente vazio para uma tarde de sexta-feira. Dou-me ao luxo de sentar-me pacatamente. Faço contas ao tempo e às condições, chegando à conclusão que se me apressar e apanhar logo os metros nas correspondências, conseguirei apanhar o barco da hora anterior à habitual. Prémio bem merecido em final de uma semana stressante.

Já estava à espera de ver o meu objectivo gorado, quando perdi o comboio na ligação, muito por culpa da extrema sensibilidade das pessoas que, não tendo pressa, não se afastam nem por nada do caminho. Mesmo assim corri. Apressei-me e apanhei imediatamente o comboio de ligação ao cais, na segunda correspondência. Faltavam 2 minutos para a hora. Saí da carruagem sobre a hora. Acelerei na esperança que o barco estivesse atrasado. Nos últimos tempos o barco atrasa sempre. Chego ao cais de embarque passava 1 minuto da hora marcada. E o cabrão do barco já tinhas as amarras recolhidas e estava pronto a zarpar. Tinha escolhido este preciso momento para se armar em britânico...

Trinta minutos era o que me separava da próxima ligação. Por isso decidi dar uma oportunidade à desconstrução de bancos do jardim que agora se transformavam em chaise-longue, que o município da capital decidiu plantar na frente ribeirinha. Sentei-me e saquei da merenda. Logo um bando de pardais abeirou-se de mim. Bem alimentados, mas também bem-educados. Esperavam pacientemente para que eu estendesse a mão com algumas migalhas. Com delicadeza retiravam-nos sem nunca me bicarem. Agradeciam com o seu chilrear habitual e fazendo companhia, mesmo depois de terminada a refeição.

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Que bem souberam aqueles minutinhos de preguiça orientados ao Sol e com uma banda sonora acústica interpretada à guitarra pelo artista de rua de nome Mário. Perguntei-lhe o nome enquanto depositava uma moeda no estojo da sua guitarra. Ele agradeceu. Eu retorqui: não Mário; obrigado eu por este momento.

Depois disto não pensei mais na semana de trabalho e na corrida frustrada para apanhar o barco anterior. Na realidade ia perdendo este. E não estava minimamente preocupado.

9 de Fevereiro – quinta-feira

I

Adormeci e perdi a hora. Esta era certamente a forma do meu corpo avisar que estava mais frio esta manhã e que mais valia ficar na cama. Atropelo-me para sair e mal ponho o nariz na rua sinto que devia ter cedido à preguiça, mãe de todos os vícios. E mãe é mãe; não deve ser colocada em causa a sua vontade.

Quando chego ao barco fiquei com a sensação de que alguém me apanhou a dormir e esvaziou o estuário. O acesso descia vertiginosamente até ao navio. De um lado e de outro pontificava o lodo. Pensei se q embarcação iria navegar a sua cais do cais ou escavá-la…

IMG_20170313_070901_852.jpgA vantagem de ter perdido a ligação habitual foi que tive a oportunidade de assistir ao nascer do sol durante o percurso para a capital. Decididamente Há espectáculos na natureza que a capacidade humana nunca conseguirá replicar. Já me dava por contente se não os estragassem. De repente lembro-me que hoje tenho consulta de dentista e tudo o que me parecia belo passou a tenebroso. 

A senhora entra no barco de cara medonha. Isola-se num banco e perscruta a sua bolsa na procura de alguns utensílios. Saca de uma bolsa de dentro da bolsa. Numa expectativa matrioska pensei que dali sairia outra bolsa. Engano meu. Da bolsinha saíam utensílios para pintar. Não para pintar quadros, embora às vezes também possam fazer arte. Lá estão um espelho de bolso, um batom, um lápis e um rímel. No espelho avalia a par e passo o resultado da sua empreitada. A onda malandra treme o risco que se queria preciso. Pensei que a senhora sacaria uma borracha da bolsinha. Engano meu. O utensílio pra corrigir aquele acidente de percurso foi um mindinho salivado. A senhora guarda diligentemente os objectos dentro da bolsa, que por sua vez acomoda dentro da outra bolsa. Com confiança a senhora perfila-se, tentando medir o impacto da sua obra na opinião pública. Da minha parte estava rendido. Nem parecia a mesma. Estive quase para saudá-la com uma ovação de pé, mas julguei que podia se demasiado. Interiorizei um bravo e pensei que também eu podia aderir às maravilhas da maquilhagem. Com certeza que só podia sair favorecido. Eu e muitos outros homens de aspecto miserável.

II

Ontem tinha passado na livraria Pó dos Livros à procura da obra “Utopia” de Thomas Moore. As várias edições estão todas esgotadas e pensei que lá poderia encontrar no meio dos livros usados. Não tinham… Mas ficaram com o meu número de contacto para no caso de o descobrirem por aí. Ainda nem duas horas tinham decorrido e já me estavam a remeter um SMS a dizer que tinham a obra lá guardada em meu nome.

Hoje aproveitei a hora de almoço para ir buscar o livro. A edição é antiga e deliciosa, vinda de uma colecção coordenada pelo Professor Bento de Jesus Caraça. No metro, quando regressava ao trabalho, lanço os olhos pela obra na qual entra um viajante português. O meu agradecimento a uma livraria especial, com pessoal extraordinário.

Nota: perdoem-me a publicidade gratuita.

III

IMG_20170306_191834_840.jpgUma das coisas que registo sempre com curiosidade é entrar nos túneis do metro com um determinado estado do tempo e sair com outro. Parece que passamos numa espécie de portal para uma realidade paralela. Esta tarde, quando entro nos túneis o tempo estava estável, embora o sol não brilhasse. Não havia vento, nem céu sobrecarregado de nuvens. Quando saí parecia que uma hecatombe se tinha abatido sobre a capital. Chuva tocada a vento e uma negritude que tinha invadido o céu da tarde, dando-lhe uma tonalidade já nocturna. As águas do Tejo tinham-se abespinhado perante tal intempérie e espumavam com sofreguidão. 

Enquanto o barco fazia seu caminho, maldizia o facto de ter um mau relacionamento com o guarda-chuva e raramente andar com um. Por outro lado, agradecia ter adormecido pela manhã e ter trazido o carro até ao Cais, estando estacionada praticamente à porta do barco. Menos mal…

8 de Fevereiro – quarta-feira

I

De madrugada todos os gatos são parvos. Principalmente aqueles que na realidade gostavam de ser mecânicos e surgem desaustinados de debaixo dos carros. Devem ter bebido a gasolina, tal a velocidade com que arrancam ao sentirem barulho ou pessoas perto do veículo. E nós, saltamos a celebrar o susto que o bichano nos prega. Depois admiram-se que a Dona Chica atire o pau ao gato…

Tenho para mim a ideia de que não existem gatos pretos. Existem mecânicos desajeitados que ficam sujos de óleo. E já se sabe que os gatos não são grandes adeptos do banho. É que aquilo não vai lá à lambidela. Com isto vem-me à lembrança o “Gato Preto, Gato Branco”, de Emir Kusturica. Um filme a rever, num futuro próximo.

Tomo nota de uma ideia para um possível artigo de opinião. Abri outras folhas, de outra sebenta, para a registar. A grande vantagem dos transportes públicos é esta. A possibilidade de ter mãos livres (pelo menos quando viajamos sentados) e do nosso pensamento poder divagar por lugares distantes, sem ter a obrigatoriedade de estar concentrado no caminho ou condução.

O barco prende as amarras. É tempo dos humanos zarparem.

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II

Hoje duas ou três questões cativaram a minha atenção. Logo à partida a já apelidada “lei da chapada”, promulgada por Putin. Pelos vistos deixou de ser considerado crime por terras russas, a agressão a esposas ou filhos, partindo do princípio que não se partam ossos. Calma lá, que não somos nenhuns bárbaros! Sempre na defesa das tradições, mas com juízo. Uma profunda repugnância é o que sinto relativamente a esta medida.

Entretanto, por este cantinho à beira-mar esquecido, percebeu-se que os 10 anos previstos na legislação para que os edifícios públicos, ou privados com usos público, fossem adaptados a pessoas com mobilidade condicionada, não são de forma alguma suficientes. Principalmente no caso das câmaras municipais. Os exemplos multiplicam-se de Norte a Sul do país, independentemente da dimensão ou cor política do município. Também nos transportes públicos ainda há muito por fazer neste particular.

Por último a precariedade. Questão que tem sido recorrente nos últimos dias, mercê do famigerado relatório do governo sobre o número de trabalhadores precários a desempenhar funções no Estado. Disse bem; trabalhadores, não colaboradores. Numa primeira alusão ao mesmo, falava-se em 100 mil. Não sei porquê pressinto que são mais. E acho que todos partilham deste pressentimento. A questão de fundo é perceber como se vão conseguir inserir os mesmos no quadro, tendo em vista as actuais limitações legislativas. Parece que a única forma de contornar este obstáculo é fazendo passar nova legislação que permita encaixar estas pessoas. Que a geringonça se porta bem nesta matéria. Falamos da vida das pessoas…

Tinha falado em duas ou três questões que me tinham suscitado atenção durante o dia. São mais três, do quem duas. Relativamente à terceira parece que vai para o ar uma reportagem na Antena 1 referente à precariedade. Fecho o caderno e ligo o rádio.

7 de Fevereiro – terça-feira

I

Passo ao largo da escola que pediu nome emprestado ao poeta Joaquim Serra. Nesse mesmo momento compreendo que não conheço a poesia de quem se fez suficiente para baptizar um estabelecimento de ensino. Aliás, nem sei se é filho da terra... Salto para o telemóvel para tentar investigar sobre o assunto, mas a malandra da geringonça está arisca e teima em não colaborar. Tenho de investigar mais tarde. Isto se me lembrar, claro está. Muitas ideias e pensamentos que tenho na rua dispersam-se e desvanecem.

Nota-se que os dias estão a ficar mais dia e menos noite. É das coisas que aprecio quando vamos no sentido da estação mais quente. Isso e o horário de Verão; quando o período diurno se estende e nos obriga a adiar o jantar e a deitar mais tarde. Durmo poucas horas, não me causa transtorno essa exigência. Nos últimos dias tenho dormido ainda menos. Encetei a leitura da “Guerra do Fim do Mundo” de Mario Vargas Llosa. Aquilo é uma bíblia com mais de 600 páginas e um peso considerável, o que limita a sua leitura nos transportes públicos. Assim prefiro lê-lo em casa, o que me tem levado a descurar tarefas domésticas, a limitar o visionamento de televisão e a roubar tempo ao sono. Mas tem valido a pena. Sacana do Conselheiro bem os leva nas palminhas. Ainda estou para ver o que é que aquilo vai dar entre republicanos e monárquicos, libertários e proprietários. Anda para lá uma confusão...

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É engraçado ver que na linha amarela há uma estação em que o tempo de espera cristalizou. De há uns dias para cá faltam sempre 50 segundos para o próximo comboio. Poderá isto ser uma forma de devolver alento aos utentes devido às constantes perturbações? A mim engana-me sempre. Ainda hoje esperei mais de 3 minutos, quando o placard anunciava os tais 50 segundos. A Administração do Metro que reequacione este procedimento. Eu quando necessito de me sentir enganado peço um extracto fiscal e chega-me perfeitamente.

II

Nunca me lembro do nome dos utensílios que existem no metro, semelhantes a uma argola, que servem para os passageiros que viajam de pé se segurarem. Aliás, nem tampouco sei se aquilo tem nome... O que sei é que a mola que os prende faz sempre um barulho infernal, à medida que que os utentes fazem dançar a sua mão para trás e para a frente, acompanhando os solavancos das carruagens. Talvez por isso, tantas optam por não se agarrarem a esse objecto. Não pretendem ser o centro das atenções. É algo inevitável; quando começa o chinfrim todos os olhos da carruagem convergem nesse ponto, nessa pessoa. Numa composição de 3 carruagens apenas um indivíduo esse apetrecho.

O homem laranja ainda não foi notícia hoje. Não deve ter “tweetado”. Deixa cá ver... Afinal já “tweetou”, mas nada com grande polémica, apenas coisas estúpidas. Seria de esperar que semelhante personagem fosse ficcional ou extra-terrestre, mas não. Apenas um oceano nos separa. Mais irreal ainda foi ter chegado à presidência da maior economia mundial. Muitos poucos acreditavam que tal era possível. Eu fui uma das pessoas que pensei, jamais. Muitos milhões de pessoas tiveram de engolir em seco e assistem agora atónitas aos desenvolvimentos diários de pós-verdades. Nunca quis ouvir quem me ia alertando que era possível. Bem, possível é sempre, mas eu nunca acreditei. O pior é que se concretizou e ainda pior é que está a tentar levar a sua agenda em diante. Valha-nos as inúmeras manifestações diárias contra os seus procedimentos e os tribunais que têm estado atentos aos decretos presidenciais que ferem, inúmeras vezes, a constituição local. O mundo da artes e do entretenimento também se coloca frontalmente contra este presidente. Tal como muitas das maiores empresas estado-unidenses. Estas últimas por razões puramente mercantilistas, uma vez que o proteccionismo irá reduzir largamente o seu universo de consumidores e perigar a actual tendência globalizante.

Não sei porquê, mas tenho a sensação que voltarei a este assuntos nestes meus relatos.

6 de Fevereiro – segunda-feira

I

De início pensava que podia sair destes escritos um livro. Depois questionei quem é que no seu perfeito juízo estaria disposto a comprar um compêndio de apontamentos, divagações e alucinações que um comum mortal regista durante as suas viagens em transportes públicos? Era demasiado pretensiosismo da minha parte. Decidi então registar tudo num sítio da internet ou criar um blogue, onde colocaria estes relatos. Teria de me apressar, pois já havia um mês de escrita pronto para passar ao monitor.

O leve balouço do barco amadurecia esta ideia e concluía que seria o melhor caminho a tomar. O problema é que graficamente tenho a sensibilidade de um bacalhau. Daqueles já espalmados e salgados e tudo… Teria de reunir opiniões e ajuda de pessoas que se movimentassem bem no mundo digital. Simultaneamente, a solução a adoptar teria de ser simples o suficiente para conseguir dominar os seus pressupostos e actualizar facilmente o conteúdo, diariamente ou semanalmente, ainda não estava certo do que seria melhor e/ou possível.

Aos 30” de tempo de espera faz eco no cais o barulho no metro a aproximar-se no túnel. A senhora com a sacola de couro levanta-se de um movimento e desloca-se para a beira do cais. Sem nunca ultrapassar a linha amarela, tal como o anúncio tantas vezes repetido. Saltita de um pé para o outro, numa clara ânsia de ver chegar a composição que a levará ao seu destino, ou então somente a outra ligação. Quando entramos senta-se imediatamente e começa a esfrega freneticamente no ecrã do telemóvel. Deduzo que trocaria informações com alguém do outro lado do visor. Ia acompanhando o diálogo através das expressões do seu rosto. Ansiedade, felicidade, decepção, alegria, dúvida… Tudo em micro-expressões, como gostam de dizer os entendidos. Em segundo de emotividade. Saí antes dela; não soube o fim da conversa.

II

Ocasionalmente, quando o catamarã cruza sua rota com a rota de outro barco de igual ou superior dimensão, sofre um efeito balancé devido à ondulação momentânea provocada. Outrora lembro-me que me causava uma impressão no estômago perante esta situação. Agora só me causa um ligeiro arrepio quando a ondulação é realmente grande; daquelas que o rabo dá um saltinho no assento. Tal como tudo na vida habituamo-nos a conviver com a excepcionalidade, que, pela sua frequência, passa a trivialidade.

Olho pelo vidro e vejo o gentil bailado das aves marinhas. Outras mais ao fundo, perscrutavam o lodo à procura de petiscos. Também a esta beleza natural já me habituei. Antes colava-me ao vidro maravilhado pelo voo da garça, a elegância do flamingo ou o mergulho do pato bravo. Agora também isso fazia parte da banalidade. Para que continuasse a ser especial precisava de fingir a estupefacção de vez em quando. Tal como fingia o frio na barriga ao sentir o balouçar do barco. Mesmo que isso me valesse a reprovação silenciosa daqueles que me acompanhavam na ligação fluvial.

Enquanto percorro a estrada paralela à vedação da Base Aérea n.º 6, noto que para lá da rede existem muitas árvores jovens recentemente plantadas. Não posso deixar de sentir compaixão por estes espécimes, pois caos se confirme que este espaço será adaptado também à aviação civil, terão os dias contados.

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Já na cidade, a senhora rega o relvado de sua moradia com visível orgulho. Não é razão para menos. O verde é tão verde, que até custa olhar. Chego a pensar que o que a senhora tem na mão não é uma mangueira mas uma pistola de pintura. Na realidade esta não rega a relva; pinta-se de um verde brutalmente vivo. E até os pardais são enganados, como comprova a felicidade com que se engalfinham entre as ervas pintadas de fresco. Só mais tarde, ao poisarem no ramo da árvore habitual, e ao relatarem estridentemente as aventuras voadoras do dia antes de dormir, repararão no verde das suas patinhas, sem encontrarem explicação lógica para o fenómeno.

4 de Fevereiro – sábado

I

Apesar da janela do carro meio descida e do vento de feição, não me chegava às narinas o habitual cheiro a alho daquela fábrica. O letreiro sobre o portão já não era o mesmo, mas não pensava que tinha alterado o seu odor. Ocasiões havia em que o mesmo fartava a atmosfera, mas noutras apenas libertava um leve aroma, como se de um refogado se tratasse. Era delicioso. Por outro lado, a comunidade pode agora estar mais sujeita à visita dos vampiros, que, como todos sabemos, comem tudo e não deixam nada.

É com alguma frustração que denoto que aos fins-de-semana os transportes públicos são tão horríveis como aos dias úteis. Secretamente alimentava a esperança de que nestas ocasiões houvesse outra atenção para com os utentes e alguma classe reservada. Mas não; são a mesma mediocridade, mas com menor frequência.

As águas rebeldes do estuário, impulsionadas pelo forte vento, “acupuntavam” o caso do navio. Tremido seguia seu rumo. Enfrentava com bravura a intempérie, seguro que chegaria a bom porto. Ouvia-se distintamente a desilusão das ondas a desfazerem-se no casco do catamarã. Desta vez não levarão a melhor, certamente. Os vidros salpicados confirmavam isso mesmo, pois lá fora já se avistava a margem do nosso destino. E um raio de sol iluminou o trajecto restante. 

Antes de atracar o barco foi sacudido três vezes e brincou aos carrinhos de choque com o pontão. Lá se prenderam as amarras e se descarregaram os passageiros. À volta falaremos novamente.

São em ocasiões como estas que mais venero as maravilhas dos headphones. Não percebo muito bem como começou esta moda, nem sei se poderá ser uma necessidade face a problemas técnicos, mas a realidade é que me irrita profundamente as pessoas falarem ao telemóvel através do sistema alta-voz em espaços públicos. Este fenómeno tem particular incidência no metro. Que moda mais parola.

II

É impressionante o número de pessoas que mesmo ao sábado o metro transporta. A linha verde circula cheia e sem perturbações (até parece mentira). Passageiros entram e saem em todas as estações. Sem ligação entre si, as suas vidas entrecruzam-se fugazmente nas portas das composições. Por vezes meto-me a pensar... E se fosse mais do que isso? E se daquele lampejo se constituísse relação? Ideias vão-me surgindo amiúde durante as minhas viagens. Por exemplo: carruagens do metro temáticas; viagens onde se debatiam questões do dia-a-dia; tertúlias em torno da participação cidadã; sketches humorísticos curtos que tivesse a duração de uma viagem entre estações e fossem sendo repetidos nas várias carruagens; peças de teatro (ou excertos) protagonizados numa viagem; declamação de poesia; concertos musicais…IMG_20170103_070313_594.jpg

Quando entro no barco venho ainda envolvido nestas ideias. No percurso fluvial, com a duração de meia-hora, haveria tanto espaço à criatividade e a chegar às pessoas, quebrando o seu quotidiano. O rio corre agora mais sereno e isso reflecte-se na marcha do barco. A noite começa a cair e as margens começam a produzir sombras, invés de formas identificáveis e tangíveis. Em breve chegarei à outra margem, para onde o rio é passagem. Mais uns minutos e estarei no aconchego da família. Sabe tão bem em noites ventosas de Inverno.

3 de Fevereiro – sexta-feira

I

O vento saúda-me ao sair de casa. Não uiva, mas faz questão de demonstrar a sua presença. Apresenta-se do quadrante Sul e encrespa as águas do estuário. O barco lá avança, balouçando mais que o habitual. Na margem da metrópole o estuário parece querer engolir o passeio marginal, tão crescido se encontra e galvanizado pelo vento seu aliado, que lhe protege as costas.

Pergunto-me se não terá já invadido os túneis. Tranquilo. Tudo está seco por ali, mesmo que muito abaixo do nível da preia-mar. Tirando as mais que insistentes infiltrações e goteiras, facilmente resolvidas pela colocação estratégica de baldes, tudo está normal. Tão normal que até a linha verde apresentava as suas usuais perturbações.

Na carruagem de metro fecho os olhos. Apenas para perceber como percepciono as coisas sem o estímulo visual. Os solavancos parecem mais reais, o chiar dos materiais mais audível e os sons da locomoção mais claros. Há momentos em que quero adormecer, envolto pelo doce som dos carris e a contínua presença do ruído da renovação do ar da carruagem. Mas quando me embalo e estou prestes a ceder, o sistema de som faz questão de distorcer qualquer coisa que me obriga a permanecer acordado.

II

De um azul vibrante. Em vários tons. Essa era a coloração do cabelo da moça solitária, que escondia por trás do ecrã do telemóvel todo o seu desconforto perante o olhar julgador de quem a rodeava. Mesmo após ter saído da carruagem os olhos inquisidores mantinham a censura sobre aquela singela diferença. Pensava que já não existiam este tipo de atitudes. Que era coisa do passado, a repulsa liminar da diferença. Cabisbaixa lá seguia a moça ao longo do cais, muito nova ainda; nova demais para isto. E a única coisa alegre naquele quadro era a vivacidade da cor do cabelo da moça.

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Precisava de ir aos correios. Saí à baixa da capital e não haviam tuk-tuks. Por um instante pensei que me tivesse enganado e apanhado a linha de metro para uma capital indiana. Mas depois vi o arco com a senhora a colocar coroas de louro sobre a cabeça de dois indivíduos e percebi que estava no sítio certo. Quase em simultâneo passa por mim um tuk-tuk; comprova-se. Estou mesmo na baixa de Lisboa.

Por um ou dois minutos falhei o barco à hora certa. Esperaria mais 30 minuto. Isso dava-me a oportunidade de ir medir a tensão arterial do rio, que hoje devia ser bem alta, alimentada pela corrente de sudoeste. Pulava e respingava nervosamente em todas as direcções. Um ou outro salpico chegavam a mim. E eu agradecia a partilha. Distraía-me durante aquele tempo morto. Que horrível expressão essa. Como é que o tempo pode ser morto? A última vez que comecei a pensar nisto relacionei com aquela lenga-lenga do “tempo que perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem”. Na altura, a irritação foi tamanha que parti a merda do relógio de pulso e nunca mais usei um. O tempo é vivo e cheio de particularidades e perspectivas. E isso nunca irá mudar.

No percurso fluvial recordei que hoje era dia de assistir à estreia mundial de um espectáculo de dança. O bailarino Fábio Simões tinha escolhido a sua terra natal – o Montijo – para tal acontecimento. Senti uma ponta de lisonja ao saber que seria um dos pioneiros pares de olhos a presenciar aquela novidade. Estava em pulgas. Que o tempo fosse agora muito vivo. Que os segundos galopassem os minutos, que galopassem as horas que separavam, a mim e restante família, de presenciar aquele momento. Espero não me desiludir.

III

Uma pequena adenda apenas para dizer que não me desiludira. A única parte negativa do espectáculo foi o tempo ter passado tão depressa. Fiquei seriamente surpreendido com a qualidade daquela criação artística. Sedento de ver mais deste bailarino (digo, artista), que provavelmente, e à semelhança de muitos outros, terá mais reconhecimento lá por fora do que entre fronteiras.

2 de Fevereiro – quinta-feira

I

Já vou preparado quando subo ao autocarro. Numa mão o passe social já com o mês de viagens carregado, na outra a quantia certa para pagar a dívida contraída com o motorista da carreira. Por momentos pensei que poderia não ser o mesmo, naquele secreto e estranho desejo de manter aqueles trocos por mais uns tempos do meu lado, sem ninguém saber que na realidade não eram já meus. Depressa se apagou essa sovinice da minha consciência, ao ser recebido pelo mesmo rosto redondo e mãos confiantes, que sempre me conduzem com perícia e engenho ao cais de embarque.

O veículo caía de podre. Ressoava barulho de todas as juntas. Nem o moderníssimo monitor informativo funcionava. Apagava-se a cada ressalto da estrada, parecendo estar sintonizado no canal da mancha. Bem, antes isso que no Canal Caveira, essa estação pirata. Embora se coma lá muito bem.

Imaginei se este poderia ser o sítio inicial para uma nova revolução. Uma revolução que colocasse o género humano como factor principal e cerne da questão. E não o Manuel Germano, como tanto gostam de dizer os habitantes do Beco das Sardinheiras. Mas, desta vez seria a sério. Questiono-me se aquele barco poderia ser o veículo da revolução, qual chaimite dos mares, desviando eu o rumo do mesmo para Canal Caveira. Depois lembro-me que a localidade não fica no litoral, nem perto de rios navegáveis. Eles que comecem a revolução sem mim, que eu apanho a próxima…

Já no metro besunto-me de vaselina, no sentido de me fazer escorregar para o interior de uma das carruagens prestes a deixar o cais. Lá consigo, com algum custo, concretizar o meu intento, com a firme convicção que seria a última pessoa neste particular. Engano meu. Já se ouvia o silvo tripartido que anuncia o fecho de portas, quando um indivíduo, à bruta e de costas, forçou toda uma muralha humana até à beira da derrocada. A porta lá fecha a custo, depois de vencer a resistência da proeminente barriga do bruto.

Entretanto alguém decide partilhar as suas flatulências com os restantes passageiros, como que acrescentando uma quarta dimensão àquela viagem – a dimensão olfactiva. Escusado será dizer que não fui eu. Se fosse não abordaria com certeza o assunto. A malta agradece aquele nauseabundo momento, digno dos piores registos cinematográficos de Eddie Murphy.

A mim ninguém me tira a ideia de que foi o bruto que ficou com a barriga espalmada que se viu obrigado a soltar o gás…

II

A precursão com motivos industriais, ao som da qual o cego solicitava a caridade alheia, aproximava-se. Era uma forma diferente de pedir. Era também uma forma diferente de interagir com os passageiros do metro. Quando as moedas caiam na lata em ritmo constante tudo corria pelo melhor e a musicalidade invadia a carruagem. Já quando julgava que os seus objectivos não teriam sido alcançados, uma animosidade sentia-se no ar e o vernáculo por vezes tomava forma.

Naquela tarde, o rio corria à velocidade de Bolt. E o vento tentava acompanhar, mas ainda não chegara a esse patamar. Uma onda tresmalhada quis sair do rebanho e quase me apanhou distraído. Na realidade apanhou-me mesmo distraído, mas ainda assim estava distante o suficiente para não acabar com os sapatos ensopados. Mesmo assim, tudo parecia mais calmo do que tinham anunciado. Então quando o barco entra no braço de rio, zona mais protegida, a calmaria é total e o vento quase inexistente. Perante semelhante conjuntura, associada a um cenário de preia-mar, a faixa ribeirinha estava bastante composta de pescadores que lançavam a sua cana à sorte, talvez mais por desporto do que por uma questão de sobrevivência. Nunca consegui perceber porque se fala em “lançar a cana”, se esta é precisamente o objecto que fica na posse do pescador; mas enfim…

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Questiono-me se o peixe recolhido daquelas águas será indicado para consumo. Não sei se arriscaria.

O cão espeta o focinho entre as grades da vedação. Mais incitando o convívio do que numa postura intimidatória. Tinha uma expressão simpática e carente o que faz com que, se me aperceber, aproximasse a mão da sua cabeça. O latido instantâneo, curto e grave, foi tão inesperado que saltei de imediato para além do passeio, ao mesmo tempo que abanava fortemente a mão, apenas para garantir que esta estava ainda presa ao meu braço. Há uma lição a retirar disto, mas eu não sou dado a moralismos.

1 de Fevereiro – quarta-feira

I

Hoje virou o mês e rasga-se mais uma página do calendário. O mundo inteiro sabe disso; até o meu passe sabe disso. Eu não… E represento o imbecil papel de passar incessantemente o cartão frente ao leitor, pensando que a mensagem “leitura incorrecta” só podia ser resultado da casmurrice daquela máquina. Evidentemente que não o era. O motorista faz questão de clarificar: “hoje é dia 1”. Senti que uma profunda burrice descia sobre mim. Ao mesmo tempo maldizia a diferença de pagamentos entre títulos de transporte e o problema de não conseguir ter um passe para toda a rede metropolitana de transporte público.

No momento que saco das moedas para pagar a tarifa de bordo alcanço o nirvana das vergonhas. O dinheiro não chega. O motorista intervém: “O amigo apanha a carreira todos os dias. Não se preocupe; paga amanhã”. O simples obrigado não é palavra suficiente para agradecer a confiança depositada na minha pessoa, mas é a palavra que aplico na ausência de encontrar outra mais adequada. Sempre me conforta um pouco esta atitude. Não me posso esquecer de trazer dinheiro amanhã e de carregar o passe à primeira oportunidade.

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A primeira oportunidade foi perdida. Aguardo pela segunda…

Já devem ter desconfiado que não sou médico. Nem nunca me interessou sê-lo. Talvez por isso nunca perceba muito bem se a maleita que enfrento neste instante é uma constipação ou uma crise de renite alérgica. As consequências são normalmente idênticas: congestão nasal e garganta irritada. Os pacotes de lenços nunca são suficientes para apenas um nariz. E os rebuçados para aliviar a garganta são consumidos à velocidade da luz. Na realidade, esta é uma questão que amiúde me assola. Mas não me posso deixar levar pela mesma. Não quero ser daquelas pessoas que são um autêntico repositório de doenças, sempre a queixar-se disto ou daquilo e que sabem o nome de todos os medicamentos e mais alguns. Eu basta-me conhecer o brofen e a aspirina; chega perfeitamente. Nem me recordo do nome dos anti-histamínicos que normalmente tomo. A médica coloca as palavras num papel A5 e na farmácia traduzem isso em comprimidos, em troca de uma compensação monetária. Isso chega-me Não pretendo tomar o lugar dos entendidos na matéria e deposito nestes profissionais toda a minha confiança.

Não me levem a mal. Tento ter cuidado com a minha saúde. Luto arduamente para manter o meu peso abaixo dos 100 quilos, o que já não é uma questão de somenos. Mas prefiro não manter a minha vida em suspenso pela ditadura do saudável.

II

Volto a ouvir a ideia de que a crise económica que nos assolou, e ainda não nos abandonou, é, no fundo, uma oportunidade. Também tive a oportunidade de rever a matéria dada em termos de novilíngua. Assim, recordei que colaborador quer dizer trabalhador ou funcionário e que reestruturação é sinónimo de despedimento. Isto tudo equivale a dizer que a vida da malta está fodida, mas com nota artística.

É outro luxo quando nos apresentam o abismo da miséria com linguagem cuidada. O neoliberal adora o tom formal do seu discurso. Fá-lo sentir uma réstia de humanismo. E esforça-se sempre por deixar a porta entreaberta. Nunca se sabe quando é que necessitará novamente do “colaborador reestruturado”, de preferência pagando metade do salário anterior e com um vínculo contractual ainda mais precário (desenganem-se; sim, é possível).

Quando chego à ligação fluvial começam a sentir-se os primeiros prenúncios do temporal que se irá abater sobre o continente depois de desistir de fustigar o resiliente povo açoriano. Já no autocarro duas mulheres gritam entre bancos paralelos sobre o agravar do estado do tempo e sobre as novidades de possíveis acidentes ocorridos nos Açores. Uma delas, mais informada, garante que não, que não houve nada e está tudo calmo. A informação parece revestida de uma certa mágoa na voz. Como se fosse roubado assunto às conversas de ocasião…

31 de Janeiro – terça-feira

I

Ontem uma estranha sonolência apoderou-se de mim. Eu que nem sou tipo para dormir, sentia uma necessidade absoluta de o fazer. Deitei-me mais cedo do que alguma vez me lembro ter feito. E mesmo assim, quando tocou o alarme, ainda reclamava por mais umas horinhas.

Na rua, o vento fazia questão de me lavar novamente a cara com pingas roliças e frias. Como que a recordar-me que afinal estava acordado. Meditei na minha inexistente relação com o guarda-chuva. Em tempos ainda tentei. Tenho até ideia de ter comprado alguns, mas perdi muitos mais. A minha animosidade com semelhante utensílio começa logo no nome. É enganador. Ora, se uma coisa se chama guarda-chuva devia ter dentro de si o objecto do seu nome composto. Por exemplo: o guarda-roupa tem roupa lá dentro; o guarda-jóias tem jóias no seu interior. Então, porque raio o guarda-chuva não nos reserva chuva? Neste aspecto revejo-me muito mais na expressão utilizada por nuestros hermanos: “paraguas”. Esta sim em lógica.

Por outro lado, também me irrita o braço estendido, com a mão a segurar um utensílio por cima da cabeça. Toda a gente sabe que as mã foram feitas para andar nos bolsos, principalmente durante o Inverno. Ali com a mão ao alto pareço uma espécie de porta- estandarte e estou sempre a olha para trás para perceber onde está a restante comitiva olímpica. Comodamente tinha esquecido a promessa que fiz de sair na estação anterior ao meu destino pela manhã. A realidade é que desde o primeiro dia em que quebrei esse entendimento, o tapete rolante que me acelerava e facilitava o percurso ao longo do túnel, deixara de funcionar. Hoje não foi excepção. Fica claro que o crime não compensa.

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II

A grande vantagem de nos fazermos transportar pelos túneis é não encarar dias tenebrosos como os de hoje. Em contrapartida, também não vemos os dias alegres e risonhos quando acontecem. Mas aí podemos optar por outras formas de locomoção, quando existem. Não há tanta pressa ou urgência.

É impressionante a influência que o estado do tempo tem no estado de espíritos das pessoas. Hoje andava tudo macambúzio. Ninguém parava de se queixar da chuva, mesmo que abrigados da mesma. Se calhar por isso mesmo a precipitação não cessava.

Quando chego à sala de embarque percebo que a maré deve ter subido demais, deixando generosas poças no pavimento. Mas a minha calva cabeça é presenteada com um grossa gota de água e aí percebo que aquela situação se deve às infiltrações no tecto. Desvio-me para deixar a goteira seguir o seu curso natural.

O barco que nos levará à outra margem não é do modelo usual. Quando zarpa tem a proa orientada no sentido da 25 de Abril e parece avançar resoluto. Já me imagino navegando em direcção à liberdade. Mas passados alguns segundos, uma curva de 180º frustra a minha ambição e deita por terra os meus sonhos de piratas e baías escondidas.

Ao atracar parece que descemos do mar para terra, tão cheio vai o estuário. Por estes lados parece que não chove, constato ao deslocar-me para apanhar a carreira. Pelos vistos hoje é dia de novidades. Também o autocarro não é do modelo habitual (embora isto não seja nada de anormal). A principal diferença reside no facto dos penúltimos bancos estarem virados ao contrário do sentido da marcha, ficando frente a frente com o último banco corrido, que ocupa toda a traseira do autocarro. Deveras estranho. Mas o que salta mais à vista são os varões de um vermelho vivo que percorrem todo o veículo para os passageiros se segurarem. Fazem lembrar bombeiros.

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Do lado de lá do vidro, o agente da polícia mandou parar o automobilista, a quem parece estar a escrever um poema. Devia ser engraçado as coimas serem passadas e pagas em poesia. Ora então, a senhora automobilista passou um traço contínuo, não é verdade? Ora isso equivale a dois poemas Florbela Espanca, um de Sophia de Mello Breyner e quatro de António Aleixo. Leve lá este poema de Ruy Belo para ir pensando no assunto e amanhã faça o favor de ir declamar a sua multa à esquadra mais próxima.

30 de Janeiro – segunda-feira

I

Os dias que começam com nevoeiro são sempre diferentes. Não que estivesse um nevoeiro cerrado. Nada disso. Antes aquela fina névoa, como que uma película exposta perante o nosso olhar. Mas mesmo assim tudo parece diferente. Aquele prédio, aquele autocarro, aquela estrada, ganham outra dimensão. O motorista faz uma travagem mais brusca. Não vê a senhora na paragem. Mas devia saber que costuma lá estar. Podia ser evitado este episódio. Percebo que afinal o motorista não viu foi a paragem, pois a senhora que normalmente a habita àquela hora, hoje não é sua inquilina. O autocarro segue marcha atrapalhado, tropeçando no seu própsio lapso. Ferro o olho nesta indecisão.

No estuário o tráfego é superior ao normal. O catamarã faz uma gincana entre navios que seguem sua rota, imensos como cidades flutuantes. De corpo pequeno e esguio vence a resistência e conquista a ondulação criada dentro da própria ondulação; sacudido mas inteiro sai da contenda. E assim nascem novas inimizades improváveis.

Enquanto me aperto mais um pouco e tento perceber onde devo poisar o pé esquerdo tento idealizar o dia em que a maioria das pessoas perceberão que o varão central junto às portas do metro não servem para se encostarem, impossibilitando dessa forma que os restantes passageiros se segurarem no mesmo. Aquele é um garante de segurança de todos; uma espécie de salvaguarda de equilíbrio para quem viaja em pé.

II

Hoje parece ser demasiado segunda-feira. Conto os minutos para poder fugir. Mal bate a hora saiu porta fora. O céu carregado da tarde borrifa os transeuntes. É demasiado segunda-feira, em tudo. No cinzento do dia e na preguiça reinante. Na paciência em falta e no sono em excesso. Que martírio; que custoso.

Preciso algo para quebrar a rotina e decido fazer o passeio ribeirinho que tanto prazer me dá. Mesmo que se mantenham os chuviscos... Vai fazer-me bem. Tenho uma sandes na sacola que fará companhia neste percurso (pelo menos enquanto durar).

A maré cheia associada ao vento Sul faz empolar as águas do Tejo encharcando porções do território humanizado, conquistado à natureza. As gaivotas vão-se divertindo planando contra o vento. Enquanto isso o velho cria esculturas equilibrando pedras. Dá caras e pinturas a algumas; outras são tão-somente a natureza em estado bruto e em fino equilíbrio. Aos poucos cria a sua aldeia em esculturas de calhaus. Por momentos páro a observar tão invulgar empreitada. O velho parece totalmente absorvido na sua tarefa. Pouco interessa as pessoas que vão assinalando a estranheza de tal entretenimento. Como se estivesse encarregue de executar algo maior que ele próprio e que muito poucos compreenderiam. Gostava de dizer que eu compreendia, mas estaria a enganar-me. Também eu era absolutamente ignorante quanto aos propósitos e objectivos que aquele velho teria. Mas este episódio enriqueceu o meu dia e aliviou o peso daquela segunda-feira demasiado segunda-feira.

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27 de Janeiro – sexta-feira

I

Ultimamente tenho reparado em mim uma particularidade difícil de definir. O facto é que muitas vezes dou por mim a raciocinar em modo prosa. Isto é, tento no imediato projectar o meu pensamento numa folha de papel, pronto a ser assimilado por quem o ler. Às vezes isso é bom porque facilita quando quero efectivamente escrever algo. Outras torna-se um empecilho, pois faço um filme autêntico de um vulgar diálogo com outrem, parecendo declamar certos momentos e rasurando aqui e além o meu próprio discurso. Poderia comunicar via caderno de notas, o problema é que tenho uma caligrafia francamente má. E isso daria com certeza azo a lapsos de comunicação.

O jornal diário local de hoje oferece uma revista. Ao que parece esta será uma realidade mensal a partir de agora. Agradeço esta leitura extra. Gosto de estar informado sobre a actualidade regional, que na maior parte das vezes escapa à voragem mediática dos escaparates. No barco abro o jornal e ainda começo a ler uma notícia. Mas o sono é muito e não me consigo focar (literalmente) nas letras. Opto por fechar os olhos. Um consequência óbvia de ser final de semana, este cansaço acumulado. Embora o treino alargado do miúdo ontem à noite também contribui para o mesmo. Mais de duas horas numa quinta à noite... Vicissitudes da parentalidade. Um dia, quando ele já não necessitar de mim para estas funções corriqueiras sentirei saudades deste momentos. Os pais são tipos muito incoerentes e injustos...

Alguém estendeu o papel de cenário negro por trás da capital. E eu tenho medo de sair do barco. Lá me obrigo, recitando o mantra “um homem não tem medo”. Com a sacola em cima da cabeça, corro até à estação do metro. Lá é com particular interesse que reparo que uma das intervenções de fundo para travar a degradação das estações é a colocação estratégica de baldes e caixotes, que se acentua em período de chuva, a fim de recolher a água que vai pingando do tecto. Em diversos locais existem também evoluídos de tubos e calhas que conduzem a água desde a infiltração ao escoamento mais próximo, desviando-a das instalações eléctricas. Noutros são instaladas bicas para escoar a água, pois o seu aparecimento é constante e não um exclusivo da época das chuvas.

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Estas são obras de engenharia que se consubstanciam numa enorme mais-valia para a operação de transportes públicos. No entanto, não posso deixar de inquirir sobre qual o destino dado àquela captação de águas. Sendo um recurso cada vez mais precioso, e que devemos preservar e utilizar com parcimónia, espero que esteja a ser dada a utilização devida ao mesmo. Tenho para mim que algures na rede existem umas termas secretas, só acessíveis aos portadores de cartão Viva Gold.

II

Quando regresso a casa penso num conceito verdadeiramente inovador – o Elvis Camões! No fundo é um indivíduo pelos seus 30 anos, com uma poupa cheia de brilhantina e uma pala no olho, com calças à boca de sino e um colete com franjinhas, que declamaria “os Lusíadas” ao ritmo do rock'n'roll. Era sucesso garantido junto do putos do liceu, obrigados a estudar aquela obra maior da nossa literatura. Era arredar as mesas e cadeiras e colocar as turmas a dançar que nem loucas. E poderia ser também negócio de sucesso. Imaginem venda de CD's e os concertos de Norte a Sul do país! Imaginem o lançamento de 1 CD por cada canto; dava logo 10 discos. Isso é mais actividade discográfica que alguns músicos e bandas de renome durante a sua carreira. Com um Tour por cada lançamento, claro. Bem, preciso urgentemente de de patentear esta ideia. Pode ser o meu plano poupança-reforma...

Entretanto percebo que as minhas botas deixaram de emanar aquele cheiro incómodo a borracha molhada. Parece que aquela vai ser uma relação frutuosa.

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26 de Janeiro – quinta-feira

I

O relógio do autocarro marcava 19:55. E eu dei por mim a pensar se esta escuridão se devia à noite ou à madrugada. Estava quase certo que minutos antes o despertador tinha-me amanhecido. Mas, por via das dúvidas consultei o telemóvel, o tal telefone esperto que nos dias de hoje tudo sabe e tua alcança, com esfrega daqui e um toca dali. Confirma-se que esta escuridão corresponde à madrugada. Tirando esse pormenor esse pormenor, desta vez não podia reclamar da carreia, pois estava em bom estado. Os seus componentes não se queixavam a cada aceleração ou travagem, não tinha estofos rasgados, não tinha maus odores e parecia relativamente limpa. Se quisesse ser picuinhas diria que não aprecio de todo o padrão do tecido que reveste os assentos. Manias…

O homem revira as folhas com paciência; de repente manda o jornal para o lixo e desata a correr estação fora. A mulher sentada ao lado do caixote dá um salto, enquanto observa atónita esta actuação. Abana a cabeça num movimento de reprovação. Gosto de pensar que tal se deve ao facto do indivíduo ter colocar no papel no caixote do lixo indiferenciado. Nunca ouvira falar de reciclagem? Embora, em abono da verdade, nas estações do metro não existam contentores específicos para essa finalidade.

A luva tinha sido abandonada na escadaria. Deixa à sua sorte parecia evitar com “classe” as pegadas ameaçadoras. É engraçado como numa fracção de tempo o nosso cérebro tem o condão de processar inúmeros cenários. Primeiro pensei que o melhor seria deixar a luva à sua sorte, mas com certeza que essa imagem me iria perseguir e nessa coisas a consciência não perdoa. Depois pensei que se ao passar lhe desse um pontapé suficiente para a retirar do meu campo de visão resolveria o assunto. Depressa percebi que tal não seria solução mais honesta. Por último decidi apanhar a solitária e entrega-la no guichet da estação. Na esperança que a mesma encontrasse a sua gémea. Como recompensa perdi o metro…

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II

O vento sul trouxe a chuva. A desculpa ideal para as pessoas tirarem as suas botas e botins da sapateira. No metro sentia-se o cheiro de borracha molhada. Olhei em volta e via apenas pés calçados com botas reluzentes. Uma das tendências do Inverno parecia ser as vulgares galochas da nossa infância, mas agora tinham enfeites como tecido, pêlo ou outros apliques. Os homens optavam mais pelas vulgarmente apelidadas de bota de montanha ou o botim, para aqueles que vinham trajados mais a rigor.

Mas o cheiro estava a tornar-se cada vez mais intenso e parecia emanar mesmo abaixo do meu nariz. Olhei para o chão e vislumbrei as botas manhosas que me vi obrigado a comprar, pois as que levava calçadas nessa manhã, depois de terem feito seguramente para cima de 10 épocas de inverno, decidirem descolar as suas solas por completo. Quanto entrei na sapataria e o senhor me perguntou se podia ajudar questionei-me se não devia antes eu oferecer ajuda ao seu proprietário. Para além da música pimba que se fazia ouvir, a organização caótica, semelhante à de uma feira ambulante, fazia adivinhar uma catástrofe eminente, ameaçando que todos ficássemos soterrados por caixas de sapatos da próxima vez que a “cantora” que se fazia ouvir falha-se uma nota. Reprimi o meu ímpeto e solicitei explicitamente um calçado o mais barato possível para chegar a casa, visto que tinha tido um acidente (e enquanto falava apontava para as velhas botas). Olhou-me de lado, mas sempre me foi perguntando qual o número que calçava. Apresentou-me um modelo de nota sóbrio de cor preta, pelo preço de € 10,00. Experimentei e saí calçado de fresco da loja, ao mesmo tempo que, involuntariamente, deixava um rasto de odor a borracha que agora estava também a sentir.

IMG_20170225_174549_657.jpgAs botas são aceitáveis, apesar de uma certa dureza sentida depois das primeiras léguas percorridas, talvez por ainda não terem sido devidamente amaciadas. Mas o seu cheiro é intolerável. Hoje pernoitam na varanda e amanhã logo as cheirarei, para perceber se há futuro nesta relação. Enquanto isso as minhas velhas botas, moribundas, companheiras de tantas viagens, jaziam no fundo do saco de plástico. Não sei se terão conserto. O sapateiro será o seu cuidador ou carrasco.

 

 

25 de Janeiro – quarta-feira

I

Hoje é dia de dentista. Não para mim, felizmente. Antes para o meu filho, que assim me acompanha até à metrópole. Calado e reservado, lá vai dizendo uma ou outra palavra de ocasião ou respondendo às questões que lhe coloco. Compreendo-o fraternamente. É cedo demais. Barbaramente cedo. A geada ri-se da nossa obrigação, enquanto permanece deitada à espera que os primeiros raios e sol a mande embora.

À medida que a carreira vai fazendo a sua gincana pelas estreitas ruas daquilo que já foi um bairro ilegal, e que agora é só um péssimo exemplo da falta de intervenção no planeamento urbano, as pessoas vão subindo para o autocarro. Comento com o meu filho que hoje estamos a apanhar muita gente que normalmente não vai neste autocarro, ou pelo menos não neste horário. Curiosamente é também o caso dele… Isso é comprovado pela quantidade de pessoas que não tem passe e compra a tarifa de bordo. Passamos ao lado do Parque de Exposições e constato que este ainda não sabe o seu nome. Quando será que lho ensinam?

Junto ao Tejo a atmosfera é a dos filmes de terror. Um denso nevoeiro reinava não deixando discernir o que era da terra e o que era do rio. O barco atrasa-se nas manobras de atracagem ao porão. Não estará fácil para o Mestre da embarcação. Lá entramos todos sem ninguém cair borda fora e o navio pode seguir rumo à capital. O miúdo recebe uma chamada no telemóvel. Certamente a mãe a perguntar se ele está devidamente agasalhado. Eu encosto a cabeça ao vidro, num leve sono de 5 minutos.

Se há coisa que me inquieta são os pompons no topo dos gorros. Para que é que serve aquilo? Será uma reserva extra de calor? Será que o próprio gorro tem frio? Não se entende. Acerca disso lembro-me da série South Park, em que os putos andam sempre equipados com gorros deste género. À excepção do Kenny. Esse é pobre e só tem direito a um kispo cor-de-laranja, com um capuz tão apertado que só deixa os olhos à vista (eh, eh, eh; olhos à vista…). Ou seja tem um casaco com gorro incluído para ficar mais barato. É também o personagem que morre em todos os episódios. Se isso não acontece assim, a série deixou de ter graça. Nestes casos, para mim, a tradição ainda devia ser o que era.

Não consigo continuar a ouvir o meu pensamento, porque no sistema de som da carruagem do metro anormalmente alto, a voz da senhora saía com uma distorção digna de uma música de heavy-metal.

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II

Enquanto me desloco para a incontornável ligação fluvial penso na notícia do dia – os barcos sem travões. Ao que parece um dos catamarãs matutinos chocou com o pontão da capital, dando origem a mais de 3 dezenas de feridos ligeiros. Quero afastar este pensamento, mas não consigo.

Isso era pelo menos o que eu pensava até me deparar com, a linha azul do metro. Depressa percebi que a sua perturbação iria fazer com que apanhasse o barco seguinte ao habitual. Na correspondência com a linha verde entendi que o barco seguinte passaria a ser o seguinte ao seguinte. E ainda bem que já não havia mais metros a apanhar, senão dificilmente chegava a casa hoje.

Perco o barco por minutos e decido preencher os minutos de espera redigindo uma reclamação relativamente ao serviço decrépito do Metro. Deixem-me só captar um sinal wi-fi e já vão ver o que nos espera.

A mera reclamação acabou por ser mais extensa que o devido e muito anormal. É da minha natureza. Tenho sempre que contextualizar as minhas zangas e desvenda possíveis soluções… Para além disso gosto de cuidar a escrita da mesma. Alegra-me pensar que do outro lado, quem recebe a minha reclamação a lerá com prazer e, por isso mesmo, será levada em consideração. Sei perfeitamente que sou um lírico em pensar desta forma, mas neste aspecto específico prefiro continuar a enganar-me; sob pena de desistir simplesmente de reclamar com as instituições e reservar a minha indignação apenas ara as redes sociais. Assim, reservo-me ao direito de disparar nas duas direcções (link reclamação publicado no facebook).

O barco chegava a bom porto e percebi que meia dúzia de pessoas tinham ouvido a notícia da manhã. Eu, por via das dúvidas, mantive-me sentando até o barco atracar e abrirem as portas de desembarque. Até porque a noite já caíra e eu queria saber onde punha o pé. O seguro morreu de velho e eu também quero chegar a ancião.

Se de manhã apelidava a carreira de caranguejola, agora à tarde nem sei como qualificar a mesma. Coloco os auscultadores e encosto a cabeça. É escusado. A trepidação do veículo e a multiplicidade de ruídos que o mesmo imite levam a melhor. Os únicos momentos de sossego é quando o motor se desliga em pleno andamento. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu, que acalmo. Penso positivo e contento-me por já não falta muito para chegar ao meu destino.

24 de Janeiro – terça-feira

 

 

I

Tinha ouvido que a temperatura iria aumentar, mas o sacana do acentuado arrefecimento nocturno ataca-me mal saiu do prédio. Cobarde. Apanhou-me desprevenido, com menos roupa. Encolho-me na evidência de que já não tenho tempo para voltar atrás.

O autocarro que apanho é o que se pode chamar uma autêntica caranguejola. Velho, se podermos considerar 25 anos como velho, e a cair de podre. Ao ralenti tremia como se queixasse do frio, com vidros a vibrar intensamente. Os barulhos parasitas não desapareciam em andamento, apenas ficavam menos audíveis devido ao som do desafinado motor. Quando travava parecia que todas as pelas imploravam por óleo e massa consistente. Manchas de bolor decoravam o interior. Até os monitores informativos instalados se recusavam a informar, exibindo um qualquer erro de Windows, que não consigo precisar qual era, pois estava de pernas para o ar.

As senhoras do costume não se calavam. Hoje estavam particularmente eléctricas e ruidosas. Coloquei os auscultadores e ajustei o volume para o nível alienação do que me rodeia. Enquanto navegava olhava pela janela, mas a vista só me devolvia escuridão. Era cedo demais.

A segunda escolha da leitura aleatória do aparelho é Modern Love dos Bloc Party. Todos os dias acordo com uma música na cabeça. Hoje, curiosamente, foi esta. Às vezes nem são cantigas da minha predilecção ou audição usual. Lembro-me que ontem acordei a “ouvir” Onda Morna de António Variações. Admiro o artista, que nos deixou cedo demais, mas não é frequentador assíduo ao meu reportório musical.

O poema daquela canção de Bloc Party intriga-me e não consigo perceber muito bem o seu sentido. No entanto, sempre me fascinou a ideia de que para se tentar chegar a alguém (no sentido de alcançar o seu sentido) se lhe oferece um livro. Que bela imagem: Mas o que mais me prende é a linha melódica. A forma como a música cai sendo construída. Iniciando de uma forma minimalista vão-se construindo camadas que edificam uma densidade única e levantam uma parede sonora, instrumento a instrumento. Para tentar chegar á amago desta canção coloquei-a em modo repetição e lá fui eu trauteando até ao trabalho. Só quando cheguei me ocorreu que ainda há duas semanas tinha escrito sobre esta canção… É, sem dúvida, muito importante para mim. Um clássico da música moderna e um espelho das relações amorosas dos tempos que correm.

II

Ao abrir o caderno não fazia a mínima ideia do que iria escrever. O dia tinha sido um vazio, como uma página em branco onde nada há a registar. A única coisa que fugiu à rotina foi um bombom intragável que me ofereceram, que parecia recheado com bagaço, bebida da qual fujo a 7 pés. Para rasgar este marasmo decidi fazer a beira-rio até ao cais de embarque a pé. Porque o tempo a isso o convidava e porque o tempo assim o permitia. Céu limpo, temperatura amena e quase meia-hora de espera até ao próximo barco.

Ao passar pelo cais das cervicais, aquele pareceu-me o local mais densamente povoado à face da terra, excepção feita à linha vede do Metro em hora de ponta. O sítio estava pejado de turistas asiáticos, sempre hiperactivos e hiperdivertidos. Se isto está assim no Inverno, imagino no Verão – pensei eu para comigo. Ou se calhar falei em voz alta, pois nesse imediato fui abalroado por uma legião de asiáticos com mapas em riste e smartphones e câmaras digitais. Riam-se muito para mim e diziam coisas que eu não entendia, mas insistiam em tirar selfies ao meu lado: das duas uma: ou viam-me com um ícone da cultura pop da cosmopolita capital (o que acho difícil de aceitar); ou confundiram-me com um qualquer jogador de futebol. Sou condescendente e alinho naquele lapso. No fundo diverte-me a ideia de um qualquer dia ver a minha cara estampada numa t-shirt manhosa Made in Tawain.

Sigo pela frente ribeirinha, apreciando o que está feito e o que está por fazer. Cativa-me o espaço pedonal conquistado e os locais de ócio plantados aqui e além. Mai à frente, um quiosque ribeirinho a nunca que a sua happy-hour dura na realidade 3 horas. (H)ora aí está um local a visitar no futuro; quando houver tempo a matar e uma noite ainda jovem.

Esta é uma interessante expressão: matar o tempo. Interrogo-me qual a origem da mesma. Gosto de pensar que foi alguém que agrediu violentamente um despertador para além do ponto de conserto, quando este o obrigava a acordar depois de uma noite de folia. Só pode.

Enquanto a carreira faz o percurso na direcção da minha casa vejo alguém a telefonar de uma cabine pública. E isso é sempre digno de registo nos dias que correm. Constatar que há pessoas que ainda tentam preservar as tradições.

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23 de Janeiro – segunda-feira

I

As pessoas na paragem afundam fundo as mãos nos bolsos, na tentativa de encontrar maior aconchego ou alguma fonte de calor. É uma vã demanda. Àquela hora da madrugada o sono e o frio levam sempre a melhor. É da lei das coisas. As estruturas existentes também não convidam muito ao conforto. Vulgarmente o design deixa as pessoas expostas aos caprichos climatéricos. Isto quando existem; quando a paragem não é simplesmente aquele poste de iluminação ou aquela árvore onde se conseguiu pendurar uma placa. Esta, de futuro, deve ser uma situação a acompanhar e melhorar por parte do poder local e prestadores de serviços, de forma a trazer mais pessoas ao uso dos transportes públicos.

No metro à medida que se aproximava a madrasta estação, o casal de namorados despede-se com ternura. Só mais um beijo, só mais uma carícia; enquanto o comboio não fecha as portas. Pouco lhes interessa a hora de ponta e o movimento pendular de encontrões sofridos. E as mãos unidas apenas se desprenderão pelo movimento guilhotinado do fecho de portas. Agora um vidro os separa. Colam as mãos, como nos filmes. E por momentos estou certo que sentem o calor um do outro. Quero acreditar nisso e noo nas suas expressões. Este foi o momento em que senti verdadeiramente o peso da idade. Parece tão distante a época em que me despedia do meu ente querido com semelhante paizão. A gora quando um de nós entra neste campo, o outro pergunta logo: “tu estás bem?” Na janela da composição ficaram as impressões digitais, que o técnico forense se apressava para recolher.

II

Uma jovem senta-se e abre um livro. Sim, daqueles com capa e letras e tudo. Para cúmulo começa a ler, deliciada, saboreando cada palavra. Para que a atenção seja total desliga o leitor de mp3 e guarda-o na mala. Perdida na leitura, nem percebe os olhares das pessoas que a rodeiam, num misto de receio e desconfiança… Esta miúda lê! Só pode ser perigosa. Ainda para ajudar à confusão, a rapariga usa calças rasgadas e coisas cravadas no nariz. Muito suspeito mesmo. Eu fico contente por ver que ainda há pessoas a ler livros de verdade, daqueles mesmo de papel. Nesse campo esqueço as minhas preocupações. Há sempre espaço para o objecto livro; em papel reciclado, pois claro. De repente, uma dúvida assola o meu espírito e de imediato confirmo se o livro que a jovem lê é ou não daqueles de auto-ajuda, que só servem para as pessoas ficar deprimidas ou empáfias até à última casa. Descanso-me; não é nada disso. Nem tampouco uma biografia de alguma pseudo-celebridade. Ufa!

Hoje a tarde é límpida e tudo se avista do centro do estuário. De Sintra à Arrábida; da 25 de Abril à Vasco da Gama. Tudo na linha do horizonte; tudo no campo de visão que se alegra perante tal paisagem. É essa a maravilha de navegar. Escolho a ligação fluvial pela clama que me transmite e a beleza que me proporciona. Certo que demoro mais e que às vezes apanho condições de navegação violentas. Mas essa é um pequeno preço a pagar pelo retorno que tenho.

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20 de Janeiro – sexta-feira

I

O despertador volta a ser derrotado pela minha ânsia de acordar; de viver. É a segunda vez esta semana… Mas desta vez deixo-me ficar mais uns minutos a contemplar a escuridão, até os meus olhos se habituarem e começarem a vislumbrar sombras e contornos, mercê da claridade gerada pela iluminação pública que se infiltra nos buraquinhos dos estores.

Na rua, os carros parecem ter recebido um acabamento em verniz, que os faz brilhar muito. Tiro um dedo do bolso, para verificar a espessura da camada de gelo. Na realidade tiro a mão toda mas mantenho o punho cerrado apenas com o indicador esticado. Ainda é uma espessura considerável (e fria). Enquanto espero o atrasado autocarro equaciono se também eu ali especado poderia ficar coberto desta película brilhante. Teria certamente de aprender com os carros, que embora sejam feitos para andar, desenvolveram uma técnica que os permite ficar imóveis. O som denuncia a chegada do autocarro. A mulher franzina, eu e o homem de bigode entramos nas suas aquecidas entranhas.

Por momentos penso como seria engraçado que também o barco estivesse coberto de gelo e brilhasse sob a ténue iluminação. Num quadro diferente e original. Mas, infelizmente, a realidade não acompanha a minha imaginação, Segue seguro na sua banalidade. A linha do horizonte é pintalgada pelas pequenas luzes. Aos poucos, as mesmas começam a definir os contornos da cidade, que acorda para a sua azáfama matinal. No meio da plataforma do metro, o pombo parece perdido. Entre fintas e simulações, lá se vai esgueirando aos passos humanos, cegos na pressa e assertividade. Esquadrinha o pavimento na procura incessante de mais uma migalha. Hoje o painel não avisa perturbações e o pombo parece apostado nisso para passar uma manhã tranquila naquela estação.

Entro na carruagem estranhando o vazio do seu interior. “Indeciso-me” na escolha do lugar, tamanha é a oferta. Sento-me no meio, no sentido da marcha. De frente para mim, mas na ponta da carruagem, senta-se um homem cego. Entretido com o som qua saia dos seus auriculares não percebeu no cartão multibanco que lhe caia do bolso. Aproximei-me e toquei-lhe no braço. Ele sobressaltou-se. Apanhei o cartão enquanto lhe dizia que o tinha deixado cair e conduzi-o à sua mão. Agradecido tocou-me na mão e por momentos foi como se os seus olhos ganhassem vida. Só me saiu um “não tem de quê” da boca para fora e recolhi-me novamente ao meu lugar. Quando me sentava recordei a promessa do dia transacto, de sair na estação anterior ao meu destino. Tarde demais; o meu preguiçoso subconsciente levou a melhor. Para castigo o tapete rolante não estava em funcionamento. O karma é uma cabra.

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II

Ao sair do metro sinto o cheiro inconfundível de sexta-feira à tarde. Ou é isso, ou é o odor a castanhas assadas. A minha memória olfactiva por vezes prega-me esta partida. Talvez por serem dois aromas muito caros para mim. Deparo-me com o carrinho do vendedor ambulante. Não restam dúvida. São sextas-feiras à tarde, quentes e boas que ele está vender. É difícil resistir. Compro uma dúzia, que vêm dentro de um pacote onde se guardam os bolos: Protesto veementemente. Aquilo é bom é embrulhadas em cartuchos feitos de folhas de jornais ou de páginas amarelas. Nunca tinha ouvido falar de reutilização? Que sim, dizia o vendedor. Mas a ASAE obrigava o homem a condicionar as sextas-feiras à tarde daquela maneira. Lá paguei contrariado, mas avisando de antemão que era meçlhor não apanhar nenhum feriado misturado com os fins-de-semana, ao descascar as sextas-feiras à tarde… Estavam no ponto. Estaladiças e com a casca a soltar-se com naturalidade, deixando um apetecível fim-de-semana à vista. Que bom é saborear aquele acepipe, num fim de tarde de sol invernal, sentado no paredão a ver o Tejo a passar.

Dentro das águas do estuário a japónica ri-se satisfeita. A maré vai alta e, por enquanto, a invasora está a salvo… Mas não por muito tempo. Pela margem sul os homens com traje de surfista estão a aguardar pacientemente a sua oportunidade, escondidos da GNR por trás dos arbustos.

À saída do cais uma bonita menina oferece-me uma flor, com um cartão preso. Distraído, penso que ainda não perdi o charme. Quando olho melhor par o cartão vejo que o mesmo leva o nome da loja de flores que acabou de abrir naquele espaço. Lá se esfumou a minha ilusão. Bem, ao menos a minha esposa adora flores, coisa que sempre esqueço, e isto pode render uns pontos lá em casa. Já agora deixa cá rasgar o cartão.

Nas voltas e revoltas da carreira tenho uma companhia na viagem, pelo menos até meio caminho. As nossas conversas são sempre interessantes e desta vez centram-se no tema das bases de dados e na privacidade para os cidadãos. Assunto a retomar, pois fomos interrompidos pela paragem onde a moça se costuma apear.



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